Foto: TachÆo e muro baixo: nada feito para os motociclistas

Três minutos para viver – Parte II

Foto: TachÆo e muro baixo: nada feito para os motociclistas

Foto: TachÆo e muro baixo: nada feito para os motociclistas

Armadilhas – Juro que gostaria de passar uma tarde com um engenheiro de obras p£blicas para olhar bem fundo na retina do indiv¡duo e perguntar:

– Quando o sr passa horas em seu computador bolando novas vias e obras em algum momento pensa que existe um ve¡culo chamado MOTOCICLETA? E que esse ve¡culo ‚ diferente dos autom¢veis, “nibus e caminhäes?

Motos nÆo podem ser tratadas como carros de duas rodas. Motos sÆo ve¡culos sens¡veis, delicados, expostos com dinƒmica pr¢pria. Equilibra-se por meio do movimento. Motos tˆm rodas diferentes, suspensäes diferentes e necessitam tratamento diferenciado.

A cada vez que atravesso uma ponte novinha sobre o rio Pinheiros, em SÆo Paulo, fico com a sensa‡Æo de que basta uma fechada para eu sair voando, porque a prote‡Æo de concreto tem pouco mais de 50 cm de altura, enquanto o banco da minha moto est  a 80 cm do solo. Ser  que o engenheiro daquela obra nunca olhou em volta e percebeu a existˆncia das motos? Ou a id‚ia ‚ fazer uma sele‡Æo natural e arremessar motociclistas rio adentro?

E j  que os motoristas sÆo incapazes de manter a faixa obrigat¢ria de rolamento, tornou-se necess rio parafusar uma placa quadrada de 10 x 15 cm, com cerca de 4 cm de altura no asfalto a fim de impedir a mudan‡a de faixa nas avenidas mais movimentadas, bem como nas rotat¢rias. Quando um carro passa por cima desses “tachäes” s¢ percebe o tuc-tuc-tuc no pneu. Mas quando uma moto passa em cima desses blocos o resultado ‚ um desequil¡brio e at‚ o corte do pneu, dependendo do tipo de moto.

Foto: Faixa branca, molhada e na curva: aqui o motociclista cai bem

Foto: Faixa branca, molhada e na curva: aqui o motociclista cai bem

Outra id‚ia fant stica para derrubar motociclistas sÆo as placas de metal para cobrir as crateras abertas pelas empreiteiras. Quando estÆo secas elas j  sÆo bem escorregadias, mas quando chove aquilo vira uma pista ensaboada. Para eliminar essa armadilha bastaria criar uma textura sobre essa placa. Qualquer estagi rio de engenharia sabe como texturizar uma superf¡cie met lica, mas cadˆ que algu‚m lembrou das motos?

Fritados – Nos £ltimos anos a cidade de SÆo Paulo foi invadida pelos “nibus fretados. Um diretor do Detran-SP defendeu esses ve¡culos por tirarem de circula‡Æo em m‚dia 30 autom¢veis. Como eu estou nas ruas todos os dias e passo em uma regiÆo infestada de “nibus fretados fui l  conferir pessoalmente. Mentira da grossa! Primeiro, porque eles circulam notadamente bem vazios. Segundo, porque pela minha pesquisa particular descobri que nem 30% dos usu rios deixam o carro na garagem de casa pelo simples fato de que sÆo usu rios de “nibus comum, mas cansaram do rala-e-rola na hora do rush.

Tem mais: esses “nibus circulam em ruas feitas para carros, entopem o trƒnsito e nÆo sÆo feitos para circular nas cidades. O escapamento deles fica embutido no p ra-choque traseiro, bem na altura do nariz dos motociclistas. Dificilmente eles percebem a presen‡a de um motociclista e, de quebra, os aproveitadores lotaram a cidade com “nibus fretados clandestinos! De solu‡Æo para reduzir o trƒnsito, os fretados se transformaram em mais uma dor de cabe‡a para o paulistano! Quando eles estacionam em qualquer rua … espera da freguesia impedem a visibilidade por parte dos pedestres. Em suma, sÆo tÆo eficientes para melhorar o trƒnsito quanto um galÆo de gasolina para combater um incˆndio.

