X ou M?

X ou M?

Elas usam o mesmo motor de 660 cc, têm quase o mesmo preço e são feitas pela mesma fábrica: veja e compare as diferenças entre e XT 660 e a nova MT-03

A chegada da Yamaha MT-03 foi cercada de curiosidade. Não apenas pelo produto em si, mas também no seu posicionamento em relação à linha da Yamaha, pois poderia se transformar em uma concorrente da XT 660R, de quem herdou a mecânica e poucos componentes. Essa dúvida saiu dos guetos motociclísticos e chegou ao público consumidor; Qual comprar: a XT 660 ou a MT-03? A dúvida procede, afinal eles estão separadas por uma pequena diferença de preço (a MT é R$ 2.450 mais cara) e toda moto nova faz os corações balançarem. Então vamos conhecê-las melhor.

Posição de pilotagem/conforto Uma das sensações mais estranhas deste teste foi descer da XT 660 e montar na MT-03. Como o farol da MT é quase plano, posicionado bem baixo e o painel é pequeno, dá a impressão que a MT acaba no guidão! Ela fica esquisita como aqueles insetos com cefalotórax como barata e escorpião que têm a cabeça enterrada no tórax! Esse desenho pode até ser proposital porque os acessórios destinados a MT-03 têm um escorpião como logotipo! O guidão é bem aberto – até exagerado para uma moto urbana – como se fosse uma motocross. Os pés ficam menos recuados do que na XT 660 e o banco é largo e baixo em forma de selim, com espuma mais macia do que a da XT. Yamaha XT 660 e a MT-03

Vista frontal da MT03

Yamaha XT na praia

Quem quiser uma MT terá de se acostumar a usar mochila porque quase não há espaço para prender bagagem no banco do garupa. E se for viajar com garupa, aí a mochila terá de ser bem grande e prepare-se para ouvir um rosário de queixas. Esse banco do passageiro é apenas uma formalidade, porque é nítido que a MT não foi desenhada para levar duas pessoas. Aliás, como acessório já existe uma capa de fibra de carbono para eliminar o banco do passageiro e transformar a MT em monoposto. Se a sua companheira não acreditar, imprima esse texto e entrega à pent… quer dizer, à amada!

Esse banco da MT merece um comentário nada elogioso. Para dar um aspecto mais urbano os projetistas optaram pela costura externa, muito bonita, só que esqueceram de colocar uma sub-capa por baixo e o resultado é que depois de molhar fica minando água pelos furos da costura por dias seguidos. É admirável que uma fábrica não tenha pensado nessa possibilidade se até o tapeceiro da esquina sabe disso!

Em termos de conforto, o passageiro da XT goza de muito mais privilégios do que o passageiro da MT. Além de mais espaço para se acomodar o garupa da XT não fica com a roupa defumada. A moda de escapamento para cima pode ser muito moderna em termos de visual e funciona bem nos países que contam com gasolina aromatizada. Mas aqui no Brasil nossa gasolina cheira mal e o refluxo dos gases acaba defumando quem vai na garupa da MT. Na XT esse efeito é reduzido porque as ponteiras dos escapes são levemente inclinadas para baixo.

Só se percebe o quanto as pedaleiras da XT 660 são recuadas depois de colocá-la ao lado da sua irmã do estilo roadster. O banco é uma peça só, fino na altura do passageiro e mais largo no espaço do garupa. Na XT o piloto fica mais reto, enquanto na MT ele fica levemente inclinado para a frente. A distância do banco ao solo é bem maior na XT: 865 mm contra 805 mm da MT. Mesmo um piloto com 1,65m pode encostar os pés no chão sem stress. Talvez aqui esteja um dos grandes trunfos da MT em relação à XT, porque muitos motociclistas prejudicados verticalmente descartam a XT por não alcançarem os pés no chão.

