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Quando a moto fala
Os sons emitidos pela sua moto podem identificar desde problemas até características próprias Texto: Geraldo Tite Simões
Logo que entra na recepção da concessionária, o motociclista inicia um diálogo muito louco: - Todo dia quando ligo minha moto o motor faz um tic-tic-tic... O recepcionista coça o queixo, olha a moto, dá a partida e cola o ouvido perto do motor: - Huuummmm, me parece mais um toc-toc-toc! - Não, não, esse toc-toc-toc é do rolamento da embreagem, normal, estou me referindo a um tic-tic-tic que só faz quando o motor está frio! E assim o diálogo prossegue entre tocs, tics, tecs e tucs até que a faxineira passa ao lado e pergunta para a copeira: - Esses dois aí são índios? Um dos grandes mistérios é entender os sons produzidos pelas motos. Não é raro receber mensagens de leitores desesperados em busca de “tradução” para algum ruído. E a resposta invariavelmente é a mesma: tentar reproduzir som por escrito é tão difícil quanto ensinar alguém a fazer um nó pelo telefone!
Apesar de toda dificuldade, alguns ruídos são mais fáceis de interpretar. Por exemplo, esse tic-tic no cabeçote quando o motor funciona pela primeira vez no dia é relativamente comum e normal em alguns motores. Pode ser uma característica do sistema de lubrificação. Enquanto o óleo não atingir as partes altas do motor, o comando de válvulas pode emitir esse som como se fosse uma máquina de costura. Que deve desaparecer em poucos segundos. Não se assuste isso não significa que o motor está trabalhando a “seco”, mas o óleo além de lubrificante também funciona como eficiente redutor de ruídos. Como o comando de válvulas tem muitas peças articuladas, o funcionamento é barulhento mesmo, mas o som desaparece depois de ficar devidamente “lambuzado” de óleo. Escola de samba No entanto alguns motociclistas menos cuidadosos insistem em rodar mesmo com o motor emitindo uma verdadeira bateria de escola de samba. Geralmente o ruído está associado a folga excessiva em algum componente que pode ser desde as válvulas (entre a haste e o ressalto do comando), até o comumente chamado de “batida de saia”, quando o pistão atinge ou supera o limite de desgaste. Como regra geral de manutenção, um defeitinho não resolvido no tempo certo pode resultar em defeitão e até um prejuízo material gigantesco. Importante é saber identificar a diferença entre o som do motor novo e do motor “cansado” e não prolongar o período de manutenção. Aviso sonoro
Nos freios a tambor o ronco é assustador e parece um ônibus lotado parando no ponto! Nos dois casos, se o ouvido não estiver afiado, use os olhos porque tanto o desgaste de pastilha, quanto de lonas é visível e fácil de diagnosticar. Uma das campeãs de reclamação de ruído é a corrente de transmissão. Algumas motos são até reconhecidas pelo elevado ruído da corrente como as Honda CBX 200 Strada e CBX 250 Twister. Ambas apresentam um ruído de corrente mesmo quando o componente é novo. Manter a corrente corretamente ajustada e lubrificada ajuda a reduzir o ruído, mas alguns donos dessas motos adotaram um paliativo que é colar uma borracha protetora maior na região onde a corrente entra em contato com a balança. É preciso ficar atento porque existem dois tipos de ruído da corrente. O normal é o som de atrito, mas quando a corrente fica muito folgada ela bate contra a balança e faz um som metálico como uma martelada. Aí já é hora de ajustar a folga. Barulhento ou silencioso Curiosamente, donos de Harley-Davidson jamais reclamaram do motor rumoroso. O som de um motor Harley é tão particular que a fábrica até patenteou esse ruído como forma de evitar uma clone japonesa até na voz. O que determina esse som tão personalizado é uma característica do V2 mais famoso do mundo. Esse motor tem dois cilindros em V, mas apenas uma biela! Na verdade uma biela principal, na qual é ligada uma biela secundária. Graças a esse sistema, o motor gera um ruído só dele. Bateu pino? É um barulho provocado por mais de um motivo: excesso de carbonização na cabeça do pistão, gasolina de má qualidade, motor fora do ponto de ignição ou vela ruim. Geralmente esse som aparece quando o motor está em retomada de rotação. Nos motores com injeção eletrônica esse fenômeno é mais raro porque a central eletrônica corrige o tempo de ignição. Moto barulhenta ou velha? Quando lavar a moto, aproveite para checar o aperto dos parafusos. Conheço motociclista que roda pelas ruas fazendo mais barulho do que uma carruagem de papei Noel! Pior mesmo são os barulhos misteriosos, aqueles que fazem a gente desmontar meia moto e não descobrir de onde vem. Eu mesmo fui vítima de um ruído metálico que insistia em vencer todas as minhas investigações. Cheguei a tirar o escapamento na esperança de algum vândalo ter jogado uma moeda dentro dele (o que foi sugerido por um mecânico). Quando já estava prestes a me internar num sanatório um amigo mecânico sugeriu verificar a pastilha do freio traseiro. Qual não foi a surpresa ao descobrir que faltava uma simples presilha, projetada só para evitar o ruído de peça solta! E nem podia culpar ninguém, porque quem trocou a pastilha fui eu mesmo! O que a moto quer dizer
Outro som típico é uma espécie de sopro de ar. Geralmente é causado por entrada falsa de ar no coletor de admissão. Quando o pistão desce e suga a mistura, qualquer pequena fissura no coletor, ou abraçadeira solta ou prisioneiro solto podem gerar esse som como se fosse um fluf, fluf, algo assim! O reaperto dos prisioneiros, ou da abraçadeira ou a troca da borracha do coletor podem resolver. Muitos donos de motos 125/150 cc gostam de tirar o filtro de ar para curtir o chuuóóóp grave emitido pelo som do ar passando pelo coletor de admissão. Além de ilegal – supera os níveis de emissões de ruído – essa mania detona o motor, pois permite a passagem de resíduos sólidos que riscarão a camisa do cilindro, reduzindo a compressão e até pode fundir o motor por falta de gasolina na mistura. Para identificar de que parte do motor vem o som, uma solução bem simples é improvisar um estetoscópio de mecânico. Os médicos usam aquele aparelho para auscultar nossos ruídos internos. Não precisa comprar um estetoscópio, basta encostar um pedaço de madeira no ouvido e ir deslocando pelo motor. O som propagado pela madeira facilita a descoberta da origem do ruído, mas cuidado, se seu motor vibrar muito vc pode ficar com a orelha toda martelada! E se você curte soltar pipocos – aqueles estouros do escapamento – saiba que seu motor está estragando a cada POW que faz. Imagine que o motor foi projetado para provocar uma detonação dentro da câmara de combustão. A energia é toda liberada lá dentro. Não por acaso o formato é cilíndrico, porque é o formato que melhor absorve impactos. As válvulas de escapamento e admissão foram projetadas para receber e vedar o impacto criado de dentro para fora do motor. Quando o desgraçado desliga o motor, acelera e liga de novo ele enche o escapamento de mistura não queimada. Aí quando religa a chave a centelha provocada pela vela detona não só a mistura que está no cilindro, mas também a que ainda está no escape, por isso faz aquele estouro. Só que a onda de choque liberada pela explosão no escape se propaga para todos os lados, inclusive de volta para a câmara de combustão. Nesse momento essa onda de choque encontra as hastes de válvulas projetadas para suportar uma força em apenas UM sentido e dá uma tremenda pancada no sentido contrário. O resultado é um ligeiro empenamento nas hastes que prejudicam a vedação das válvulas. Depois de algum tempo o motor da moto desse cretino começa a soltar uma fumacinha azulada e o desqualificado continua rodando, feliz, poluindo o ar e o som ao nosso redor. Quando o motor abrir o bico de vez aí ele rouba outra moto e continua “trabalhando”. Sim, porque quem chega a esse nível de desprezo pela sociedade certamente é um potencial criminoso. |
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Matéria
publicada em 24/02/2008
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