Em cada lugar uma paisagem diferente e histórias inusitadas

Redescobrindo o Ceará: de Fortaleza a Pacoti

A maioria das pessoas que visitam o Ceará acredita que aqui só existem belas praias. Os próprios cearenses desconhecem a própria terra. É mais comum saber de cearenses que conheceram outros estados e até mesmo outros países que mesmo lugares que ficam a apenas 100 quilômetros de distância.

A paisagem e as curvas são deslumbrantes e muito divertidas de fazer

A paisagem e as curvas são deslumbrantes e muito divertidas de fazer

Há um ano eu decidi explorar a Terra de Padim Ciço e descobrir se no “Ceará não tem disso, não!” como canta Luiz Gonzaga em um dos seus baiões clássicos. Descobri lugares incríveis e histórias envolventes que mesmo as pessoas residentes nos locais visitados desconheciam. Tem sido um passeio e tanto realizado com apoio de empresas com foco em contar boas histórias ou mesmo resgatá-las.

Um ano pelas estradas do Ceará redescobrindo lugares e contando histórias

Um ano pelas estradas do Ceará redescobrindo lugares e contando histórias

Nesse ano de redescobertas tive ajuda de fotógrafos como Jan Messias na sua 125cc e agora a parceria do paraense Jelbes Lima. Neste roteiro fui desbravar junto com meus amigos do MOTO GRUPO ANONYMOUS e dos amigos Anonymous uma nova estrada que passa por lugares muito interessantes. A rota sai de Fortaleza com destino final a cidade de Pacoti via distrito de Campos Belo, passando por Maranguape onde fica outra serra que dá nome ao município. Saímos da vegetação típica de praia para passar por vales que ficam entre serras. Depois entramos na caatinga braba onde está situada a cidade de Campos Belo, distrito de Caridade, terra onde Santo Antônio perdeu a cabeça.

Alguns quilômetros depois chegamos à subida da Serra de Guaramiranga pela estrada nova que mais se parece, pelas suas curvas e sinuosidade, com a Serra do Rio do Rastro, localizada em Santa Catarina. A paisagem e as curvas são deslumbrantes e muito divertidas de fazer. O projeto teve a preocupação de fazer alguns recuos para que sirvam de mirante. Alguns ainda não estão totalmente prontos, mas é possível parar e apreciar a paisagem e curtir o clima ameno.

O baiano-cearense Rodolfo Teófílo

O baiano-cearense Rodolfo Teófílo

De longe se vê que a vegetação ainda sofre com uma das piores secas dos últimos cem anos, mas que com as primeiras chuvas se revestirá de um verde exuberante e viçoso.

Da peste ao riso

A primeira cidade depois que saímos da capital do Ceará é Maranguape que fica na Região Metropolitana de Fortaleza. O lugar se notabilizou pelo clima de serra, seus remansos e cachoeiras e por ser terra de Chico Anísio – o maior humorista brasileiro de todos os tempos e um dos maiores do mundo pela quantidade de personagens que criou e interpretou.

Além dele, Maranguape tem a marca forte de um soteropolitano que adotou o Ceará como sua terra. Chama-se Rodolfo Teófilo (*1853+1932) escritor brasileiro naturalista, poeta, documentarista, contista, articulista e o cara que inventou a cajuína que pode ser cristalina em Teresina, mas foi criada por um baiano no Ceará para acalmar a sua terrível gastrite. Mas foi como farmacêutico que Rodolfo tornou-se conhecido por ter empreendido, no início do Século XX uma batalha pessoal contra a varíola e contra o medo do povo de tomar a vacina. Sem recursos, em tempo de seca, fome, da migração em massa, lutando inclusive contra os coronéis e as péssimas condições de higiene, enfrentou praticamente sozinho, em duas oportunidades, epidemias de varíola que vitimou milhares de pessoas em Fortaleza e interior do Ceará, no final do século XIX e início do século XX. O cólera matou quase um terço dos seis mil habitantes de Maranguape (1862) e no final da década seguinte (1878), a varíola matou um quinto da população da capital cearense.

Rodolfo aprendeu a fabricar a vacina e passou a imunizar o povo (1901) com ajuda de sua mulher e um criado vacinando cerca de duas mil pessoas (1902), não sendo registrado nenhum novo caso de varíola na capital cearense naquele ano. Mesmo fazendo o certo foi perseguido pelo governo de Antônio Pinto Nogueira Accioli, que estava totalmente alheio ao sofrimento do povo cearense.

