Por cima do dia trágico

Rep¢rter acompanha de helic¢ptero a etapa na qual Andy Caldecot morreu, Isidre Esteve sofreu traumatismo craniano e Klever Kolberg abandonou a prova

Os jornalistas que cobrem o Dakar de aviÆo tˆm o direito a um ou dois dias de helic¢ptero durante a prova. A escolha ‚ aleat¢ria, quase um sorteio. O meu dia foi ontem, segunda-feira, na etapa entre Nouakchott e Kiffa, na Mauritƒnia. O helic¢ptero levanta v“o cedo, …s 7h, pouco depois da largada das motos. A aeronave, pilotada por Allain Ricciardi, que tamb‚m ‚ comiss rio do Dakar entre os carros, ‚ uma das dez que sobrevoam o deserto. A fun‡Æo de Allain ‚ monitorar a prova l  de cima. O visual pela janela fascina. O deserto nÆo tem fim. Em se tratando de Mauritƒnia, as dunas estÆo por todos os lados. A luz dos primeiros raios de sol deixa tudo dourado e j  come‡a a esquentar a cabine.

H bil, como se estivesse de bicicleta, Allain faz o primeiro pouso do dia. As h‚lices levantam areia suficiente para erguer um arranha-c‚u. Segundo antes de tocar o solo, ficamos imersos em uma tempestade de areia. A aterrisagem aconteceu no ponto da largada do trecho cronometrado do dia, a poucos quil“metros de Nouakchott, a capital da Mauritƒnia. O brasileiro Jean Azevedo, da Equipe Petrobras Lubrax, j  havia largado. Acompanho a arrancada de Cyril Despres. Logo na primeira duna, o francˆs tira as duas rodas do chÆo e arranca aplausos da torcida, formada por europeus fan ticos por rali e por habitantes locais. O salto (desnecess rio?) de Despres d  a impressÆo que a contusÆo na clav¡cula nÆo ‚ daquelas que pode tirar o campeÆo do Dakar 2005 do p reo. H  at‚ quem diga que ‚ `fita`.

Quando voltamos ao ar, logo somos surpreendidos por acenos de pilotos parados sobre uma duna. Um deles est  estatelado no chÆo, com a moto ca¡da logo ao lado. Allain empunha o manche e faz um pouso quase em queda livre. O motociclista 103, Jordi Ingles, da Espanha, respira com dificuldade. Tosse muito. Est  consciente. Em cinco minutos, o helic¢ptero m‚dico pousa. O diagn¢stico nÆo demora. Ap¢s usar tesouras para tirar parte da jaqueta e da cal‡a do espanhol, a m‚dica assegura: “Problemas na bacia e costelas quebradas”. Ela fala como se anunciasse a hora do almo‡o. Est  acostumada a estas situa‡äes. Calcula atender pelo menos meia d£zia de acidentados por dia. O acidente de Jordi ‚ comum. Diz que acaba de atender outro acidentado. “Fˆmur quebrado”. Ajudo a colocar o espanhol na maca infl vel e a transport -lo at‚ o helic¢ptero que o levar  de volta a Nouakchott.

Ficamos ali sobre a duna onde Jordi deu adeus … prova. O Mitsubishi de Stephane Peterhansel aparece voando alto e deixa o buggy de Thierry Magnaldi para tr s. Logo depois, acompanhamos a atolada espetacular do Volkswagen Touareg de Mark Miller. Dez minutos se passam e o norte-americano, depois de perder mais meio minuto para urinar, segue em frente.

Nova decolagem e uma hora depois pousamos no segundo posto de controle (PC) para reabastecer o helic¢ptero. Acompanhamos a passagem de motos retardat rias. Os pilotos que ainda passam por l  sÆo os menos experientes. EstÆo exaustos, parecem zumbis sobre as motos. Vislumbro o perigo que ‚ deixa-los seguir em frente e fica claro porque tantos e tantos caem e fraturam peda‡os do corpo. Ao mesmo tempo que formulo este pensamento, surpreendo-me com Allain. Ele sai correndo de fininho, embarca no helic¢ptero e desaparece no ar. Minutos depois, chega o motivo do desespero discreto do francˆs. Andy Caldecot est  morto. Quando os helic¢pteros chegaram ao local onde o australiano se acidentou, nÆo havia mais nada a ser feito. A not¡cia muda o clima entre o pessoal da organiza‡Æo no PC. Silˆncio. Os pilotos que chegam nÆo sabem de nada. E nem sÆo informados.

