dst_é goool - Copy

Salvar vidas ou bater uma bolinha?

O título deste texto pode soar estranho a primeira vista, mas a decisão é esta mesmo. O pior, parece já ter sido tomada: “bater uma bolinha”.

Durante minha visita à Motofair 2012, pude conversar com jornalistas de outros veículos do setor de duas rodas. Falamos muito sobre o mercado brasileiro, sobre o crescimento do uso das motos, sobre a possibilidade que a moto traz de ser um veículo viável para as classes menos favorecidas e muitos outros temas pertinentes ao mundo de duas rodas. Contudo, uma hora o assunto cansa e começamos a falar, obviamente, de futebol. Mas, é lógico, que o papo acabou virando para a questão do preparo brasileiro para receber a Copa do Mundo de 2014 e os gastos astronômicos para a construção ou reforma de estádios, onde muitos deles sequer terão grande uso depois da competição. Estas questões ficaram quentes na minha cabeça.

Chegando ao evento, fomos ver a apresentação do novo Diretor Executivo da ABRACICLO, José Eduardo Gonçalves. Nesta apresentação, Gonçalves mostrou dados muito preocupantes (destacados anteriormente no Motonline) que mostram claramente o quanto o Brasil está distante de uma realidade minimamente aceitável no que se refere à condução de motocicletas. Não estou falando, sequer, da qualidade da instrução dada pelas moto escolas, ou do rigor do exame do DETRAN. Estou falando que em 10 estados brasileiros o número de motos emplacadas supera o número de pessoas habilitadas a pilotar uma moto! No Maranhão, o número de motos circulando é mais de duas vezes maior que o número de motociclistas habilitados! Em Minas Gerais, onde temos a segunda maior frota de motos do Brasil com mais de 2milhões de motos, também temos um número maior de motos emplacadas que de motoristas habilitados a conduzi-las. A consequência deste descaso está nas manchetes de todos os jornais. Se quem é habilitado, preparado e consciente, as vezes se envolve em acidente, imagine quem sequer tem a habilitação. Durante a mesma apresentação da ABRACICLO na Motofair, Gonçalves mencionou a construção do Centro Educacional Paulistano de Motociclistas, executado em parceria com a Prefeitura de São Paulo. A obra teve um investimento de R$520mil, atenderá 20mil motociclistas por ano.

Bom, você deve estar pensando agora “e o que isso tem haver com os estádios da Copa?”. Pois bem. Simples! No decorrer de minha vida profissional fiz alguns trabalhos com diversas instâncias do governo e uma lição que aprendi é bem fácil de entender: no governo, todo dinheiro acaba vindo sempre da mesma fonte, que é a arrecadação de impostos. Portanto, não se iluda, investir em estádios para a Copa do Mundo ou em formação de condutores vêm tudo do mesmo bolso, o seu bolso. Se estamos pagando as contas e estamos em um país democrático, temos o direito de fazer alguma contas e discordar de como os investimentos estão sendo priorisados. Façamos uma conta bem simples. Com um centro que custa R$520mil, treinamos 20mil motociclistas por ano. A frota nacional de motocicletas é estimada em 18milhões. Imaginemos agora que o governo decida treinar um motociclista para cada moto emplacada em um ano. Quanto seria o gasto? Para chegar na resposta, dividimos o número de motociclistas a serem treinados (18 milhões) pelo número de motociclistas treinados em cada centro (20mil), com isso saberemos quantos centros de treinamento são necessários. Então basta multiplicar o número de centros necessários pelo investimento para a construção de cada um (R$520mil). Fazendo a conta temos que precisamos de 900 centros de treinamento ao custo total de R$468milhões. A conta foi fácil, mas o número parece alto, não é? Realmente é um investimento grande, mas lembre-se que este dinheiro seria para construir centros suficientes para reciclar um motociclista para cada moto emplacada todos os anos. Um exagero, mas se tivéssemos este volume de vagas para treinamento, certamente todos seriam bem treinados, certo? Vamos agora voltar à nossa querida Copa do Mundo de 2014 para ver onde está indo o dinheiro dos nossos impostos. Pesquisando sobre o tema, encontrei uma reportagem da Folha de São Paulo que traz números bem úteis para nossa comparação. Esta reportagem cita “A conta atual das arenas é de R$ 5,839 bilhões –quase o triplo da estimativa inicial da CBF, de R$ 1,95 bilhão, feita na candidatura brasileira”. Somente com a diferença entre o orçamento inicial e o atual (R$ 3,889 bilhão), daria para construir mais de 7mil e 400 centros de treinamento para motociclistas, idênticos ao que a ABRACICLO apresentou. Com estes centros de treinamento daria para treinar 148milhões de pessoas todos os anos! Isso mesmo! Em um ano e meio, toda a população brasileira, do mais idoso ao recém nascido poderia ser treinado na condução de uma moto. Tudo isso somente com a diferença entre os orçamentos inicial e atual para a construção somente dos estádios para a Copa de 2014. Ficou, portanto, evidente que, entre habilitar corretamente e treinar motociclistas para uma melhor condução ou trazer outros países para vir “bater uma bolinha” na sua casa por um mês, nossos governantes decidiram bater uma bolinha.

Tudo isso, com o nosso dinheiro.

Fonte: O Julio Sene visitou Motofair BH a convite da Abraciclo

Obs.: Para facilitar a discussão sobre esse assunto, criamos um tópico no fórum para os motonliners. Clique aqui para acessar o tópico, ou faça seu comentário abaixo