O Ceará enfrenta a pior seca dos últimos 70 anos, mas encanta pela resistência

O Ceará enfrenta a pior seca dos últimos 70 anos, mas encanta pela resistência

No livro do jornalista e biógrafo Lira Neto (O poder e a Peste A vida de Rodolfo Teófilo – Lira Neto, Ed. Fundação Demócrito Rocha, 1999.), ele descreve o cenário da peste naquela época onde no lugar onde está situada a praça da matriz de Maranguape foi cavada uma das maiores valas-comuns que se tem notícia para cremar corpos que se amontoavam as centenas. O brilho da chama da queima dos corpos e o odor podiam ser percebidos e sentidos a quilômetros de distância. A cena parecia com o que vimos em documentários sobre o Holocausto Judeu.

Em busca da serra na companhia dos Anonymous

Em busca da serra na companhia dos Anonymous

“Rodolfo Teófilo e Oswaldo Cruz têm trajetórias semelhantes”, destaca Lira Neto. Cruz virou herói nacional. Rodolfo Teófilo foi esquecido, lamenta-se Lira Neto. Em 10 de dezembro de 1904, a população do Rio de Janeiro se levantou na Revolta da Vacina, contra a ação dos militares, que usavam da força para obrigar a população que, temerosa, resistia a ser vacinada. No Ceará não houve isso. Como não havia apoio do Poder Público, Rodolfo tinha que convencer na conversa.

Santo Antônio à espera de um milagre.

Deixamos Maranguape e rumamos para Campos Belo, distrito de Caridade, que fica no limite entre a vegetação de caatinga e o ínício da Serra de Guaramiranga que ainda guarda lembranças da exuberância que tinha quando era totalmente coberta pela Mata Atlântica.

A cabeça ficou tão pesada que não pôde ser suportada pelo corpo destinado ao santo. Ficou pela rua

A cabeça ficou tão pesada que não pôde ser suportada pelo corpo destinado ao santo. Ficou pela rua

Perto dali, em Caridade (100 km de Fortaleza), piedade do santo foi o que não tiveram. Santo Antônio, literalmente, está sem a cabeça há mais de 20 anos. Lá é o santo que espera que as pessoas façam algo por ele. No morro do Cerrote, na cidade de Caridade – sede de Campos Belo – existe uma estátua de Santo Antônio sem cabeça. A confusão teve início quando o então prefeito de Caridade, Raul Linhares, que governou o município entre os anos de 1981 e 1986 encomendou o monumento de cerca de 30 metros de altura. Era para ser um dos maiores do mundo… Era.

Em cada lugar uma paisagem diferente e histórias inusitadas

Em cada lugar uma paisagem diferente e histórias inusitadas

A obra começou em 1992 e quando terminou, a cabeça ficou tão pesada que não pôde ser suportada pelo corpo destinado ao santo. Além disso, os fortes ventos da região não permitiam erguê-la com segurança. O ex-prefeito morreu em 2005 e até hoje Santo Antônio espera por um milagre dos fiéis para, enfim, juntar a cabeça ao corpo que está no alto do Cerrote e a cabeça no meio da rua, ambos, assim, separados no nascimento, há mais de vinte anos. Sabe-se que as vitalinas judiam do santo para arrumar marido, mas Caridade pegou pesado.

Serra das Flores

Tudo muito bonito inserido em um clima ameno

Tudo muito bonito inserido em um clima ameno

Tomamos o rumo da subida da Serra de Guaramiranga. Na medida em que vencíamos cada curva a paisagem e o clima iam mudando. Do calor insuportável da caatinga para o ameno clima de serra que descortinava sua exuberante vegetação decorada por muitas flores. Na Serra de Guaramiranga há ótimos hotéis, excelente gastronomia, monumentos históricos, cachoeiras, o Pico Alto e no carnaval a cidade recebe o Festival Internacional de Jazz de Guaramiranga. Paramos na primeira cidade logo após o fim da subida. Pacoti é pequena, aconchegante e tem da serra de tudo um pouco. Almoçamos com meus amigos do Anonymous Moto Grupo no K-Labar.

Uma parada para ver a paisagem. Alegria contagiante no clique de Jelbes Lima

Uma parada para ver a paisagem. Alegria contagiante no clique de Jelbes Lima

A Serra de Guaramiranga e de Maranguape merecem uma matéria à parte de tanto que se tem para mostrar. Após o almoço descemos a serra de volta à Fortaleza. É um passeio de 220 km (ida e volta) carregado de paisagens e climas diferentes e de muita história que vale a pena conhecer.

Mapa do roteiro

Mapa do roteiro

Agradecimentos – Esta reportagem tem o apoio cultural do Motonline, Motoboy Magazine, Make Safe Alarmes Presenciais, Anonymous Moto Grupo, Custom & Race – Moto Parts e Fort Motos Imports.

 

 



Motociclista desde os 18 anos. Jornalista e apaixonado por motos desde que nasceu.