Pena que seja a cores

Pena que seja a cores

Assim que meu irmão chegou em casa com uma novíssima Yamaha AS3 125 de dois cilindros, zero km, minha ansiedade era tanta que liguei pra todos meus amigos contando a novidade. Meu primo e parceiro de todas as aventuras motorizadas foi o primeiro a saber, no meio da madrugada, e fez aquela pergunta que mais me apavora na vida:

– Legal! Que cor é?

– Hummm, er, hum, você não prefere saber a potência? O torque? Cilindrada? Tem de perguntar justo o que não sei!

Foi quando tirei o documento do bolso e ficou piorou ainda, porque estava escrito “grená e pérola”.

– Mas que raio de cor é essa: grená? Perguntei ao Irineu, que pacientemente explicou:

– É vinho!

– Tinto ou rosé?

Já a cor pérola o Irineu usou uma referência pouco educada para explicar (que me recuso a repetir), remetendo a certa secreção muito conhecida dos adolescentes. Ser daltônico faz parte da minha vida desde que nasci. É um pequeno defeito na comunicação entre o olho e o cérebro. Nosso cérebro constrói as cores a partir de três espectros: vermelho, azul e, verde o popular RGB (red, blue e green), ou magenta, cyan e sei lá mais o que, porque se tem uma coisa que a humanidade gosta é de inventar cores. Nos daltônicos o fio que leva a informação de uma dessas três cores foi partido e dá um curto-circuito que impede o cérebro de registrar algumas freqüências de cores. Especificamente no caso do daltonismo, conhecida como Síndrome de Dalton, as cores que confundem nossa cuca são verde e vermelho, o que para as pessoas simples como vocês é inadmissível por serem cores praticamente opostas. Bom, quem quiser saber mais sobre daltonismo e inclusive como nós os seres privilegiados enxergamos o mundo pode recorrer ao maravilhoso Google!

Nestes 48 anos de daltonismo já passei por situações realmente embaraçosas que só mesmo meus colegas são capazes de entender e daria para escrever um livro. Durante praticamente toda a vida eu esqueço desse insignificante detalhe, mas o mundo conspira para que eu volte a lembrar, sobretudo quando me vejo diante de um semáforo. Aquilo é uma espécie de esfinge daquelas egípcias que ameaça devorar o incauto se não decifrar seu enigma. “Decifra-me ou te devorarei!” é a célebre frase atribuída a esses monumentos que representam parte de leão, ovelha, cabrito, falcão, enfim um zoológico num só bicho!

Quando um daltônico percebe o farol à distância precisa decifrar rapidamente se a luz acesa está no alto, no meio ou embaixo. Felizmente no mundo todo a luz vermelha é maior de todas, até que alguém muito esperto criou a lâmpada de vapor de sódio para iluminação pública, mais luminosa e econômica que a luz de vapor de mercúrio. Só tem um problema: ela é amarela (ou laranja, sei lá!) e isso confunde demais os daltônicos. Por isso, o lema de todo daltônico no trânsito é “espere alguém ir primeiro”. Se o cara da frente passar, a gente passa, se ele frear, a gente freia. Se não tiver ninguém na frente a gente primeiro pára e depois espera a reação dos outros! Mas não se assustem porque em 36 anos dirigindo por São Paulo – a cidade com mais semáforos por km no mundo – eu nunca errei. Quer dizer, eu acho!

Muito pior do que no trânsito o daltônico sofre mesmo é no seu dia-a-dia. A começar pelo guarda-roupa, um daltônico não pode comprar suas roupas sem aconselhamento técnico sob pena de levar uma camisa lilás que jamais usará na vida. Ou ainda acreditar que uma gravata vermelho sangue seja uma peça ideal e discreta para uma cerimônia social discreta. Nos pequenos intervalos entre um casamento e outro precisei de ajuda de amigos na compra de roupas, mesmo assim o guarda noturno aqui da rua ganhou várias camisas que certamente ele só usou no carnaval. Sem contar as inúmeras vezes que saí de casa com uma meia de cada cor, acidente que só acabou quando implorei de joelhos à minha empregada que sempre enrolasse as meias aos pares. Mesmo assim esse embaraço só terminou quando decretei usar meias pretas pelo resto da vida!

