Por onde anda Vital e sua moto?

Por onde anda Vital e sua moto?

Vital andava a pé e achava que assim estava mal De um ônibus pro outro aquilo para ele era o fim Conselho de seu pai: “Motocicleta é perigoso, Vital.

É duro de negar, filho, mas isto dói bem mais em mim.”

Mas vital comprou a moto e passou a se sentir total Vital e sua moto, mas que união feliz Corria e viajava era sensacional A vida em duas rodas era tudo que ele sempre quis Vital passou a se sentir total No seu sonho (de metal) Vital passou a se sentir total No seu sonho de (metal) Os Paralamas do Sucesso iam tentar tocar na capital E a caravana do amor então pra lá também se encaminhou Ele foi com sua moto, ir de carro era baixo astral Minha prima já está lá e é por isso que eu também vou

Vital e sua moto era uma união feliz. Na realidade ser motociclista é algo que está no sangue. Você olha e congela. Você ouve e se arrepia. Você fala e dá um frio na barriga. É perigoso, como o pai de Vital dizia, mas nada se compara ao prazer de dominar a máquina mais poderosa da Terra.

Numa moto você domina todas as leis da física. Duzentos milhões de pessoas andam de motocicleta no mundo. 97% fora dos Estados Unidos e naquele mercado faturam cerca de 30 bilhões de dólares. A motocicleta é responsável por um século de inovação mecânica. Chegam a velocidades de 569 km/h e saltam até 90 metros. Uma aula de física. Velocidade, aceleração e torque. Se você não sabia, sentado na sua moto, pilotando, você controla todas as forças que fazem com que os planetas girem em torno do Sol e também as forças que fazem a Terra rodar sobre seu eixo. Motos turbinadas conseguem ir, em 7 segundos, de zero a 380 km/h e vencem, neste tempo, uma distância superior a quatro campos de futebol. Tamanha aceleração gera 8G de força (oito vezes a força da gravidade) bem mais que os astronautas sentem quando de um lançamento espacial. Para chegarem a esta velocidade consomem um litro de combustível por segundo, além de combustível de foguete – o óxido nitroso ou gás hilariante. O mais interessante é que você deve estar achando que mais velocidade, maior os problemas. Na física das motocicletas, quanto mais velocidade, mais estabilidade. Segundo o princípio do Momento Angular, um corpo que gira tende a continuar girando. Uma roda parada cai facilmente, mas rodando, quando tentam derrubar, uma força contrária a coloca de volta no lugar. Portanto, é a velocidade da moto que a mantém de pé e rodando.

Caro amigo motociclista, se você não sabia disso, peque o babador, pois a motocicleta é muito mais. Porém, o excesso de velocidade ou correr sem controle e sem limites, ao contrário do que fazem os profissionais, acaba em acidente e por vezes em morte. São mais de cem mil acidentes por ano só nos EUA, como disse, com 80% de feridos, mortos ou aleijados. Como toda lei da física a motocicleta tem um limite e ela é determinada pelo seu bom senso.

Ao contrário do que você pode pensar o que pode derrubar Vital e sua moto, não é a agressividade, mas a hesitação. Os cursos de pilotagem ensinam as estratégias mentais e físicas para que você não hesite. O maior índice de pancadas ocorre na cabeça, ficando o queixo direito com 18% e o esquerdo com 15%. O lugar menos atingido é o topo da cabeça. Portanto, capacetes abertos não são recomendados. Acidentes de moto podem gerar forças de até 100Gs. É o mesmo que sofre um carro de corrida ao bater numa parede a 300 km/h. A cabeça humana só suporta impactos de até 300 Gs. O MotoCross, ao contrário do que muitos pensam, ganhou este nome na Bélgica no século passado. A adrenalina deste esporte é tal a ponto do coração do motociclista chegar a 190 batimentos por minuto, enquanto o dos atletas chega a 150 batimentos por minuto. Será a emoção? Não há nada igual no mundo! O Freestyle é uma verdadeira aula de física. O mais interessante é que quando perguntamos aos pilotos o que eles sentem, todos dizem que se não tiver medo você vai durar pouco. Palavra de profissional! Tem uma hora que, no Freestyle, piloto e máquina ficam totalmente sem peso algum e ai a manobra acontece. No giro para trás o piloto desafia seus instintos, pois todos os saltos são pra frente. A maioria pensa que o giro é de 360º. Mas não é. É de apenas 270º. Alguns absurdos acontecem por aqui também. Boa parte das leis acaba incentivando o uso do carro e com ele uma sensível piora no trânsito. Faixas exclusivas para motos, por exemplo, existente em alguns países, aqui é motivo de grande briga por conta de desinformação. Outra coisa meio absurda: Nos EUA capacete não é obrigatório, mas é PROIBIDO andar no corredor entre os carros e a multa sai na hora e é muito cara. Lá só existem motos médias ou grandes . A exceção fica por conta das motos de trilha/cross. Menores que 500cc só mesmo as scooter.

