Sou um sobrevivente

Sou um sobrevivente

João Tadeu Boccoli

Aprendi a guiar moto mais olhando que praticando, até que um dia, conversando com meu pai no portão de casa, pára o meu amigo Penteado com sua novíssima Honda CB 50 SS, e eu com a maior cara de pau perguntei se ele deixaria que desse uma volta no quarteirão.

1970: Vale do Anhangabaú

1973: Vitória de Adu Celso GP Espanha 350 cc.

Campanha muita bem feita, pois tal foi à surpresa de meu pai em me ver rodando de moto, que alguns meses após fui presenteado com uma Honda CB 125 dourada, de 2 cilindros e partida elétrica, zero bala. Fiquei muito bonito na fita … Assim começa em 1974, a minha vida como motociclista.

Naquela época, moto ainda era uma coisa muito restrita, e moto de grande cilindrada era pra gente de muita grana; daí dá para se imaginar que os demais acessórios, como capacetes, casacos, luvas, etc. eram itens de difícil compra. Já sou sobrevivente por ter passado pelas insanidades de Lambretta com meu tio, mas resgatando minhas memórias do passado, e de maneira bem rápida, cito sobre a minha adolescência :

Não era obrigatório o uso de capacete … dá pra acreditar ? Não usávamos roupa de couro. Moto com freio a disco só nas figurinhas, ou nas motos muito caras. Vale lembrar que ver uma 750cc na rua era muito difícil. Andávamos no verão, na moto, de calção, sandália de dedo, e sem camisa. Não existiam celulares, e nossas mães viviam com o coração na boca. As namoradinhas eram proibidas de andar de moto com a ´juventude transviada’. Andávamos em grupo por puro prazer, em forma de bando mesmo. Não existia a profissão de moto-boy, e pasmem, os carros não nos respeitavam do mesmo jeito.

Não existia atendimento do corpo de bombeiros como hoje, e as vitimas eram carregadas de qualquer modo para algum hospital, ou por táxi ou pelo carro de alguma boa alma presente na hora. Não esqueça que não existiam celulares, telefones eram coisas raras, e chamar alguém da família era simplesmente impossível.

Não existia o CET que temos hoje, em 1974 tínhamos uma corporação o então DSV, que a população chamava carinhosamente de BEM-TE-VI por causa dos apitos, e eles tinham acabado de receber um lote de Suzuki 350T, com os comandantes de 500T. Eram bons policiais, mas péssimos motociclistas, graças a Deus. Pois a maioria dos motociclistas não tinha habilitação e eu, em particular, era menor de idade … meu pai foi um louco!

Furar o pneu na noite de sábado era sinal de empurrar a moto até em casa, desmontar a roda pela manhã, e ficar procurando um maldito borracheiro aberto aos domingos.

Bateu, caiu, amassou eram sinônimo de meses sem moto pois tudo era importado e levava o maior tempo até chegar. Dá também pra imaginar como era na hora de se ter que comprar pneus novos.

Enfim, um misto de insanidade e romantismo, de brutalidade grupal e amor fraterno … uma boa época.

Sonho de consumo dos jovens em 1973 e 74

1977: Á rea de embarque do Aeroporto de Congonhas

Saíamos diariamente, na hora do lanche do Colégio de São Bento e corríamos até a `Esquina do Barulho’ no centro antigo, só para poder ver as motos na loja do Sr. Edgar Soares, as grandes maquinas européias na loja do seu Latorre, entre outras.

Hoje fico lendo sobre uma ou outra moto, qual que anda mais ou menos, qual que tem a linha mais atual, quais serão os futuros lançamentos, quem faz as melhores manobras; e fico achando que quase tudo está igual, pelo menos na óptica das diferenças interpessoais.

Sim, sou um sobrevivente, e agradeço a Deus em poder estar vivo, e vendo o ponto que a tecnologia, que a ciência, que o amadurecimento da humanidade, e o ponto em que motociclismo se encontra.

Parabéns a todos vocês, e espero tê-los no rol da eternidade como sobreviventes também …