Certa vez fui agraciado com um prêmio de jornalismo e precisei comparecer à festa de traje social, vestimenta que abomino mais que dobradinha. Sem contar com auxílio de uma companhia à época, corri no meu paciente vizinho e ele montou tudo na mais perfeita combinação possível. Terno, calça, gravata, cinto etc, mas esqueceu os sapatos. Até que pisei na festa e o Gabriel Marazzi quase teve um choque ao me ver e perguntou:

– Mas que raios você faz vestido com um sapato preto e outro azul???

Bandeira

Durante mais de 20 anos disputei corridas de kart, carro e moto. Como se sabe, a comunicação entre a direção da prova e os pilotos é feita por meio de bandeiras coloridas. Verde significa pista liberada, amarela é atenção, azul é dar ultrapassagem e vermelha é para parar imediatamente. Como as cores amarela e azul eu vejo muito bem, o problema estava nas duas mais importantes: tudo limpo (verde) ou pare no box (vermelha). Durante esses mais de 20 anos escutei pacientemente os briefings de organizadores comentando a importância dessa comunicação e blá-blá-blá, mas na hora de montar na moto ou kart eu simplesmente acelerava e ponto final.

Até que durante um treino em Interlagos um piloto caiu na entrada do “S do Senna” e esparramou peça pra todo lado. Os organizadores acharam mais seguro interromper o treino e limpar o asfalto. Para isso mostraram a bandeira vermelha. Que obviamente eu interpretei como se fosse a verde e achei que estava tudo OK. De repente me vi sozinho na pista e quando apontei na reta dos boxes tinha uma multidão de bandeirinhas pulando na pista que nem doidos. Parei nos boxes e o chefe da segurança veio voando na minha jugular mas foi barrado pelo meu salvador Renato Gaeta que cochichou alguma coisa no ouvido dele e o cara acalmou. Até hoje não sei o que ele falou, mas coisa muito elogiosa não deve ter sido!

O pior veio algumas corridas depois. Escaldado por um interminável sermão do chefe da segurança, passei a dar mais atenção às bandeiras. Até que numa das etapas do Brasileiro de Motovelocidade eu estava confortavelmente em segundo lugar, faltando uma volta pra terminar a corrida e vi um bandeirinha acenando um pano colorido bem na entrada do “S do Senna”. Lembrei da confusão da bandeira vermelha no treino anterior e decidi aliviar para olhar nos outros postos se a bandeira se repetia. Foi o suficiente para o terceiro colocado me passar como um foguete e cair minha ficha de que aquela deveria ser uma bandeira verde! Terminei em terceiro, furioso, com a promessa de que daquele dia em diante eu só respeitaria duas bandeiras: a preta e a quadriculada preto e branco!

Na época dos enduros eu insistia em competir na modalidade fora-de-estrada apesar de ter colecionado a maior parte de minhas fraturas nesse terreno. Um dos enduros mais tradicionais de São Paulo era o “Enduro da Mentira”, disputado boa parte na região de Alphaville, praticamente meu campo de treinos. Tinha tudo para me dar bem na prova até que num determinado ponto as referências da planilha sumiram e no lugar apareceu uma mensagem “siga as placas coloridas”. Tipo: placa verde era pra virar à direita e placa vermelha pra esquerda (ou vice-versa). Já dá pra imaginar que me perdi que nem um cachorro caído do caminhão de mudança. Lá pelas tantas, depois de dar várias voltas em círculo, encontrei outro piloto, o Beco, igualmente perdido. Foi então que descobri mais um daltônico na competição!

