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chegou em meio a uma turbulência econômica.
A moeda era Cruzado, o plano era Bresser e havia uma tal CIP – Comissão
Interministerial de Preços – que controlava o preço
até de papel higiênico. Na música o som era
pesado, bandas metaleiras como Judas Priest, Metallica, Iron
Maiden fazia a cabeça da rapaziada. E na cabeça
das moças a mora era cabelo encaracolado, como um poodle.
Assim era Brasil de 1986, quando atingimos a maioridade motociclística
com a chegada da primeira grande moto ao nosso mercado: a Honda
CBX 750F.
Para entender a euforia causada pelo lançamento em 6
de abril de 1986 é preciso voltar 10 anos no túnel
do tempo. Corria o ano de 1976 e o país acordou com uma
notícia chocante. Como forma de proteger a indústria
nacional o Ministério da Fazenda baixou uma norma proibindo
a importação de uma extensa lista de bens supérfluos.
Entre eles estava a moto. Era o fim de uma era de motos de grande
cilindrada e um desastre para toda uma geração
de motociclistas. A indústria nacional de motos realmente
cresceu a passos largos sem a concorrência das “gringas” e
os modelos começaram a crescer. Nossa maior moto nacional
era a Honda CB 450, herdeira da CB 400 lançada em 1981.
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Catálogo
da CBX 750 |
Quando a Honda do Brasil importou 800 unidades da CBX 750F os
brasileiros estavam com uma demanda de motos grandes reprimida
há 10 anos. Foi como tirar a válvula de uma panela
de pressão.
A mais cara do mundo
Entre outras coisas, a revelação
do preço
provocou comentários nervosos. Ela chegou ao mercado a
129.290 Cruzados (lembra?), o que equivalia à época
a US$ 9.388. Cara? Em valores atuais corresponderia a R$ 20.500.
Seria barata se não fosse por um fenômeno típico
daquela época, o ágio! Aquele preço “cipado” era
apenas uma referência, pois na prática a CBX 750F
era vendida a Cz$ 400.000! O que equivalia a US$ 29.050 (R$ 63.000
em valores atuais). Por isso recebeu o título de “a
750 mais cara do mundo”.
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| CBX
750, 1988 |
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| CBX
750, 1990 |
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| CBX
750, 1992, Indy |
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| CBX
750, 1992, Indy |
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Tecnicamente esse primeiro lote de 800 motos era de modelos
iguais aos comercializados na Europa e EUA, apenas passou por
uma tropicalização para aceitar nossa gasolina
com álcool, que lhe custou 9 cv. Entre outras medidas,
a taxa de compressão caiu para 8,8:1. A potência
era de 82 cv a 9.500 rpm e a velocidade máxima obtida
naquele primeiro teste foi de 209 km/h. O Brasil se assustava
diante do rompimento da barreira de 200 km/h sobre duas rodas.
O motor de quatro cilindros em linha, 16 válvulas e duplo
comando era um primor de equilíbrio, economia e praticidade,
qualidades que o mantiveram em produção até finais
dos anos 90 nos Estados Unidos com o nome de Nighthawnk e continua
em predução até hoje no Japão. Com
arrefecimento misto ar+óleo tinha um funcionamento muito
macio e conseguia fazer até 18 km/litro de média
de consumo.
Na parte ciclística, as boas novidades eram as suspensões
com múltiplas regulagens, inclusive com sistema antimergulho
na frenagem. A roda dianteira de 16 polegadas era inédita
em motos nacionais. O comportamento era bem esportivo nas curvas
e muito confortável nas viagens. Isso foi comprovado logo
em seguida em uma voltinha básica de 4.100 km junto com
uma Honda CB 450.
Made in Brazil
A evolução natural foi o processo
de nacionalização
que viria logo em seguida, em dezembro de 1986, com o lançamento
da CBX 750F batizada de Hollywood, em função das
cores vermelho, branco e preto, como o maço de cigarro
Hollywood. Foram muitas mudanças no processo de nacionalização.
