Foto: Jurinha na sua Suzuki estilo MotoGP

Por que os bêbados choram?

Foto: Jurinha na sua Suzuki estilo MotoGP

Foto: Jurinha na sua Suzuki estilo MotoGP

Pode reparar, basta algu‚m se encharcar de cana e desanda a chorar e exibir um raro sentimentalismo, tudo culpa do  lcool, que entra no circuito interno da cabe‡a e desprega alguns disjuntores inibidores das emo‡äes. Calma, nÆo fiquei louco, nem estou chumbado, apenas descobri como ‚ dif¡cil traduzir em palavras e a‡äes a perda valiosa de um amigo. Por isso acho que terei de tomar algo bem forte pra escrever o que vocˆ ler  a seguir.

Depois de trˆs dias relaxando nas montanhas de Socorro, (interior de SP), cheguei em SÆo Paulo com a not¡cia de que a nossa CET (Companhia de Engenharia de Tr fego), a pedido da Prefeitura, est  desenvolvendo um tremendo lobby junto ao Denatran com a inten‡Æo macabra de “achar” uma lei na qual os motociclistas sejam proibidos de circular nos corredores formados entre os carros. Passei dois dias pensando em redigir um daqueles editoriais cheios de ironia, chamando todo paulistano de corno, afinal elegem a pior esp‚cie de gente para administrar a cidade e depois ‚ tra¡do na primeira oportunidade. Pensei nos 250 mil motoboys que podem ficar desempregados, mas isso ‚ o que menos importa, porque eu rodo diariamente de moto em SP desde 1972 e os motoqueiros que vejo morrendo que nem mosca pela cidade sÆo, em sua total maioria, pessoas totalmente deseducadas socialmente.

Foto: Tite (esq.) e Jurinha, amizade interrompida

Foto: Tite (esq.) e Jurinha, amizade interrompida

NÆo vou sair em defesa de gente que roda com moto roubada, ou caindo aos peda‡os, soltando fuma‡a de ¢leo na minha cara, sobe na cal‡ada sem respeitar pedestre, passa farol vermelho, passa nos corredores xigando todo mundo. Esses eu quero mais ‚ que percam nÆo s¢ o emprego, mas tamb‚m as liberdades civis! Fico pensando em quem usa moto como meio de transporte barato, vers til e econ“mico e que est  a mercˆ de administradores mentirosos, tacanhos, preconceituosos e corruptos. Al‚m, ‚ claro, de traidores.

Cansei da “questÆo do motoboy”, desisto! Deixa a r dio CBN comandar o lobby para proibirem as motos de circular em toda a cidade, afinal a emissora tem patroc¡nio de taxistas e eles sÆo os que mais lucram com determina‡äes que dificultem o trƒnsito de motos.

Tamb‚m estou pouco me lixando se os legisladores e administradores adotam a teoria do Homem Lombrosiano para criar leis e conven‡äes baseadas £nica e exclusivamente no PRECONCEITO. Essa teoria foi criada pelo italiano Cesare Lombroso, no s‚culo 19. Segundo ele, existia um padrÆo f¡sico (formato de cabe‡a, queixo, nariz etc) que determinava a tendˆncia de um indiv¡duo ao crime. Hoje, em SÆo Paulo, todo motociclista ‚ “motoboy”. E tudo que um delinqente faz sobre uma moto afeta diretamente todos os outros motociclistas. Somos todos motoboys sob a ¢tica da teoria Lombrosiana paulistana.

De tempos em tempos aparece um “t‚cnico” burocrata de uma burrice acachapante, com seus dados debaixo do bra‡o para mostrar que “os motoqueiros estÆo morrendo em SP e estamos precisando fazer alguma coisa!”. Essa “alguma coisa” nada mais ‚ que PROIBI€ÇO! Proibir as motos de circular entre os carros e tamb‚m de rodar nas marginais “porque as estat¡sticas mostram que sÆo nesses pontos onde mais tem acidentes”. Mas esses t‚cnicos burros que descolaram uma graninha num cargo p£blico molezinha nÆo querem revelar TODOS os dados. Por exemplo: qual o n¡vel de escolaridade das v¡timas? Quais as condi‡äes de seguran‡a da moto? Qual a qualidade e o tipo dos equipamentos de seguran‡a? Cadˆ esses dados, tiozinhos saqueadores do er rio? Onde estÆo as per¡cias desses 52% de acidentes que ocorrem nos corredores, queridos servidorezinhos de abd“men fl cido e c‚rebro idem?