Na base do motociclismo, vem os pilotos de avião que ao retornarem da Segunda Guerra Mundial queriam continuar sentindo a mesma adrenalina proporcionada pela pilotagem de caças. A tradição das choppers e customs surgiu com os Hells Angels. Malucos até para a nossa época. Os brasões também vieram deles. Hoje ainda existem cerca de três mil membros espalhados pelo mundo todo. Mas será que foi por isso que Vital comprou sua moto?

A cada ano as motocicletas percorrem cerca de 19 bilhões de quilômetros nos EUA e é um dos veículos mais velozes do planeta. Dos 100 mil acidentes de moto nos EUA, já falado, 20% ocorrem em curvas. Manobrar uma moto numa curva é fazer a direção contrária e isso se chama contra-esterço. Para ir a direita puxa-se levemente o guidão para a esquerda. A maioria faz isso instintivamente e os que não fazem compram chão. É simples. Desalinha-se a coluna da direção da moto no sentido contrário que se quer ir e isso desalinha a roda dianteira e traseira e a moto inclina na direção que deseja ir. É pura física. Enquanto a roda se inclina, ao mesmo tempo é também empurrada no sentido contrário, completando a curva. O que poucos imaginam é que a primeira moto era movida a vapor. Tão barulhenta que acabou sendo descartada por conta disso e do cheiro. Detalhe: o inventor era um coroa de barba branca. Aqui começava a paixão de alguns e o ódio dos outros (vizinhos, parentes etc) contra a motocicleta. A moto a gasolina veio depois pelas mãos de um alemão chamado Daimler que nunca andou na moto que criou. O feito ficou por conta de seu assistente. Cento e vinte anos depois a moto continua no mesmo padrão. Será que foi por isso que Vital comprou sua moto?

As motos são mais econômicas que carros e utilitários, mas poluem mais por conta do óxido de nitrogênio. Um motor de combustão interna gera apenas 20% de eficiência. O restante se perde no esforço de gerar isso. Na moto elétrica esta eficiência beira os 90%, mas sem barulho. O que é chato… Convenhamos. Mas será que foi por isso que Vital comprou sua moto?

A motocicleta é a própria expressão do individualismo, atrelado ao espírito de grupo. Caramba? Forças contrárias se unindo? Sim, um imã que junta todas as diferenças para representar o nosso espírito de desejar cair na estrada onde as sensações, apesar de estar em grupo, são totalmente íntimas e de comum apenas, o desejo de compartilhar-las.

Os principais motivos pelos quais Vital comprou sua moto nós sabemos, mas será que foi só por isso? Talvez tenha sido pelas crianças que, quando passamos, dão adeus e sorriem pra nós como se fôssemos super-heróis errantes. Pequenos Quixotes, alguns com o Sancho pança sendo carregado na própria cintura. Talvez por que as motos são as vedetes e nós meros coadjuvantes, ou seria por que o cérebro das crianças ainda não foi contaminado pelo medo e pelo preconceito? De qualquer forma carregamos semelhanças com belos pássaros e com cachorros. Sim! Cachorros! Pois só um motociclista sabe por que um cachorro coloca a cara na janela do carro assim que entra. Cavaleiros medievais? Ancestrais de templários motorizados ou rebeldes sem causa após os 40? O interessante é que a moto é um símbolo que representa uma parte de tudo de bom que existe na vida. Seja ela pelas leis da física que domamos, pelos pensamentos que carregamos e pelos amigos que fazemos. A moto é mais que isso! Ela nos proporciona a máxima de poder dizer que problema não faz curva e que basta uma voltinha e a gente recarrega as baterias. Como algumas crianças pequenas, que só dormiam quando o pai dava uma volta de carro no quarteirão, as motos têm uma parte do ópio misturado à adrenalina que só nós conseguimos dosar. Sem falar que o sono do guerreiro depois de uma viagem é algo indescritível. Mesmo suado e sujo ninguém reclama de cansaço. Parece um game – quanto mais difícil, melhor!

Ser motociclista é ser tudo isso. Mas antes de qualquer coisa é saber que você foi contaminado quando nasceu e o vírus despertou quando você viu, ouviu, falou e chegou perto de uma moto. Nada é mais prazeroso e desconfortável que uma motocicleta, mas nada é mais mágico e apavorante que ser o cara que representa tudo isso em cima de uma moto. De dia um executivo. Nos fins de semana um cara que gosta de encontros estranhos de gente esquisita que se cumprimentam na rua e nem sequer sabemos quem é. Ser motociclista é um sonho de criança que conseguimos realizar mais tarde.

E as amadas garupas? Bom, elas merecem um capítulo à parte em um outro artigo.

Talvez seja por isso que Vital desobedeceu a seu pai e resolveu acompanhar os Paralamas do Sucesso de moto. Nada mais justo para quem queria se sentir total, no seu sonho de metal. Cadê você Vital?



Motociclista desde os 18 anos. Jornalista e apaixonado por motos desde que nasceu.