De modo geral, os jornalistas concluíram que a moto “piorou” em
relação à versão importada. De fato,
algumas alterações como suspensões mais
simples e sem regulagens, pneus com câmara, rodas de liga,
acabamento menos cuidado resultaram em uma moto menos nobre do
que a versão totalmente importada. No entanto, a dirigibilidade
melhorou, principalmente pela roda dianteira de 18 polegadas
e pneu de perfil mais baixo, mais adequados ao tipo de terreno
no Brasil.
O motor permaneceu praticamente intocado, mas obteve um pouco
mais de rendimento, com a velocidade máxima chegando a
213,9 km/h. Outro item que aumentou foi o preço. Ainda
sob as rígidas normas de controle de preço (que
nunca surtiram o efeito desejado) a CBX 750F brasileira chegou às
lojas tabelada em Cz$ 137.238 (US$ 9.966). Mas o absurdo corria
solto no mercado paralelo onde era vendida a Cz$ 400.000, enquanto
a versão importada chegou a impensáveis Cz$ 450.000,
o equivalente a US$ 32.680! Com certeza era uma das motos mais
caras do mundo!
Segunda geração
A versão nacionalizada se manteve praticamente inalterada
por quatro anos, apenas com o índice de nacionalização
sendo gradativamente elevado. Enfrentou a concorrência
da Yamaha RD 350, mas manteve-se no posto de rainha até mesmo
em termos de desempenho, já que a RD 350 nunca passou
de 200 km/h na versão original.
Em 1990 seria lançada a última versão da
nossa grande moto, batizada de Indy, com importantes novidades
no aspecto visual. Ganhou carenagem integral, atendendo uma tendência
de estilo da época, mas totalmente na contra-mão
da versão americana, Nighthawnk, que era mais simples
e sem qualquer carnagem.
A Indy foi unanimemente considerada a mais feia de todas, justamente
em função da imensa carenagem. Além de ficar
desajeitada, a rainha começaria a perder a majestade com
a abertura do mercado, em 1991, que permitiu a chegada de motos
mais modernas. Uma Kawasaki ZX6, por exemplo, podia chegar a
245 km/h e 13 cv a mais. Mesmo assim a Indy ainda iria se manter
no mercado até 1994, quando saiu definitivamente de cena.
Atualmente o mercado de CBX 750 usada tornou-se uma caça
ao tesouro. Mesmo depois de 20 anos de seu lançamento
ainda tem gente que tem verdadeira veneração pela
750 “brasileira” fruto de uma magia muito especial
ao número 750. A geração que curtiu os anos
70 tinha como sonho de consumo uma 750, porque era a maior categoria
da época. Hoje as 600 absorveram esse espaço e
a única fábrica que ainda faz uma 750 de quatro
cilindros é a Suzuki.
Uma pena, porque imagine como seria interessante para o mercado
brasileiro ter uma moto barata, simples e com o mágico
número 750 estampado nas laterais. Sorte dos japoneses,
que ainda pode curtir essa maravilhosa e inesquecível
750.
Ainda vive
Quando a CBX 750F Indy saiu de linha, em 1994 o mercado
brasileiro estava começando a viver seu grande crescimento.
Aquele ano fechou com cerca de 120.000 motos vendidas, média
de 10.000/mês. Hoje a cifra de um milhão/ano é uma
realidade sem volta. O mercado brasileiro amadureceu, cresceu
mas ainda sobrevive das pequenas utilitárias. Uma moto
de mecânica simples, visual despojado de carenagens, suspensão
convencional, com motor quatro cilindros em linha e 80 cv teria
tudo para agradar, principalmente se custasse menos de US$ 10.000
ou R$ R$ 20.000. Alguém duvida? Então saiba que
a CBX 750 continua em produção do Japão,
com nome de CB 750, suspensão traseira convencional e
o interminável motor de quatro cilindros em linha, duplo
comando e 16V. A CB 750 ainda vive.