Com a suspensão claramente voltada ao uso misto, de curso mais longo e progressivo não é surpresa que a XT seja mais amigável com o piloto e garupa quando enfrenta terrenos acidentados. Na MT tem-se a impressão de estar em uma esportiva, porque a suspensão é “seca” e transmite muito das pancadas ao piloto.

Motor/câmbio É exatamente o mesmo monocilíndrico feito pela Minarelli na Itália, com 660 cm3, refrigeração líquida, comando simples no cabeçote, quatro válvulas e potência de 48 cv a 6.000 rpm. A principal característica é o sistema de alimentação por injeção eletrônica. Apesar de iguais, os motores têm comportamento diferente porque o gerenciamento eletrônico da MT privilegia o torque em baixa rotação e a caixa de filtro de ar é imensa (5,9 litros). Por ser a mesma base mecânica os motores deveriam apresentar praticamente as mesmas reações tanto na MT quanto na XT. Porém há uma pequena diferença na relação final de transmissão, porque a MT-03 é mais “curta”. Isso mesmo! A moto que deveria ser de uso mais esportivo tem a coroa de 47 dentes, enquanto a XT 660, com seu estilo on-off road usa coroa de 45 dentes. A diferença na redução final é pequena: 3:1 na XT e 3,133:1 na MT. Estranho ver a MT com uma corrente de transmissão, porque na sua primeira apresentação a público em 2003 ainda como moto-conceito, ela estava com uma correia dentada. Esse estilo meio Buell de ser combinaria perfeitamente com uma correia.

Essa diferença foi responsável por números de consumo curiosos. Enquanto a XT 660 fez média de 20,8 km/litro, a MT-03 fez 18,6 km/litro. A explicação está na relação mesmo, porque quando ambas estão na mesma velocidade a MT-03 precisa de mais rotação no motor e isso significa maior consumo. Teoricamente a MT por ser mais baixa e ter pneus de uso esportivo deveria ser mais econômica, mas também esbarra em outro item surpreendente: é mais pesada! Enquanto a MT pesa 177,3 kg, a XT pesa 165 kg, ou seja, 12,3 kg a menos o que representa uma boa diferença.

MT-03 – Lateral esquerda

Nos testes de arrancada e retomada de velocidade os resultados também foram surpreendentes. Na arrancada a XT leva uma pequena vantagem até 140 km/h, depois a MT passa, mas a velocidade final é praticamente a mesma, chegando a 170 km/h, enquanto a XT continua ganhando velocidade até encostar em 172 km/h. Isso mesmo, a XT tem a velocidade final um pouquinho maior. No entanto a MT se mantém pregada no chão, enquanto a XT começa a balançar de forma preocupante quando passa de 170 km/h. Já nas retomadas de velocidade a MT sempre consegue retomar na frente da XT em função da relação mais curta.

E escalonamento das marchas é exatamente o mesmo em ambos os modelos. Porém o câmbio da XT tem um curso muito longo, enquanto a MT tem o pedal muito afastado o que atrapalha um pouco os engates. Ambas têm cinco marchas. Farol da MT-03

Vista frontal da MT-03

Suspensão/freios Aqui sim, estão as maiores diferenças. A MT tem suspensões, rodas e pneus voltados para a esportividade, enquanto a XT tem suspensões, rodas e pneus para enfrentar estradas ruins, péssimas ou inexistentes. Toda geometria da MT foi pensada em uma moto urbana, dentro do atual estilo street fighter (lutador de rua): curta, ágil e maneável. A distância entre-eixos é bem menor, 1.420 mm contra 1.505 mm da XT. Além disso a MT foi feita para curvar de forma muito rápida e em pequenos espaços. O raio mínimo de curva é de 2.225 mm, enquanto na XT é de 2.400 mm, ou seja, a XT precisa de mais espaço para fazer um giro de 180°. A melhor maneabilidade da MT é garantida também pelo menor ângulo de cáster (26º) e trail reduzido (97 mm). Já a XT foi projetada para subir barrancos e pedras, por isso a geometria a torna mais lenta nas reações com o cáster mais aberto (27,25º) assim como o trail maior (107 mm). Essas medidas deixam claro que o balanço da XT em alta velocidade é resultado de um perfil aerodinâmico muito alto e o pneu dianteiro muito fino. Mas a MT-03 também não é um primor de estabilidade em alta velocidade! Ela apresenta uma pequena oscilação, fruto da geometria mais “fechada” feita para ser arisca na cidade. O que salva são os pneus mais largos e de perfil esportivo.

