Um gato gordo no mercado

Um gato gordo no mercado

Certamente esse é um dos produtos que deu a base para que Guilherme pudesse hoje voltar ao mercado de motos em parceria com a indústria chinesa. Acredito mesmo que hoje, usando a tecnologia atual, a criação desse Mascote seria viável e interessante ao mercado, pois não temos nada parecido. Olha aí a oportunidade!

Tive a agradável missão de ser o primeiro jornalista a testar esse novo produto e vale a pena contar um pouco da história desse teste. A primeira curiosidade é que as fotos e o teste foram feitos em um imenso terreno perto da minha casa, na zona sul de São Paulo. O terreno era tão grande que um grupo de motociclistas da região “construiu” nada menos que três pistas de motocross e até realizamos (opa, me entreguei!) algumas provas piratas arrasadoras em termos de equipamento e de saúde! Hoje nesse mesmo terreno está um enorme complexo comercial formado pelo Shopping Interlagos, Wall-Mart, Carrefour, Hotel Íbis e um shopping de construção.

Outra curiosidade que você perceberá ao ler a íntegra desse texto é que a moeda da época chamava “Cruzado” e passávamos pela história gambiarra econômica chamada “congelamento de preços”, um dos maiores engodos da nossa história recente que ajudou a aumentar a inflação, enriquecer comerciantes inescrupulosos e deixar a população ainda mais arrasada moral e financeiramente. Não sei qual a relação da moeda com valores de hoje, mas quem tiver paciência e interesse pode encontrar uma tabela de conversão de moedas pela Internet.

Chamo atenção ainda para a redação desse teste. Naquela época os jornalistas (principalmente eu, um grande “metido”) também atuavam como desenvolvedores de novos produtos. Basta ler a quantidade de comentários sobre o que poderia ser feito para melhorar esse protótipo para perceber que as fábricas tinham uma bela consultoria técnica gratuita! Hoje ainda dou uns pitacos desse nível mas, infelizmente, alguns fabricantes de visão limitada encaram essas sugestões como “críticas” e acabam me espinafrando publicamente.

Curta o teste realizado em 1986 e divirta-se com a leitura, porque posso garantir que foi um daqueles testes que eu pilotava e ria sem parar!

AME Mascote 125

A Amazonas inicia uma nova categoria no Brasil: o “gato gordo”. Ele é feito a partir de um kit usando mecânica de outros fabricantes e com pneus largos. São adequados ao uso na areia e lama. Mas também podem ser usados no asfalto. Uma experiência: encarar um barranco de forte inclinação, com lama do começo ao final, a bordo de um veículo completamente novo, que nunca foi testado em condições semelhantes nem mesmo pelo fabricante. Uma acelerada no motor 125cc de quatro tempos, coragem, e lá vai. Primeira, segunda marcha e a moto vai subindo com incrível facilidade e estabilidade. Nesta prova, saiu-se muito bem.

O veículo em questão é o Mascote, produzido pela A.M.E. – Amazonas Motocicletas Especiais. Utilizando mecânica Honda ou Yamaha de 125cc, ela promete inaugurar uma nova categoria de motos no Brasil: o Fat Cat , ou “gato gordo”, como é conhecido depois de a Honda lançar este nome nos Estados Unidos com um modelo de 200cc. O nome surgiu devido à largura dos pneus e a grande aceitação destes veículos pelos mercados europeu, norte-americano, e com repercussões em vários outros mercados. Sua versatilidade pode se estender desde a iniciação de adolescentes no fora-de-estrada, até como um prático veículo rural, adequado a serviços leves ou inspeção de plantações.

Para a Amazonas, o Mascote visa atingir tanto os jovens, quanto aos pais que não agüentam mais ouvir seus filhos pedirem uma moto. Aliás, é muito provável que os pais, ao adquirirem este veículo, dificilmente vão conseguir largá-lo para seus filhos brincarem.

O modelo testado com exclusividade era um protótipo ainda em fase de finalização. Muitos componentes estavam em fase de aprovação e outros, como o motor, por exemplo, foram aproveitados de veículos bastante usados. Portanto, o teste foi realizado mais para efeito de apresentar o Mascote assim como mostrar um novo segmento do mercado que está surgindo (já existem outras empresas produzindo seus Fat Cat.

Rodando no gato gordo – Quando os primeiros veículos off-road com pneus largos e pequenos apareceram aqui pelo Brasil, materializados na Suzuki AV 90,.por exemplo, a grande dificuldade dos usuários era com relação à instabilidade no asfalto porque era difícil inclinar nas curvas. O Mascote mostrou que é possível conseguir uma boa estabilidade no asfalto sem comprometer a pilotagem na terra.

