Casos de invalidez foram a principal causa de pagamento do seguro

Seus membros devem ser protegidos

Casos de invalidez foram a principal causa de pagamento do seguro

Casos de invalidez foram a principal causa de pagamento do seguro

Colaboração de Luis Sucupira

Foi um longo caminho até que adotaram o capacete como equipamento de proteção obrigatória para motociclistas. A medida reduziu as fatalidades, mas não minimizou danos irreversíveis em membros inferiores.

Dados do DPVAT de 2013 apresentados pela seguradora Líder – administradora do DPVAT – apontam que o número de indenizações pagas pelo DPVAT no ano passado subiu 25% em relação ao ano anterior. Foram pagos 633.845 ressarcimentos, totalizando R$ 3,2 bilhões. Porém os casos de invalidez foram a principal causa de pagamento do seguro, com 70% dos registros no período.

Quanto às motos, o número de acidentes fatais com motocicletas caiu de 20.313 em 2012 para 12.265 no ano passado. Segundo Ricardo Xavier, diretor-presidente da seguradora Líder, “acidentes fatais caíram em todos os tipos de veículos. O que preocupa é que os acidentes estão deixando mais inválidos”, afirma.

A maioria desses casos de invalidez é causada por amputações e perdas de movimentos de membros inferiores e membros superiores resultado da falta de uso de proteções simples como cotoveleiras, joelheiras, luvas e caneleiras. A pesquisa chamada de Prevalência de Lesões Arteriais Traumáticas dos Membros Inferiores Decorrentes de Acidentes de Motocicletas, São Paulo, 2010 – realizada pelo Dr. Lineu Ferreira Jucá, cirurgião vascular no maior hospital dedicado a acidentes de trânsito do Ceará – o IJF (Instituto Dr. José Frota) de Fortaleza, Ceará, aponta para dados verdadeiramente preocupantes.

Ilustração mostra com clareza os riscos de não usar proteções

Ilustração mostra com clareza os riscos de não usar proteções

Segundo o estudo, o Brasil possui 3,3% da frota mundial de veículos, mas é responsável por 5,5% dos acidentes registrados com vítimas fatais em todo mundo. A primeira causa mortis, no mundo, são doenças cardiovasculares; a segunda é representada por todos os tipos de câncer e a terceira são os homicídios e só depois o trânsito. No Brasil, o trânsito e o homicídio são as primeiras e em Fortaleza é a segunda causa mortis. Bastaria este dado para que fosse adotada uma ação firme para salvar vidas e diminuir o crescimento do exército de aleijados que diariamente cresce.

O fato que mais preocupa é que com a adoção de uma simples e barata proteção muitas dessas sequelas seriam minimizadas e, portanto, muitos dos que estão hoje inválidos estariam ativos e produtivos e a Previdência Social não teria uma grande conta a pagar todos os anos. Mas a realidade não é essa.

A engenharia do acidente de trânsito

Para entender a engenharia do acidente de trânsito é importante entender a sua definição. Para a OMS – Organização Mundial de Saúde, motocicleta é qualquer veículo que tenha duas ou três rodas, com ou sem side-car e que seja movido a motor elétrico ou a combustão. O acidente de trânsito é todo evento danoso que envolva o veículo, a via, o homem e/ou animais e, para caracterizar-se, é necessária apenas a presença de dois desses fatores acima citados.

O estudo realizado pelo Dr. Lineu Jucá aponta para uma preocupação mundial – as lesões dos membros inferiores. São eles os mais atingidos por lesões, seguida pelas lesões na cabeça, pescoço e membros superiores. Além disso, há ainda as lesões vasculares que também são mais presentes em membros inferiores que superiores. O motociclista em um acidente, geralmente é arremessado para longe, sofrendo lesões graves como fraturas expostas, perda de tecido cutâneo (pele) e como consequência a evolução para infecções as quais resultam em muitos casos, em amputações.

Pelo Mundo

Depois que os Estados Unidos da América declararam guerra na década de 60’ do Século XX, muitas mortes foram evitadas. Mesmo assim há uma preocupação mundial a esse respeito quando se trata de traumas em membros inferiores. Estudo realizado pelo Centro de Estudos do Arizona, EUA, em 1985; aponta alta incidência de lesões nos membros inferiores sendo 88% na tíbia e 27% no fêmur. Desse total, 66% dos pacientes foram submetidos a algum tipo de intervenção cirúrgica e 36% deles a uma segunda cirurgia.

Em Singapura, no Sudeste Asiático, outro estudo realizado em 1983 aponta para dados semelhantes aos colhidos pelos americanos. Em outro estudo, desta vez realizado pelo Edinburgh Royal Hospital – Reino Unido, hospital especializado em emergência, 67% das lesões resultantes dos acidentes com moto foram nos membros inferiores e superiores, sendo a maior parte na perna direita e braço direito. A mesma informação foi colhida no Brasil só que a incidência maior está relacionado ao lado esquerdo. Acredita-se que tal fato se explica por conta da mão inglesa ser invertida em relação ao modelo brasileiro, pois a maioria dos acidentes está relacionada a “fechadas”.