O projeto inicial da MT-03 previa o uso de discos estilo margarida, mas na versão definitiva são dois discos na dianteira e um na traseira. Na XT 660 a receita é um disco flutuante na dianteira e um fixo na traseira. A MT freia absurdamente forte para combinar com a aceleração igualmente absurda. Pode-se dizer que ela se encaixa mesmo na categoria de motos que os rachadores chamam de “farol a farol”. Ela arranca muito rápido, mas também freia quase instantaneamente. Ou seja, foi feita para arrancar em pequenos espaços e parar em espaços menores ainda. Na XT o freio é menos agressivo porque o longo curso da suspensão dianteira reduz esse efeito. Os pneus esportivos 120/70-17 na dianteira e 160/70-17 na traseira contribuem para a melhor frenagem da MT.

Um dos itens que mais chama a atenção na MT-03 é o mono-amortecedor traseiro colocado horizontalmente ao lado do motor. Para que essa posição fosse possível foi preciso projetar uma bela balança de alumínio assimétrica. Na MT preta a mola é branca e na MT branca a mola é vermelha. Além do belo aspecto visual, essa posição facilita a regulagem da mola. O curso da suspensão traseira é de 120 mm e na dianteira de garfo telescópico é de 130 mm. Já na XT 660 o que não falta é curso de suspensão! O monoamortecedor traseiro tem 200 mm de curso, enquanto o garfo dianteiro telescópico tem 220 mm de curso. Para nossas cidades esburacadas e XT apresenta grandes vantagens sobre a MT. Esta tem uma suspensão que não chega a ser crítica como a de uma moto esportiva, mas transmite muito dos impactos para o piloto. Essa suspensão da MT, mais os pneus de perfil baixo, deixam a moto muito parecida com uma esportiva, “dura” demais! Escapamento da MT-03

Painel da MT-03

Painel da XT

Saída de escape da MT-03

Saída de escape da XT

Escape da MT-03

Freio da XT

O grande trunfo da XT é a versatilidade, enquanto a principal atração da MT é a esportividade. Tive a chance de pilotar a MT-03 no circuito do ECPA em Piracicaba e posso afirmar que é muito divertida. Pode-se enfrentar as curvas como uma esportiva, ou melhor, como uma motard. Cheguei mesmo a forçar as derrapagens de traseira nas entradas de curva só por brincadeira e ela responde com muita suavidade. Da mesma forma, acelerei com vontade nas saídas de curva para ver como reagia o pneu traseiro e ele só esboçou uma derrapagem quando a moto estava exageradamente inclinada. Como ela tem um vão livre muito grande (200 mm) pode-se inclinar até raspar os joelhos antes de chegar a tocar a pedaleiras, mas no limite é bom cuidar com carinho das pedaleiras.

Com a XT também dá pra inclinar bastante nas curvas, mas tem o limite dos pneus mais finos (90/90-21 na dianteira e 130/80-17 na traseira), maior altura do solo (210 mm) e a distribuição de massa mais alta em geral. Sem dúvida, no aspecto de estabilidade em curvas a MT-03 dá show e incomoda até os donos de motos esportivas. Em uma estrada sinuosa ela tem condições de acompanhar a galera das esportivas sem passar vergonha.

