Foto: Tite

Sexto sentido

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Desde a nossa tenra infƒncia, aprendemos que temos cinco sentidos: audi‡Æo, paladar, visÆo, olfato e tato mas algumas filosofias, como a antroposofia alemÆ, pregam a existˆncia de at‚ 12 sentidos. A sabedoria popular j  se acostumou a atribuir algumas ocorrˆncias ao sexto sentido. Ou como dizem l  no interior de Minas, quando a gente fica “com a pulga atr s da orelha”.

Essa sensa‡Æo, que sempre nos remete a uma desconfian‡a ‚ a melhor arma para se defender contra surpresas provocadas por aquelas vari veis incontrol veis do trƒnsito. Ou como costumo dizer aos meus amigos, nunca subestime a capacidade que os outros tˆm de errar.

Pilotar moto exige uma postura de escoteiro, sempre alerta! Se um carro … frente est  em atitude suspeita, posicionado no centro da rua, sem dar sinais de mudan‡a de dire‡Æo, nÆo arrisque uma ultrapassagem. porque o motorista pode estar procurando uma rua, ou prestes a entrar na garagem. As expressäes como “estar ligado”, ou “estar antenado” refletem bem esta sintonia do motociclista com o mundo que o cerca.

Numa £nica semana vi dois acidentes com motoboys, na mesma esquina porque ambos sa¡ram no sinal verde, sem conferir se ainda viria algum ve¡culo pelo cruzamento. Por mais que um motorista esteja errado, atravessando o farol fechado, ‚ sua pele e seus ossos que estÆo em cima da moto. Portanto desconfie mesmo dos sinais abertos e s¢ atravesse um sinal verde depois de conferir se ainda tem algum apressadinho, ou espertinho, querendo furar o sem foro.

Nossas motos – leves e  geis – tˆm capacidade de acelera‡Æo muito maior do que a maioria dos carros. Os motoristas “desligados” nÆo estÆo acostumados com esta caracter¡stica e desprezam as motos.

A melhor forma de saber quais sÆo as inten‡äes do motorista ‚ observar sua expressÆo por meio do espelho retrovisor. Normalmente o espelho reflete os olhos do motorista e esta ‚ a forma mais segura de saber se aquele motorista percebeu sua presen‡a. Sem esta certeza nÆo se arrisque a uma ultrapassagem.

No meu tempo de habilitando, quando me inscrevi numa moto-escola. ainda havia a obrigatoriedade dos sinais de bra‡o para indicar a dire‡Æo a seguir. Pela atual legisla‡Æo nÆo mais existe esta obrigatoriedade, mas o bom senso recomenda utilizar os bra‡os para sinalizar em situa‡äes de emergˆncia, ou quando suas luzes de dire‡Æo estÆo queimadas.

Do al‚m

Pilotar “desconfiado” ‚ a melhor forma de se prevenir contra sustos. Nesta ‚poca do ano as chuvas sÆo constantes e a vegeta‡Æo na beira da estrada cresce mais r pido do que a capacidade de mantˆ-la aparada. Ao fazer curvas em estrada com o mato alto ‚ imposs¡vel ver o que rola l  na frente. Desconfie! Antes de se preparar para a curva pense na possibilidade de encontrar algum obst culo em plena curva, como sujeira, carro lento, cachorro, pedestre etc

Sempre conto uma hist¢ria de sexto-sentido (ou s‚timo, oitavo, sei l ) que vivenciei quando treinava para provas de enduro. Costumava fazer um roteiro no interior de SP, entre Paraibuna e Mogi das Cruzes com uma Husqvarna 250. O percurso de 28 km tinha v rios tipos de piso, curvas e pouco movimento durante a semana. Era uma ¢tima pista de teste e de treino, mas como toda estrada aberta estava sujeita a outros ve¡culos e ao trƒnsito de moradores.

Nos trechos de boa visibilidade eu apertava o ritmo, mas nos trechos povoados eu aliviava porque sempre aparecia algu‚m ou animais soltos. Um certo dia eu estava num ritmo muito forte e totalmente “casado” com a moto. Fazia as curvas quase no limite e senti que estava tranqilo e seguro. Como sempre, eu treinava sozinho.

Logo ap¢s uma longa reta eu deveria fazer uma curva de alta para a esquerda em uma regiÆo vazia, sem casas. Quando estava me preparando para come‡ar a frear tive a impressÆo de ver um vulto no lado direito da estrada. E parecia uma crian‡a assustada, de olhos arregalados. Tirei a mÆo, freei mais forte e olhei pra tr s pra confirmar se era uma crian‡a mesmo. Nada, nÆo tinha ningu‚m. Como j  tinha perdido a concentra‡Æo, reduzi e fiz a curva bem devagar. Bem no meio da pista, sentada no chÆo, estava uma crian‡a de uns 2 anos, brincando com um filhote de cachorro. Naquela semana um grupo de plantadores de eucalipto estava acampado bem naquele trecho da estrada e as crian‡as estavam espalhadas por toda parte.

Sexto sentido, “feeling”, premoni‡Æo, intui‡Æo, clarividˆncia, sorte, ben‡Æo, sei l  que nome dar a isso, mas aquele segundo de desconcentra‡Æo na entrada da curva impediu que eu atingisse a crian‡a sentada no chÆo e desde aquele dia passei a treinar s¢ em pistas. Tive a certeza de que um “aviso” como aquele nÆo acontece duas vezes na vida de uma pessoa.

Se a sua intui‡Æo “avisa” para ir mais devagar, esque‡a os outros, os hor rios, os colegas do motoclube, a pressa tudo. Acredite no seu sexto sentido e v  no seu ritmo porque a gente pode nÆo ter uma explica‡Æo cient¡fica para esse fen“meno, mas at‚ hoje nÆo conhe‡o outra forma de comunica‡Æo sensorial mais eficiente do que essa.