Fora pior que esse eu colecionei na terra do fora-de-estrada no Brasil: Minas Gerais. A convite da federação mineira fui cobrir o Enduro da Independência não lembro que ano. Atravessamos quase 1.000 km de trilhas pelos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais e fomos abençoados por paisagens belíssimas, dignas de um conto de Fernando Sabino. Depois de subir uma trilha difícil alcançamos o cume de uma montanha e paramos para descansar e apreciar a paisagem. Comentei com o piloto mineiro, Ayres Mascarenhas:

– Rapaz, vocês mineiros são sortudos mesmo, para fazer trilha de moto basta rodar poucos quilômetros a ainda podem desfrutar dessa paisagem verde até o horizonte.

E o Ayres concordando com tudo. Foi quando um dos jornalistas do grupo comentou:

– Vocês beberam ou estão vendo coisas? Faz 70 dias que não chove nessa região e não tem uma folha verde num raio de 400 km de onde estamos!!!

Foi então que descobri no Ayres Mascarenhas mais um endurista daltônico!

Caseira – Até dentro de casa acidentes coloridos pode acontecer. Quando minha filha mais nova foi para o jardim segurando uma barra de chocolate eu, como todo pai zeloso, adverti:

– Luna, não vá se sujar com esse chocolate porque estamos prontos pra sair!

Até que ela volta com o vestido branquinho, todo sujo, aos berros e eu berrei ainda mais alto:

– Pô, não falei? Olha isso, tá toda suja de chocolate, que droga, vamos ter de trocar de vestido, lavar toda essa sujeira…

E quanto mais eu gritava, mais a Luna berrava e chorava, foi quando minha filha mais velha me interrompeu:

– Pai, não é chocolate, é sangue!!!

Coisas de pai daltônico! Ela caiu de boca no chão e eu ainda briguei com a pequena, assustada e ensangüentada criaturinha!

Verde ou madura? – Um dos grandes escritores médicos da era moderna escreveu a saborosa obra “A Ilha dos Daltônicos”, um excelente meio de vocês saberem como é a vida com um colorido bem especial. Só que o termo daltonismo foi mal interpretado ou traduzido, pois na verdade o trabalho dele se referia a outro fenômeno chamado “acromopsia” ou “visão acromática” quando o sujeito enxerga apenas preto e branco. Durante a visita desse cientista à uma ilha habitada desproporcionalmente de indivíduos acromáticos ele ficou intrigado em saber como eles faziam para reconhecer uma fruta verde de outra madura. “Ora bolas, pensei comigo mesmo, é só sentir o cheiro!”

Foi assim que descobri algo de interessante nos daltônicos. Nós desenvolvemos aptidões que os sujeitos comuns desprezam. Uma delas é reconhecer uma fruta verde ou madura pelo cheiro. Quando entro numa casa que tem fruteira e uma banana madura sou capaz de perceber lá da porta! Por isso não preciso apalpar as mangas, abacates ou bananas, basta cheirá-las. A natureza altera o odor da fruta conforme seu amadurecimento para protegê-la dos pássaros. Só quando a fruta está madurinha exala um cheiro agradável. Uma banana verde tem um cheiro horrível! Essa capacidade de identificar a condição da fruta pelo cheiro pode ser uma vantagem em algumas situações, mas representa um tremendo risco em outras.

Durante o último evento Moto do Ano realizado pela revista DUAS RODAS na pista da Pirelli descobri vários pés de amora e pitanga! Só que identificar uma fruta “no ponto” sem conseguir aproximar o nariz nem perceber a cor é uma experiência sensorial muito arriscada, porque depois de comer várias amoras verdes descobri, da pior forma possível, que certas frutinhas verdes funcionam como excelentes laxantes!

* Se você gostou dessa crônica leia o livro O Mundo É Uma Roda, de Geraldo Tite Simões com 66 crônicas!



Tite

Geraldo "Tite" Simões é jornalista e instrutor de pilotagem dos cursos BikeMaster e Abtrans.