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A expressão senso comum é utilizada para
definir tudo aquilo que a gente ouve falar, repete e acredita, sem
pesquisar para saber se é verdade, ou não. Nós
crescemos ouvindo leite com manga faz mal, e coisas
do tipo. Quando se trata de motos, o número de pessoas que
caem literalmente neste senso comum é assustador.
E o principal alvo das crendices motociclísticas diz respeito
aos pneus. Principalmente os pneus esportivos.
Muitos donos de moto esportiva vêem as motos de competição
equipadas com pneus de especificação racing e acreditam
que tudo que é bom para as pistas deve ser bom também
para rodar nas ruas e estradas. O raciocínio é falso,
porque nas condições de corrida os pneus atingem temperaturas
muito elevadas, que são ideais para o seu funcionamento.
Imagine as motos esportivas cada vez mais potentes. Para transferir
esta potência toda para o chão é preciso pneus
de alta tecnologia. Não apenas para oferecer ótimas
condições de estabilidade em curvas, como também
e isto é esquecido pela maioria dos motociclistas
proporcionar aderência nas frenagens.
Os pneus devem cumprir três papéis: estabilidade,
aderência em frenagem e conforto. Ainda têm de suportar
os obstáculos das estradas e durar o suficiente para o motociclista
não se sentir lesado.
Estabilidade
Não é novidade para ninguém que as motos esportivas
inclinam para fazer curvas. Nesta posição, a área
de contato do pneu com o solo é representada pela lateral
da banda de rodagem. Quanto maior for esta área, mais borracha
estará em contato com o solo e a moto terá mais aderência.
Por isso os pneus ficaram cada vez mais largos, medida determinada
pelo primeiro número que aparece na especificação,
por exemplo 200/55-17. Neste caso, 200 é a largura em milímetros.
Porém, tudo na vida tem limites e com pneus não é
diferente. A largura é limitada pela balança traseira
da suspensão, que não pode ficar muito larga, sob
risco de provocar torções quando submetida às
forças de gravidade nas curvas.
A solução, então, seria oferecer compostos
mais macios. Mas isto também não seria bom, porque
a borracha muito mole iria fazer os pneus deformarem nas frenagens
e acelerações. Qual a solução? Usar
compostos diferentes num mesmo pneu. Manter a parte central do pneu
(de maior perímetro) mais dura e fazer as laterais mais moles.
Assim, o pneu ficaria bom para curvas e frenagens.
Para conseguir isto foi preciso ajuda da química e da tecnologia
aeroespacial. A química entrou com uma solução,
com cristais de sílica, que se rompem quando a temperatura
do pneu chega a um determinado valor, sempre acima de 60o C. Nesta
temperatura os cristais liberam a sílica que altera a composição
química da borracha nas laterais. Desta forma o pneu fica
mais macio nas laterais, mas conserva o centro
onde não tem os cristais rígido o suficiente
para não deformar nas frenagens e acelerações.
Aqui começa um dos problemas dos motociclistas que usam
pneus de competição em motos de rua. Nem sempre a
condição climática leva o pneu às temperaturas
acima de 60o C. E abaixo desta temperatura o pneu esportivo é
tão eficiente, ou mesmo pior, do que um pneu touring. Além
disso, depois que estes cristais se rompem, eles não são
recuperados. Se observarmos os pneus de competição
usados, poderemos notar um tom azulado nas laterais, como se tivesse
passado sobre o óleo. Isto significa que este pneu já
não vai oferecer a mesma eficiência de um novo. Por
isso as equipes utilizam cobertor de pneus, para que eles nunca
esfriem e mantenham o composto químico inalterado.
Alguns motociclistas que compram pneus usados de competição
podem nem estar cientes que estes pneus já não oferecem
a estabilidade que imaginam. E mais: os pneus de competição
não têm sulcos nas laterais, o que é uma temeridade
no piso molhado. Quando chove, os pilotos de corrida trocam os pneus
por compostos especiais que drenam a água com rapidez e eficiência.
Frenagem
A revista Das Motorrad, do grupo Luike Motorpress, realizou testes
com pneus esportivos, de especificação racing. A dúvida
era saber se este tipo de pneu oferece frenagem mais eficiente do
que um pneu sport-touring. Para evitar as deformações
nas frenagens, os pneus recebem fibras sobrepostas nas carcaças,
que podem ter nomes como PenTec, Rayon ou Kevlar, materiais desenvolvidos
em pesquisas aeroespaciais. As fibras são posicionadas em
ângulos radiais que variam de 60 a 75o, mas ainda recebem
uma cinta em ângulo 0o para evitar a deformação
radial.
Os pilotos da Motorrad utilizaram uma Kawasaki ZX-12 e testaram
quatro pneus de marcas e compostos diferentes, inclusive dois de
competição: um da categoria Supersport e um slick
da categoria MotoGP. Os testes comprovaram o seguinte:
- Os pneus de competição necessitam pré-aquecimento
para oferecer o desempenho desejado. Quando a moto começa
a rodar, nem sempre o calor é mantido, porque o ar fresco
arrefece a borracha, a menos que o asfalto esteja a mais de 45o
C. Mesmo assim, basta parar de rodar alguns segundos para que o
pneu arrefeça. Foram feitas seis repetições
e o modelo utilizado na categoria Supersport foi perdendo eficiência
à medida em que esfriava. Sua capacidade máxima de
desaceleração (medido com acelerômetro, ou medidor
de G), foi de 9,8 m/s2.