Para esse teste fiz uma pequena viagem acompanhado do Francis Vieira que se revelou outro pé de galocha à exemplo do Leandro Mello. Revezamos várias vezes na pilotagem das duas em estradas sinuosas, retas e até um trecho de terra. Claro que a XT sempre será melhor na terra, mas a MT não fez feio. Até que choveu canivete aberto e tive de pilotar a MT num lamaçal de dar gosto. Enquanto eu patinava e chapinhava a lama a 23 km/h o Francis ria descaradamente da minha desgraça na equilibrada e estável XT. No final consegui passar o sufoco sem chafurdar o focinho na lama. A única coisa que atrapalhou muito é a marcha lenta muito acelerada da MT-03. A propósito, parece que a Yamaha decidiu deixar a marcha lenta da XT e da MT 660 intencionalmente elevada para evitar as irritantes engasgadas em baixa rotação. Acredito que a engenharia da Yamaha deveria rever essa tática porque é incompreensível uma moto com injeção eletrônica “engasopar” como se fosse uma velha XLX 250 de dois carburadores.

Outra coisa que não dá pra entender é a posição da saída dos escapes. A XT, que é fora-de-estrada feita para enfrentar pau, pedra, etc tem os escapes passando por baixo do motor, numa posição vulnerável a pancadas. Já na MT que é feita para rodar em insuspeitos pisos asfaltados tem os escapes protegidos passando por trás do motor! Vai entender!

Mercado e conclusão Parece que a Yamaha não está preocupada em promover uma autofagia na sua linha. E com razão, porque na verdade a MT-03 tem características tão diferentes que não pode ser considerada uma concorrente da XT 660, mas sim uma nova opção. A MT é efetivamente uma moto urbana, para rodar basicamente na cidade, sem pretensões estradeiras. Já a XT 660 tem toda uma geometria voltada para a estrada e também pode ser usada na cidade sem qualquer impedimento.

Pela estratégia de marketing, a Yamaha colocou a MT-03 à venda por um preço pouco maior do que a XT 660. No mercado europeu elas a mesma diferença de 500 Euros a mais para a MT. A MT será lançada a R$ 26.950, enquanto a XT continua vendida a R$ 24.500.

Sem dúvida a MT é uma moto mais descolada. Se tivesse uma MT na garagem eu imediatamente arrancaria esse banco do garupa e colocaria essa capa de fibra de carbono (que só existe no exterior). Também trocaria o guidão (coisa que faço em todas as minhas motos) porque é exageradamente largo para esse tipo de moto. Para transitar no meio dos carros é um inferno porque fica exatamente na altura dos espelhos retrovisores. Certamente escolheria um guidão de alumínio fosco e cortaria cerca de 2 cm de cada extremidade. Eventualmente instalaria um protetor de mão preto fosco para ver como fica. Também não entendi as manetes polidas, enquanto na XT são pretas! Um filete vermelho ou laranja nas rodas de liga-leve também ficaria interessante, embora essa tendência esteja já meio saturada. Além disso, procuraria na Internet o que existe de acessórios para ela lá fora. Quando fui ao Salão de Milão lembro de ter visto uma extensa lista maravilhosa de acessórios que deixariam a MT muito mais fashion! Ah, por fim, um par de escapamentos de fibra de carbono seria a cereja em cima do bolo, embora o ronco original seja muito agradável. Assim como a XT a MT também dá aqueles estouros no escape quando desacelera. Nada muito alto e até agradável.

Esse comparativo pode ser resumido da seguinte forma: quem quiser uma moto de estilo moderno, caráter esportivo, feita para rodar essencialmente na cidade, a MT-03 é a bola da vez. Já quem gosta de enfrentar estradas, privilegia o conforto e tem de levar garupa, a opção recomendada é a XT. Pelo menos, dessa vez, a briga está em casa!

* P.S: Como você sabe, essa MT-03 foi roubada das minhas mãos logo após esse teste. Infelizmente as fotos da avaliação estavam na mochila levada com os marginais!

Preços, cores e ficha técnica você encontra no www.yamaha-motor.com.br