NÆo adianta proibir as motos de circularem nas marginais, ‚ preciso proibir os MARGINAIS de circularem de moto!

Mas nÆo quero mais escrever sobre isso, cansei! Prefiro mudar de cidade! Quero que motoboys delinqentes, prefeito gordo, diretor do CET engomadinho, representantes de motoboys preocupados em fazer carreira pol¡tica, t‚cnicos de gabinete vÆo tudo pro mais profundo e fedorento inferno! NÆo toco mais nesse assunto. Deixo a bola com a Abraciclo! Um dia os paulistanos se cansarÆo do chifre que carregam na testa e sairÆo …s ruas exigindo RESPEITO! Que inveja dos portenhos!

Quero apenas lamentar profundamente a morte de um super-her¢i.

Ontem, dia 1§ de maio, morreu um super-her¢i. O Jurinha LobÆo, 49 anos, foi uma das mentes mais brilhantes que conheci ao longo da vida. Fil¢sofo, pianista, professor de universidade, fluente em inglˆs, francˆs, espanhol e um cara muito legal. NÆo bastassem as qualidades intelectuais que transbordavam daquela cabe‡a, ainda por cima era um dos maiores tenistas do Brasil.

Confesso que nÆo lembro quando conheci o Jurinha, mas ele foi meu aluno em um curso de pilotagem esportiva em Caruaru (PE). Acho que foi em 2004, sei l , nÆo sou bom em datas. Ele acabara de descobrir o prazer da moto! Logo de cara comprou uma Suzuki Hayabusa e, inteligentemente, foi aprender como pilot -la. Lembro da sua cara de expectativa diante da vontade de raspar o joelho no asfalto.

Depois de dois dias, vi que ele estava quieto (algo estranho nesse sergipano falador que s¢) e ele confessou: “estou frustrado, nÆo consegui raspar os joelhos nas curvas”. Me cansei daquela cantilena, arranquei os raspadores do meu macacÆo e dei a ele:

– Pronto, t  aqui, agora prega no seu macacÆo, volta pra Aracaju e conta pra todo mundo que vc gastou tudinho no curso!

Acho que um mˆs depois fizemos outro curso SpeedMaster em Caruaru e l  estava Jurinha. Dessa vez com uma Suzuki GSX-R 1000. “Agora, com essa moto vai dar certo!”. E nÆo ‚ que deu? Ele nÆo apenas evoluiu muito como piloto como j  estava com aquele estranho sorriso de crian‡a que descobriu onde fica o pote de bolacha. Eu profetizei: “Cara, vai com calma que isso vicia!”.

E nÆo ‚ que viciou mesmo? Ele foi duas vezes aos Estados Unidos para fazer o curso do Kevin Schwantz. Na sexta-feira, 27 de abril, me ligou e ficou horas – como sempre – contando as novidades e planos. Entre seus planos estava a volta do curso SpeedMaster versÆo Nordeste, a representa‡Æo do Kevin Schwantz School no Brasil e um mundo de atividades t¡picas do Jurinha.

Todos esses planos acabaram na tarde de 1§ de maio, quando ele foi desviar de um carro e bateu numa cabe‡a de ponte, com sua Suzuki 1000 pintada igualzinha as motos oficiais da equipe Suzuki de MotoGP.

Mais uma vez vejo um dos meus her¢is partir sem ter tempo de mostrar o quanto o admirava. Antes dele a escaladora Roberta Nunes tamb‚m morreu precocemente sem que eu tivesse a coragem de expressar minha admira‡Æo (http://www.escalada.esp.br/colunas/colunas_06a_2006.htm).

Acho que ‚ por isso que os bˆbados choram e consideram a todos como seus melhores amigos. Sem a m scara da vergonha (ou do alter ego, como dizem os psic¢logos), derretida pelo  lcool, n¢s somos verdadeiros. Podemos abra‡ar amigos e amigas, beij -los, dizer o quanto os admiramos e ainda nos dar ao luxo de nÆo lembrar de nada no dia seguinte.

Eu, que nem sequer acreditava em her¢is, descobri nÆo s¢ a existˆncia deles, mas tamb‚m que, ao contr rio do que sempre nos ensinaram, at‚ os super-her¢is sÆo vulner veis.