Underground

Underground

A tralha já tava “no jeito”. Tinha um destino em mente: PETAR , o subsolo. Algo como um queijo suíço, coberto com todas as ervas mais finas e toda a riqueza orgânica que esta combinação poderia proporcionar. Dizem que naquela região, uma faixa de Mata Atlântica que se estende entre a Serra do Paranabiacaba e a Serra do Mar, existem mais de 300 cavernas. Eu disse, trezentas…

Algumas delas detêm recordes impressionantes. Como um pórtico de mais de 250 metros de altura. Consegue imaginar isso?!?! Ou, fendas na crosta com profundidades equivalentes.

A Regis Bittencourt pode ser definida como a versão adulto para um “castigo” , de criança. Pros que não preencheram suas mórbidas estatísticas, ela oferece uma serra de pista simples e mão dupla, com um dos maiores tráfegos de caminhões do país. Uma verdadeira penitência, pra um motorista.

Pra um motociclista , só uma estrada de pista simples , larga e bem pavimentada. Nada além. A velocidade do “comboio” (a ultrapassagem é proibida na quase totalidade do trecho) é ínfima e isso faz das ultrapassagens um “passeio”. Pilotando a modestos 80km/h , qualquer um é capaz de “surfar” serra abaixo (ou acima) , com muita tranqüilidade.

O Huskão tá beirando os 4 mil km , e começa a parecer um “sapato velho” : mais “solta” e “confortável”. Uma SM não é uma bike de longas distancias , mas , é uma excelente “all arounder”. Vai muito bem na cidade , transporta na estrada com relativa competência, não faz a menor objeção a terra, tem um custo acessível e é muito leve (se comparada às demais opções disponíveis para uma trip destas). Honesta. Cadeira elétrica, exigente na terra (por conta dos pneus) , mas ainda assim: honesta.

A partir de Eldorado (pra quem vem pela Régis), o Rio Ribeira de Iguape , ladeia todo o percurso. Além rio, mata. Mata de verdade. Poucas clareiras, pouca quiçaça.

Cheguei na entrada do parque já de noite. Escolhi uma pousada e me instalei. Único hospede. Na placa, uma palavra: sauna. A sauna ficava no meio do mato. Ao lado do Rio Betari. Até aí, nada de extraordinário. Quando cheguei lá , a primeira grande surpresa da trip. A tal sauna tinha a sua frente, algo como um poço (na verdade um pequeno lago, relativamente profundo). Resumindo: o tal lago era, de fato, uma brota. Uma nascente. Nunca tinha visto nada parecido. Já vi nascente de 3, 4, 6 polegadas, mas, nunca havia visto um rio brotar do chão de uma só vez.

Lá a mata é medonha de densa e, não havia ninguém num raio de muitos metros. Ressabiado , cozinhei na tal sauna por mais de meia hora , tomando coragem. Depois, pulei na água mais pura que vi nos últimos muitos anos. Se a natureza é divina , aquele é um lugar pra ver Deus. Ver da primeira fila!

Após este “ritual de desintoxicação”, sai pra “cidade” (três quarteirões asfaltados), pra ver se achava algo pra comer. No caminho, cruzei um figura numa DT de trilha. Ato contínuo, paramos, nos apresentamos e marcamos um rolê pra manhã seguinte. Coisa do além… Não tinha visto ninguém na rua e, continuei sem ver. Tudo fechado. Escuro. Só cruzei uma pessoa. Exatamente a pessoa certa.

Comi três barrinhas de cereais e dormi. O tal rapaz é motociclista. É nascido lá e, além disso, é guia do pico. Como se isso não bastasse, revelou-se ainda uma pessoa extremamente descente e um profundo conhecedor e protetor da natureza.

Na manhã seguinte rumamos pro parque e meia hora depois estava diante de uma das mais impressionantes visões da natureza: uma caverna de verdade….. Cara…. como aquilo é impressionante…. Como é grande. Como é bonito. Um rio de água cristalina atravessa o pico e as formações decorrentes dos milhões de anos de infiltrações, formam uma paisagem surreal.

O acesso apresenta várias ramificações , em diferentes níveis que, em alguns casos, podem se estender por 7 quilômetros. Isso. Sete quilômetros de túneis e salões naturais, debaixo da terra….!!!

Eventualmente , depois de uma passagem estreita, abre-se um grande salão , com as paredes retintas e ornamentadas por uma enorme variedade de camadas, correspondentes à sedimentação dos mais variados metais e cristais. Coisa de loco…. O lugar é muito organizado e limpo. Há um respeito enorme. Lá no meio, abaixo de uma montanha de 200 metros de rocha maciça , apagamos nossas lanternas e ficamos em silencio absoluto. É uma sensação impressionante.

A temperatura é estável (15º) , independente da estação do ano. Não se houve absolutamente nada. Não há vida. Não há luz. Nada. Na superfície, a água reina absoluta. Rios , córregos e poços pra todos os lados. Desnecessário dizer que fauna e flora, crescem exuberantes, em toda sua forma e plenitude.