Os pneus com medidas 22 x 10 – 13″ são os maiores responsáveis pela boa estabilidade do Mascote, principalmente na areia quando os pneus conseguem uma boa aderência e é possível inclinar a moto mais facilmente do que com motos de off-road convencionais. Logo nos primeiros metros que se roda com o Mascote, percebe-se que ele foi realmente concebido para o mercado jovem. Mesmo utilizando quadro e motor de uma Honda Turuna a altura do banco ao solo será de 700 mm, com o novo banco, enquanto na Turuna é de 760 mm. A distância entre eixos também foi alterada com a utilizaçâo de uma balança de secção retangular mais curta, com isso a distância entre eixos,que na Turuna é de 1.200 mm, na Mascote é de 1.150 mm.

O conjunto tanque. laterais, pára-lama traseiro e barras do banco é uma peça única de fibra de vidro, e segue o estilo dos fat cat americanos. O tanque tem capacidade para oito litros e no modelo testado a tampa apresentou um pequeno problema. Por ser de automóvel, ela não tinha respiro e depois de rodar um certo tempo, o motor começava a falhar por falta de gasolina (na falta de respiro cria vácuo no tanque e a gasolina não desce). A solução é bem simples: serão utilizadas as tampas semelhantes às da Honda XLX 250R. A relação secundária foi projetada para dar mais força em baixa rotação. O Mascote. utiliza coroa de 49 dentes e pinhão de 15 o que significa uma relação de redução de 2,26:1. Enquanto na Turuna a relação é de 2,53:1 com pinhão de 15 e coroa de 38 dentes. No caso do Mascote, a Amazonas precisou desenvolver um pinhão especial para ser utilizado com a roda mais larga.

O Mascote terá apenas velocímetro no painel (ainda não disponível no protótipo) e a carenagem do farol tem apenas o conjunto da chave de ignição. Não há luz do ponto-morto, o que a fábrica deveria providenciar para evitar que a moto seja ligada com a marcha engatada. O modelo testado apresentava o sistema elétrico de 12 Volts, com mesmo farol retangular da Turuna e sem os piscas. A lanterna traseira é reduzida, especial para fora-de-estrada e não há suporte de placar (por enquanto).

Gato gordo na lama – A grande diversão é encontrar um local cheio de lama ou areia para experimentar os pneus largos. A moto atravessa os locais lamacentos com a maior facilidade e dá muita segurança para rodar no areião. Com a relação reduzida, dá para “escalar” barrancos de terra com a coragem de uma Honda XLX 250R, ou a esperteza de uma Yamaha DT 180N. Aliás, é intenção do fabricante produzir também modelos com motor de dois tempos da RD 125.

A única deficiência do modelo testado, que vai variar de acordo com a mecânica utilizada é com relação à suspensão. A dianteira estava muito dura e com um curso muito pequeno por causa da localização e largura do pára lama dianteiro: Já a suspensão traseira também não funcionava perfeitamente transmitindo muita vibração nos terrenos acidentados. Isto poderá ser facilmente resolvido optando ou pela suspensão da Honda XL 125S, ou mesmo da DT 180N, tentando aproveitar uma suspensão traseira monoamortecida.

Em compensação os freios são excelentes. O dianteiro é a disco hidráulico derivado da Turuna e o traseiro é a tambor. O conjunto mostrou muita eficiência na terra e no asfalto. Uma sugestão para o fabricante: instalar um cobre-freio no disco dianteiro para evitar acúmulo de lama na pastilha.

Outra correção que pode ser feita, ainda nessa fase de protótipo, é redesenhar o quadro elástico (balança), deixando um espaço maior entre o pneu e a balança, porque quando o Mascote vai para a lama, o pneu traseiro joga muito barro e trava a roda, o que aconteceu durante o teste.

Mesmo sabendo que a intenção do fabricante é manter o maior número de componentes da Honda 125, o guidão precisaria ser alterado. O que equipava o protótipo era igual ao da Turuna (dos modelos novos) muito estreito e baixo para pilotar em pé na moto. O ideal seria desenvolver um guidão específico para o Mascote porque utilizar um de XL ou DT prejudicaria a pilotagem da garotada de baixa estatura já que os guidãos off-road existentes são muito largos.

Mercado de Gato Gordo – O mercado para estes “gatos gordos” parece bastante promissor. A Amazonas aposta no sucesso da categoria, levando em conta que existe uma enorme quantidade de motos de 125 cc encostadas em garagens, porque seus donos não se decidem por vendê-las ou consertá-las.