Estranho o “desaparecimento”do piloto Klever Kolberg. Ele ainda nÆo passou pelo PC2. No final do dia, viria a saber que o brasileiro nem chegou a largar devido a problemas no carro. Ele vinha subindo de posi‡Æo dia a dia. Chegou a ser o 13§ na classifica‡Æo geral e o 5§ na categoria T1, na qual competem carros a gasolina com prepara‡Æo livre. Ainda do chÆo, vejo o caminhÆo Tatra da equipe Petrobras Lubrax despontando no horizonte. Vem forte, na segunda coloca‡Æo, atr s apenas de Vladmir Chaguin, o russo que s¢ perder  o t¡tulo por milagre. Andr‚ Azevedo, Maykel Justo e Mira Martinec lutam para chegar ao p¢dio.

Allain chama para nova decolagem. Voamos a cerca de 100 metros de altura. Mesmo os caminhäes tornam-se min£sculos l  embaixo. Quil“metros antes do terceiro PC, sobrevoamos uma cadeia de dunas, verdadeiro atoleiro. Um imenso mar de areia aprisiona dezenas de competidores. Uns vÆo, outros voltam… A navega‡Æo parece nÆo importar mais. O neg¢cio ‚ sair daquele inferno. Motos, carros e caminhäes juntam for‡a contra o deserto. No (relativo) conforto do helic¢ptero, ‚ poss¡vel tra‡ar o melhor caminho para os competidores. “Se aquele motociclista estivesse andado 30 metros a mais antes de entrar … direita naquelas dunas, j  teria sa¡do de l “, imagino. “Como aquele carro foi parar ali? Bastava ter entrado … esquerda um pouquinho antes”, penso. L  de cima, fica f cil navegar. Apesar de monstruoso, o deserto parece mais dom vel.

Pelo r dio, sempre em francˆs, novo chamado chega ao fone de ouvido dos tripulantes. “Piloto n£mero 196 ca¡do no km 450 precisa de aux¡lio m‚dico”. Allain segue para l . O italiano Marco Capodacqua chora. “NÆo ‚ s¢ pela dor que choro.  porque agora, quando ia come‡ar a parte menos dif¡cil do Dakar, vou ter que abandonar”. Capodacqua bateu com o p‚ em uma erva de camelo (vegeta‡Æo rasteira e dura comum na Mauritƒnia). Nada grave: ligamentos do tornozelo rompidos. O piloto conta que o pequeno acidente aconteceu 30 quil“metros antes, mas ele prosseguiu at‚ nÆo suportar mais de dor. De helic¢ptero, o italiano segue at‚ o PC 3, onde ser  tratado. Eu e os demais passageiros ficamos esperando no meio do deserto at‚ o retorno do helic¢ptero, cerca de duas horas depois.

Quem vencer o derradeiro trecho da especial mais longa e dura do Dakar 2006, est  com o p‚ no Lago Rosa. O caminhÆo de Andr‚ passa por n¢s. Passa tamb‚m o brasileiro Bernardo Bonjean, estreante na prova. Ele parece bem. P ra sua KTM e grita: “S¢ paro em Dakar”. Sabendo da baciada de acidentes do dia, tento passar ƒnimo e for‡a para Bonjean. Sem informa-lo de nada, como se fosse um t‚cnico, pe‡o que tenha aten‡Æo redobrada. Allain vem nos resgatar e traz outra not¡cia que faz do 9 de janeiro, um dia ainda mais tr gico. Al‚m da morte de Caldecott, outro motociclista, o espanhol Isidre Esteve, que era o vice-l¡der da prova, foi ao chÆo. Bra‡o quebrado, ferimentos profundos no abdome e traumatismo craniano. Parece nÆo correr risco de morte.

O sol come‡a a se despedir. Sorte nossa helic¢pteros nÆo voam … noite no Dakar. Sinto muito pelos pilotos que estÆo prestes a passar a noite e a madrugada (caso de Bonjean) no deserto. Mas o pr¢ximo pouso de Allain ‚ no acampamento. O clima ‚ outro. NÆo se vˆ mais aquela descontra‡Æo do dia anterior. Caldecott levou a paz com ele. Hoje, a etapa das motos foi cancelada. AmanhÆ, a vida continua.