Mais duas cavernas e, time to go…. Poderia passar um ano naquele lugar, mas, tinha que estar de volta as 20:00, em SP. Despedi do meu guia, trocamos telefones, voltei pra pousada, carreguei a bike e vazei.

O guia , Alex , residente em SP , deu uma ultima dica pra volta. “_ Entra pra Sete Barras , depois de Eldorado , o caminho é bem mais legal e a distancia , praticamente a mesma”. Foi exatamente o que fiz.Tava no horário , seco e disposto. O tempo parecia estável , apesar das nuvens carregadas. Chegaria em casa “cedo” e , em condições sociais.

Chegaria….

Trafegando pelo trecho sugerido, vejo uma placa indicando um mirante. Passei, olhei pro relógio, fiz as contas e … , retornei. Aquilo renderia uma visão maravilhosa e, uma ultima foto. Segundo informações de um local, o lugar não era muito distante. Seis quilômetros de uma estrada de terra razoavelmente bem conservada. E assim foram, seis quilômetros. Subindo. Ao término, a estrada dava lugar a uma trilha. Chove há dias na região e o lugar tá liso. Muito liso. Dentro da mata tava ainda mais difícil de subir.

Já nos primeiros 20 ou 30 metros da trilha, vi que não haveria condição de prosseguir montado. Tava perigoso. Aderência zero e aclive acentuado. Larguei a bike e segui a pé. Imaginei que o trecho fosse curto. Tava todo equipado e assim, prossegui. Tudo pra não ter que perder tempo de tirar e por todo o equipo , outra vez. A idéia era chegar, contemplar, fotografar, descer e cair no trecho. Rápido.

Ainda teria que encarar uma subida de serra “ruim” , com grande possibilidade de chuva, à noite e com um farol muito parecido (pra não dizer igual) com um farol de moto de enduro. Foi aí que, sem perceber, perdi o controle da situação. Estava sozinho. Ninguém, além do cara que havia me prestado informação na entrada do acesso , sabia que eu estava lá. Já eram quase 16:00, o sol já baixava, e a mata ia se adensando, à medida que subia pela picada.

Subi o primeiro lance , acreditando que chegaria ao topo ao final dele. Isso não aconteceu. Subi mais um lance. Subida forte, íngreme e muito escorregadia.

Nada.

Subi mais um. Este já coberto de raízes e pedras. Daqueles de ajudar com as mãos. Obstinado com o desejo de chegar lá, não percebi o esforço que estava fazendo. Quando dei por conta, já no quarto ou quinto lance, meu capacete vertia água como uma mina e eu já estava absolutamente molhado dentro do equipo.

Comecei a entrar num espiral de preocupações e obsessão. Sabia que estava abusando da situação, mas não queria parar ali. Mais uma curva, um lance e, uma pedra, que se projetava para fora da mata, me dava a noção da altura que havia chegado. Sentado na trilha, tentando retomar o ritmo da respiração, levantei pra fazer xixi na beira do barranco.

De repente , minha pressão caiu como nunca havia acontecido e, por um segundo, tive aquela sensação de que alguém havia “apagado a luz”. Manja? Tudo preto…?!?!?! Pensei nas possibilidades de algo dar errado e na vulnerabilidade da situação.

Muito cansado, frustrado, desisti. Foi punk…. Tava acordado e, de alguma forma, me exercitando , desde as 7:00 da manhã. Àquela altura, já estava quase exausto. Desci e, lá debaixo, olhei pra trás antes de pegar o asfalto. A pedra, aquela que se projetava da mata, de onde eu tirei a ultima foto, estava a poucos metros do topo…. Tanto sacrifício, pra “nada”.

O cansaço me deixara “atordoado”. Não pude realizar o quão perto estava quando, desisti. Na subida da serra, molhado e com muito frio, refleti sobre o acontecido. Sobre a “perda” da noção e o sentido desorientado. Me deixei levar pela emoção. Abusei. Podia ter me dado muito mal. Sozinho, é preciso atenção redobrada e responsabilidade. Responsabilidade e planejamento, historicamente , definem grandes aventuras.

Não basta o desejo ou a ousadia.

Quem já leu Amyr Klink , um dos maiores viajantes da nossa era, sabe do que se trata. Pra viajar, voltar e continuar viajando, é preciso ter controle da situação. Sempre. A aventura pode dar lugar à loucura ou a estupidez num espaço muito curto.

Não cheguei ao mirante de Santa Luzia (acho que era este o nome), mas a “peregrinação” me valeu. Num dia qualquer, numa outra trip qualquer, vou me lembrar do episódio e saber que, redefinir objetivos é muito mais inteligente do que deixar-se dominar pela obsessão.

Não por coincidência, os maiores aventureiros que se tem notícia, compartilham sempre algumas características comuns: planejamento, organização, racionalização e foco.

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