Em outro estudo desta vez realizado pelo Hospital Trauma Center da Alemanha, relata que a maioria dos acidentados são jovens entre 25 e 29 anos de idade, em especial nos fins de semana, com permanência de aproximadamente 35 dias no hospital, além do que 23,4% tiveram necessidade de mudar de emprego devido a gravidade do acidente. O peso maior foi para membros inferiores.

O estudo realizado pelo Dr. Lineu Jucá aponta para uma preocupação mundial: lesões dos membros inferiores

O estudo realizado pelo Dr. Lineu Jucá aponta para uma preocupação mundial: lesões dos membros inferiores

A Itália também realizou estudos nesse sentido em 1977 e identificou dados semelhantes. Só que lá acidentes com motos representam apenas 20% do total registrado como acidente de trânsito. A Alemanha, Inglaterra e EUA, os números estão na faixa dos 40% para acidentes com motos em relação ao total de acidentes de trânsito.

No Brasil

Voltando ao Brasil, especialmente o Ceará, segundo dados do IML – Instituto Médico Legal, além da fiscalização inadequada, foi constatada que 72% dos municípios cearenses não possuem postos de fiscalização e apenas 28% deles possuem autarquias municipais de trânsito. Para piorar temos mais de 300 mil motoristas e motociclistas rodando sem CNH. O dia da semana onde mais se registra acidentes com motos são os domingos (29,50%), sábados (20,20%), seguidos da sexta-feira com 12,10% e a segunda-feira com 11,60%. Terça-feira e quarta-feira registram respectivamente, 9,60% e 7,30%. Portanto aqui há um novo e preocupante dado – o acidente de trabalho. Sim! É considerado acidente de trabalho o sinistro ocorrido no caminho de ida e volta do trabalho. Calculando o tempo de afastamento do trabalhador em 35 dias em média dá pra imaginar o tamanho do prejuízo acarretado a empresas também quanto ao desfalque na mão de obra.

E se você acredita que pessoas com baixa escolaridade estão presentes na maioria dos acidentes com moto, vai ter uma surpresa. Este público representa apenas 7% dos acidentes. São os que possuem ensino médio completo que representam o maior índice de acidentados (46,70%).

Tais dados já seriam suficientes para que fosse realizada uma ação forte no trânsito. Mas apenas se “enxuga gelo” e pune-se a moto e o motociclista com ideias absurdas e totalmente desprovidas de razão. Para reverter este quadro, o estudo realizado pelo Dr. Lineu Jucá enfatiza a necessidade da inclusão de kits de proteção para membros inferiores como item obrigatório para o motociclista. Além disso, recomenda ainda ações direcionadas para programas de informação pública, promoção de mudanças comportamentais (coisas que nós do Motonline fazemos constantemente), mudanças na legislação e avanços de engenharia e tecnologias relacionadas ao trânsito. Uma fiscalização mais efetiva quanto ao uso correto do capacete e o fato de estar preso pela cinta jugular ao pescoço, exames mais rigorosos para obter a CNH, inclusão da disciplina de educação de trânsito nas escolas, pois no mundo todo é o pedestre o que mais morre.

Além disso, o estudo recomenda que sejam adotadas estratégias que resultem em veículos mais seguros, modificações de práticas de direção, conservação de estradas, sinalização conveniente, melhoria dos serviços médicos de emergência e isenção de impostos para os equipamentos de proteção individual destinado aos membros inferiores.

Um preocupação mundial

Podemos ver que essa é uma preocupação mundial. Mas mesmo que o governo faça muito bem feito a sua parte, é necessário que você motociclista comece a cuidar da sua vida. Uma proteção dessas custa menos de 50 reais e ajuda sim. Se quiser um testemunho válido posso dar o meu. Já levei alguns tombos sérios em toda a minha vida em cima de uma moto, mas nenhum osso quebrado, nenhuma infecção causada por perda de tecido. Além de buscar pilotar corretamente o uso constante da proteção dos membros inferiores e superiores permitiu que uma fratura certa fosse evitada e apenas uma leve luxação acontecesse e sem nenhum arranhão. O mesmo acidente que sofri se fosse sem proteção, com certeza me deixaria na lista daqueles que sofreram graves lesões, estaria internado por 35 dias em hospital e com alguns parafusos pelo corpo. Por conta das proteções, no mesmo dia eu estava trabalhando. Já a moto levou 20 dias pra ficar pronta.

Por isso amigo motonliner, use o equipamento de proteção. Comece você a dar o exemplo. Não custa caro, protege e salva a sua vida. E isso não depende de nenhum governo, por que deles não podemos e nem devemos esperar nada, principalmente em relação a ajudar a salvar vidas.



Motociclista desde os 18 anos. Jornalista e apaixonado por motos desde que nasceu.