Técnica

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Realidade radial Geraldo Tite Simões*

Quando se pensa que já inventaram tudo para as motos esportivas surge uma novidade que rompe com vários conceitos.Desta vez a simples mudança na forma de fixação das pinças de freio provocou o maior rebuliço.

Freios comuns

O mundo motociclístico de velocidade caminhava no ritmo normal com seus avanços graduais, porém sem novidades que mudassem radicalmente algum conceito já estabelecido. No campo dos freios, as mais recentes novidades eram as pesquisas com sistemas antitravamento, como ABS e seus similares, ou frenagem conjugada (dianteiro e traseiro) em diferentes proporções. Todas estas pesquisas eram voltadas às motos touring.

Foto Honda News O frame no qual é fixada a pinça de forma radial, ou seja, os parafusos são fixados no mesmo sentido do raio da pastilha

Já as esportivas tinham seus focos de atenção na quantidade e diâmetro das pastilhas de freio. Surgiram as pastilhas assimétricas, com acionamento controlado hidraulicamente. E ainda freios flutuantes com diâmetros variados e até com formato orgânico (recortado) em vez do habitual circular.

O sistema de fixação das pinças dianteiras obedecia o mesmo princípio desde os anos 70, quando se popularizou o sistema de disco no freio dianteiro das motos. É muito simples: dois mancais de apoio são soldados na parte inferior da suspensão dianteira, conhecida como canela. Nestes mancais as pinças são parafusadas e colocadas de forma a manter as pastilhas perfeitamente paralelas ao disco.

Com o exagero de desempenho das motos esportivas nos últimos 10 anos, a necessidade de aumentar o poder frenante fez, inicialmente, os discos aumentarem. Em um segundo estágio, as pastilhas aumentaram de tamanho e, recentemente, cresceram também em quantidade. As esportivas modernas contavam com três pastilhas contrapostas (6 no total) para cada disco dianteiro, chegando ao absurdo de 12 pastilhas para os dois discos. Em frenagens exigentes, estas pinças superdimensionadas tendem a torcer nos mancais de apoio, alteram a simetria das pastilhas, além de provocar grande transferência de força para as canelas da suspensão, sobretudo nas motos com suspensão upside-down (invertida), onde era preciso montar um apoio (frame) de alumínio em substituição aos mancais, portanto, ainda mais sujeito às torções.

Freios radiais

Então, alguns daqueles engenheiros que são pagos para ter idéias observou que a torção e a transferência de força se davam pelo tipo de fixação da pinça às canelas. No sistema tradicional, os parafusos de fixação atravessam as pinças e são submetidos a uma força de tração no sentido lateral.

Foto Honda News O sistema tradicional de fixação das pinças, com os parafusos atravessando a peça. Desta forma, os parafusos recebem a força frenante lateralmente e tendem a torcem no sentido da suspensão, desalinhando as pastilhas e transferindo carga para a canela.

Bastou mudar este sistema de fixação, fazendo um novo tipo de frame para permitir que os parafusos percorressem as pinças no sentido radial, alterando signficativamente o momento de força nas pastilhas. Com isso, reduziu-se as torções provocadas pela frenagem e as pastilhas se mantêm paralelas ao disco.

A esta simples solução foi acrescentada outra: o acionamento individual das pastilhas, eliminando a possibilidade de mau contato das pastilhas com a pista frenante dos discos. Com estas duas novidades, a transferência de força da frenagem para a suspensão foi tão reduzida que chega a ser perceptível aos pilotos mais sensíveis. Nas motos de GP, esta pequena e inteligente mudança permite aos pilotos a possibilidade de frear muito mais próximo ao raio da curva, com a moto bastante inclinada. Como era de se esperar, esta tecnologia já pode ser vista nas motos produzidas em série, como as novas Kawasaki ZX e as Ducati 999. Em pouco tempo deve chegar também aos modelos mais mansos.

*Geraldo Tite Simões é jornalista e editor do Motonline