O kit do Mascote é composto de tanque, laterais, pára-lamas, carenagem de farol, banco, rodas, pneus, mesas superior e inferior, relação coroa/pinhão, balança, capa de pinhão, eixos, tensor da corrente de transmissão, protetor e escape. O motociclista pode vender o que sobrou da sua 125cc (que pode ser Honda ou Yamaha) e kit sairá mais barato. O preço do kit é de Cz$ 25 mil e a moto pronta custará Cz$ 42 mil com mecânica 125cc zero Km.

Analisando os preços congelados de tabela, com a Honda CG 125 custando Cz$ 15.585,00; a XL 125S a Cz$ 20.864,00, o preço do kit para transformação do Mascote parece um pouco alto, mas se justifica por três motivos: Primeiro, as peças que sobrarem da moto transformada podem ser vendidas; segundo, nos tempos atuais e atípicos do mercado de motocicletas, quem conseguir comprar motos pelo preço de tabela pode se considerar um felizardo; e terceiro o Mascote é um veículo especial fora-de-série, com uma produção limitada feita quase artesanalmente, portanto sujeito a um custo industrial mais alto. O mesmo acontece com os carros fora-de-série ou mesmo com a moto Amazonas 1.600cc.

Aliás, é fácil imaginar porque escolheram o nome de Mascote para esta pequena motocicleta: basta dar uma olhada no tamanho da sua “irmã” maior!

Sensação diferente ao pilotar – Olhando, é uma moto diferente. Montada em cima, continua uma muito diferente. Mas pilotando o Mascote, desfaz-se a impressão inicial de que um Fat Cat é uma motocicleta, antes de tudo, estranha. Seus ”fat tires” (pneus gordos) oferecem uma estabilidade dinâmica muito menor que um pneu convencional de moto, devido ao seu menor diâmetro, mas isso não chega a ser um problema, como acontece com a Principalmente por que a sua utilização principal é no fora-da-estrada, na lama, terra ou areião. Mas não se pode deixar de ressaltar que a transformação de uma motocicleta normal, no caso a Honda Turuna, em um Fat Cat implica na solução de dois problemas técnicos: o primeiro é a maior distância entre os dois amortecedores traseiros, e o outro é o fato de a corrente de transmissão estar obrigatoriamente mais longe do centro do eixo da roda traseira. O primeiro problema foi solucionado pela Amazonas através de dois “enxertos” no quadro, para prender a parte superior dos amortecedores (esse problema não existiria se a motocicleta tivesse monoamortecimento na roda traseira), e o segundo teve uma solução original, que foi o de inventar um pinhão “gordo”, com o mesmo encaixe do original mas com os dentes mais afastados.

No modelo testado essas duas adaptações, apesar de não terem tido problemas de funcionamento, criaram um certo temor quanto à resistência mecânica, principalmente devido a saltos, acelerações e desacelerações. Constituem, portanto, os pontos críticos desse tipo de moto adaptada. Quanto ao restante tudo pareceu normal, a exemplo da mesa da suspensão dianteira que não difere das muito utilizadas em triciclos. E levando em conta que o modelo experimentado era um protótipo ainda em fase experimental, tudo leva a crer que o Mascote terá seu público garantido, pois a sensação ao pilotá-lo é sem dúvida diferente de tudo que há por arem matéria de lazer sobre duas (ou três) rodas.

Obs: – Os Fat Cat podem se tornar um mercado bastante interessante. O procedimento básico de fabricação não difere muito do já habitual de se transformar uma moto em um triciclo. Nessa apresentação porém a pretensão era dar uma dimensão de como a nova tendência está motivando diversos fabricantes. Assim, no plano original, esta reportagem faria um comparativo entre três fabricantes: a Amazonas com seu Mascote, a Triway com seu Bigway, e a Ascot com seu produto na área. As duas últimas desistiram de enviar seus modelos para teste. A Amazonas esteve receosa de nos ceder seu veículo para esta apresentação. Seu diretor presidente, Guilherme Hannud Filho. só concordou após garantirmos que seu produto seria analisado como um protótipo portanto sujeito a várias alterações antes de chegar ao mercado.

FICHA TÉCNICA A ficha técnica do Mascote, da AME, vai variar de acordo com a mecânica utilizada. Nesta apresentação foi escolhido o motor Turuna-125cc e não foi feita qualquer alteração mecânica.

As diferenças são:

Rodas – dianteira e traseira de 13″ Pneus – Maggion 22 x 10 – 13′ Altura do banco ao solo – 700 mm Distância entre eixos – 1.150 mm Peso seco – (aproximado) 110 Kg Capacidade do tanque – 8 litros Transmissão – transmissão secundária por corrente, coroa de 49 dentes e pinhão de 15 dentes, relação de redução, 3,26:1.