No Brasil do contr rio a engenharia de obras vi rias tem um grande trunfo: as faixas reflexivas no asfalto. Elas sÆo necess rias para balizar os ve¡culos, mas o problema est  na composi‡Æo dessas faixas. SÆo feitas … base de material pl stico e funcionam como eficiente redutor de atrito, sobretudo quando estÆo molhadas. Basta observar as esquinas para perceber a presen‡a da faixa de pedestre, tamb‚m feita do mesmo material. EntÆo vamos analisar a l¢gica: sÆo nas esquinas que acontecem grande parte dos acidentes. Logo, sÆo nesses locais que os ve¡culos mais precisam frear de forma eficiente. Logo seria de bom alvitre que essa regiÆo permitisse um ¢timo coeficiente de aderˆncia para os pneus. Mas no Brasil …s avessas, as esquinas sÆo a parte da rua com menor coeficiente de atrito!

J  que o Brasil inteiro tomou conhecimento de um processo de texturiza‡Æo do piso chamado “grooving”, que serve para melhorar o atrito dos pneus dos aviäes no aeroporto de Congonhas, nÆo seria o caso de se aplicar o tal “grooving” tamb‚m nessas faixas brancas e escorregadias? Ou os motociclistas continuarÆo patinando nas esquinas rumo a uma castimbada a meia nau numa Bras¡lia velha?

·s escuras – Quando se fala em aumento no n£mero de acidentes envolvendo motociclistas ningu‚m nunca parou para avaliar dois fen“menos recentes que passaram a integrar a paisagem urbana, principalmente a paisagem veicular: a pel¡cula solar – popularmente chamada de insufilme – e o telefone celular! Criaram regras para determinar qual tipo de pel¡cula deveria ser usada nos carros e o grau de transparˆncia. Tudo em vÆo, porque cada um faz como bem entende. O problema da pel¡cula escura demais ‚ impedir uma das vantagens dos vidros transparentes: ver ATRAVS dos carros! Projetando a visÆo atrav‚s do carro pode-se prever o que se passa adiante do ve¡culo que vai   sua frente! Hoje os motociclistas e motoristas estÆo limitados … £nica visÆo de um vidro escuro com frases lapidares como “Deus criou a vida para que cada um cuide da sua”, uma verdadeira ode ao ego¡smo.

Para os motociclistas, essa falta de transparˆncia acabou com uma das melhores armas para refor‡ar a seguran‡a, que ‚ poder observar o motorista e antecipar seus movimentos. V rias vezes me safei de fechadas porque vi a cabe‡a do motorista virar … esquerda, antes de o anenc‚falo girar o volante e mudar de faixa sem sinalizar.

Mas a obra-prima criada pelo homem para detonar de vez com o trƒnsito chama-se telefone celular! Foi a inven‡Æo que mais impulsionou a carreira dos funileiros. Toda vez que percebo um carro sambando na minha frente logo olho pra uma das orelhas do motorista para saber em qual delas est  o celular! Eu sugiro que no caso de acidentes com v¡tima seja confiscado o aparelho celular dos motoristas e facultada … per¡cia a quebra do sigilo telef“nico para investigar se na hora do acidente o motorista fez ou recebeu alguma liga‡Æo. Isso deveria ser lei!

NÆo poderia deixar de comentar nesse extenso editorial o papel do motociclista. Correr demais ainda ‚ o fator que mais cedo leva um motociclista aos c‚us – no sentido literal e figurado. Alguns anos atr s fiz uma experiˆncia interessante. Com ajuda do jornalista e amigo J£lio Carone tra‡amos um roteiro de aproximadamente 30 km pelas ruas de SP e sa¡mos juntos bem na hora do rush. Eu fiz o papel do motociclista malvado e tive de desrespeitar todas as normas de trƒnsito, como subir em cal‡ada, passar farol vermelho, fazer retorno proibido, contra-mÆo etc. O J£lio foi o motociclista bonzinho e fez o mesmo percurso dentro da lei. Ao final do trajeto minha “economia” de tempo foi de precisos 3 minutos! Isso mesmo: 180 segundos.

Depois dessa experiˆncia, sempre que ou‡o na r dio que o trƒnsito complicou porque aconteceu um acidente fatal envolvendo moto e carro eu penso:

– Ele s¢ precisava de trˆs minutos para viver!