- O pneu da MotoGP consegue manter a temperatura por mais tempo
e sua frenagem é mais modulável, no entanto, o desenho
bicudo, em ângulo fechado, para dar mais área
de contato nas curvas, dificulta a dirigibilidade nas frenagens
mais fortes. A capacidade de desaceleração é
a maior de todas, atingindo 10,4 m/s2.
- Os dois modelos Sport-Touring de marcas diferentes oferecem poder
de desaceleração entre 9,8 de 10,0 m/s2, ou seja,
igual ou acima da força da gravidade (9,8 m/s2), sendo que
uma das marcas conseguiu manter-se mais equilibrada nas frenagens
fortes do que seu concorrente.
Pode-se concluir que, em termos de eficiência de frenagem,
o pneu sport-touring consegue um rendimento tão bom quanto
o sport-racing, com a vantagem de menor custo, maior durabilidade
e imunidade às variação de temperatura.
Conforto e calibragem
O conforto é outro item desprezado pela maioria dos donos
de motos esportivas. Quando os projetistas desenham uma moto já
sabem que nível de conforto pretendem dar aos seus consumidores.
Pensando nisso projetam a suspensão, posição
de pilotagem e o tipo de pneu que será utilizado. Quanto
maior for o perfil do pneu, representado pelo segundo número
na medida-padrão (65,60,55,50), maior será o efeito
amortecedor, portanto mais confortável para o motociclista.
Alguns usuários alteram a medida original e depois não
entendem porque suas motos ficaram duras.
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Além disso, o perímetro do pneu é um dos componentes
da relação final de transmissão (que inclui
ainda o câmbio, pinhão e coroa). Quanto maior o perfil,
maior será o perímetro. E quanto maior o perímetro,
maior (ou mais longa) será a relação
final de transmissão. Quanto um motociclista troca o pneu
original, de perfil 65, por exemplo, por um de perfil 55, ele está
diminuindo a relação final de transmissão e
a moto ficará mais curta. Consequentemente a
velocidade final será menor, mas terá mais respostas
em aceleração e saída de curvas.
Já a calibragem é outro foco de informações
desencontradas. Em primeiro lugar: a calibragem recomendada pelo
fabricante já prevê condições diversas,
como piso seco, molhado, quente ou frio. Portanto, não se
deve alterar a calibragem em função destas variáveis.
No caso de piso molhado o erro é gravíssimo. Muitos
motociclistas, principalmente os mais antigos, costumam reduzir
a calibragem para deixar o pneu mais mole. Só se esquecem
que isso vai fazer os sulcos (encavos) dos pneus ficarem mais estreitos
e vai piorar o escoamento da água. Ou seja, nada de mexer
na calibragem sobre piso molhado.
Outro erro é calibrar o pneu quente. Somente as motos de
corrida calibram o pneu quente, mas utiliza-se nitrogênio
e não ar (atmosfera). Entre os componentes da nossa atmosfera
está o oxigênio, gás carbônico, nitrogênio,
outros gases e água. A tal umidade relativa do ar significa
o quanto de H2O tem na atmosfera. O ar do cilindro que infla os
pneus contém água. Quem já ferveu água
sabe que as partículas de H2O se atritam com o calor e aumentam
de tamanho, fazendo a pressão subir. Por isso existem as
válvulas nas panelas de pressão, para evitar que elas
estourem. Quando o ar dentro do pneu esfria, as moléculas
voltam ao tamanho natural e a pressão reduz.
Como a vedação da roda nunca é 100%, quando
a pressão aumenta, parte do ar se perde, por isso devemos
calibrar constantemente os pneus, mas com eles frios. E também
recomenda-se trocar a válvula (bico) da roda, no caso dos
pneus sem câmera, sempre que trocar os pneus, mantendo uma
boa capacidade de vedação.
A vantagem do nitrogênio na calibragem é a ausência
de H2O na composição, o que ajuda a manter a temperatura
interna mais baixa, sem elevar a pressão.
Mais uma dica para finalizar. Lembre-se que os pneus ficam não
apenas gastos, mas também velhos. Desde o momento em que
o pneu sai da linha de montagem ele já entra no seu período
de envelhecimento. A mistura do pneu tem elementos naturais e sintéticos
que perdem sua capacidade mesmo sem nunca rodar nem um quilômetro
sequer. Portanto, fique de olho nos pneus de motos que rodam pouco.
O primeiro sinal de envelhecimento são minúsculas
trincas dentro dos encavos (sulcos), como se fosse cracelê
de porcelana. Mesmo que ainda tenha mais de 2,5mm de sulco, este
pneu já está comprometido.
Costumo dizer que donos de motos esportivas não podem pensar
como donos de motos utilitárias. Uma moto que vale mais de
R$ 20 mil merece sapatos finos, sempre novos e confortáveis.
Economizar em pneus pode sair muito mais caro do que se pensa.
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