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Para
quem está chegando agora no mercado de motos, o nome Kasinski
pode parecer novo, mas é o sobrenome de um importante industrial
que sempre esteve ligado à indústria automobilística,
Abraham Kasinski. Talvez meio injuriado de ver tanto carro pela
frente, Kasinski resolveu dar um novo rumo à sua vida e decidiu
entrar no mundo das motos. Para isso adquiriu os direitos de comercializar
a marca coreana Hyosung. A Hyosung é um império na
Coréia, onde ocupa o 9° lugar entre as grandes indústrias
daquele país. Ela atua em áreas tão diversas
como náutica, automóveis, máquinas, motos,
pneus e capacetes. A empresa começou sua história
adquirindo tecnologia da Suzuki, mas com o tempo foi desenvolvendo
seus próprios produtos. Como é comum em outros países
asiáticos, a Hyosung ainda compra tecnologia de fábricas
japonesas, principalmente na motorização de suas motos.
Os produtos Hyosung são bem respeitados na Coréia
e exportados para alguns países da Europa, como Portugal,
Espanha e Inglaterra.
Ao escolher a Hyosung, Kasinski foi mais longe e deu seu próprio
nome à marca, como fez Honda, Yamaha, Suzuki, Kawasaki ou
Harley-Davidson, todas com nome de seus fundadores. Aliás,
coincidentemente, Kasinski é bem parecido com Kawasaki. No
processo de “nacionalização” a Kasinski
procurou adequar as motos às características de nosso
país, como gasolina, piso, fornecedores etc. E ainda realizou
pesquisas para lançamento de novos produtos. Foi assim que
baixou por aqui a Comet 250, com estilo naked que recebe o mesmo
nome nos outros países.
A Comet foi vista pela primeira vez no Salão das Duas Rodas
em 2003. Motor V2, suspensão dianteira invertida, porte vistoso
e estilo esportivo logo cativaram os brasileiros que ficaram na
fissura de conhecer a motoca. Só agora, em 2005 as primeiras
Comet chegaram ao mercado. Depois de alguma insistência conseguimos
avaliar esta Kasinski, que esperamos seja a primeira de muitas outras.
Chamar este estilo de naked não é muito explicativo,
afinal toda moto sem carenagem é pelada. Se puxarmos pela
memória vamos chegar aos anos 60, na Inglaterra, época
em que surgiu uma mania entre os motociclistas de lá: tirar
racha nas ruas, com motos de guidão baixo, escape barulhento
e motor preparadaço. A regra era ver quem chegava primeiro
a um café, como são conhecidos os botecos na ilha
britânica. Pois foi assim que surgiu a categoria de moto meio
esquecida, chamada café-racing. A Triumph Speed Triple é
uma autêntica café-racing com espírito de motos
dos anos 60.
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Se analisarmos o banco em dois níveis da Comet 250, o guidão
quase plano, os instrumentos do painel e aquela suspensão
dianteira invertida, não há como negar que se trata
de uma moto da linhagem café-racing. Sou obrigado a admitir
que demorei muito tempo para gostar deste estilo. Quando a vi no
Salão de 2003 achei feia. Depois de ver a versão amarela
comecei a mudar de idéia e hoje já aceito o visual,
principalmente depois de rodar por São Paulo e me sentir
observado em cada esquina.
Tá bom, o estilo é agradável, mas o acabamento
precisa melhorar, sobretudo em itens como punhos elétricos
e a maneira meio aleatória que os cabos viajam pela moto.
São detalhes que deverão ser estudados porque em termos
de exigência o mercado brasileiro é bem mais rigoroso
do que o coreano. Outro exemplo são os adesivos por cima
da pintura, sem a camada de verniz. De certo as motos saem da Coréia
sem adesivos porque outras fábricas compram Hyosung e renomeaim
conforme o nome de batismo em cada país. O exemplo mais visível
da pouca preocupação que os coreanos dão ao
acabamento é a marca da injeção de plástico
no pára-lama dianteiro (um círculo em baixo relevo).
Normalmente, nas fábricas japonesas, italianas, americanas
ou alemãs, a injeção é feita por baixo
da peça e as marcas ficam invisíveis.
Certamente é uma moto que impressiona à primeira
vista. O motor V2 fica emoldurado pelas traves de secção
retangular do quadro perimetral de berço duplo. As rodas
de liga leve de três raios e 17 polegadas são pintadas
de prata metálico, o que combina muito bem com a Comet preta.
Na amarela eu ousaria pintar o miolo das rodas de preto com um filete
amarelo no aro. Já na vermelha, valeria a pena experimentar
rodas douradas, ou grafite metálico.
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Algo que incomoda no estilo da Comet é justamente a suspensão
dianteira invertida. Como as bengalas são muito longas e
a roda dianteira é de 17 polegadas, fica um espaço
enorme entre a mesa inferior e o pára-lama dianteiro, dando
a sensação de que foi feita uma adaptação
com uma roda menor do que a original.
O painel é completíssimo, com velocímetro,
conta-giros, hodômetros total e parcial, marcador de gasolina
e luzes de advertência. Uma sugestão para modernizar
este painel é transferir o marcador de gasolina para dentro
do conta-giros a exemplo do que muitas motos já fazem. Um
pênalti fragoroso são os espelhos retrovisores de vidro
plano. Alguém precisa avisar ao Sr. Kasinski que motos devem
ter, obrigatoriamente, espelhos de vidro convexo, aumentando muito
a área de retrovisão. Do jeito que estão o
motociclista não consegue ver muito além do próprio
ombro. Durante o teste um dos espelhos desregulava sozinho com o
vento.
A posição de pilotagem requer algum tempo para se
acostumar. Como o tanque é grande e alto (capacidade para
17 litros), o piloto acaba ficando com os braços muito esticados.
Precisei de alguns kms para que meu 1,70m se adaptasse à
nova condição. As pedaleiras são recuadas e
altas: eu gostei muito desta característica principalmente
porque deitei pra valer nas curvas e só tocou o cavalete
lateral uma vez no asfalto. Para encostar uma pedaleira no asfalto
é preciso inclinar mais, só que eu não estava
de macacão.
A princípio poderia parecer que o corpo muito afastado do
guidão prejudicaria a pilotagem, mas depois de alguns congestionamentos
paulistanos percebi que os únicos impedimentos para ter a
mesma manobrabilidade das pequenas 125 é a limitação
de esterço do guidão, imposta pelo radiador de óleo
e a largura exagerada do guidão. Mesmo assim aterrorizei
a vida de muitos motoboys nos corredores de Sampa City. O elevado
peso para a categoria (170 kg) deixa de ser um problema quando se
começa a pilotar porque o motor V2 favorece uma boa distribuição
e colaborada para o baixo baricentro. Uma das providências
dos engenheiros brasileiros será fazer um regime nesta 250
porque ela está mais pesada do que as 1000 esportivas japonesas.
Na pista, outra surpresa. A ficha técnica anuncia 28 CV
a 8.500 rpm, mas consegui a velocidade máxima de 175 km/h
(de velocímetro) a 10.500 rpm. Se calcularmos um erro médio
de velocímetro de 10% imagino a velocidade máxima
real na casa de 150 km/h, o que está dentro dos parâmetros
de uma moto com 28 CV, dois cilindros e arrefecido a ar+óleo.
Se o momento de potência máxima se dá a 8.500
rpm e a velocidade máxima é atingida a 10.500 rpm
tem alguma coisa estranha nesta equação. Sim, a relação
final de transmissão é “longa” demais.
Para privilegiar a velocidade máxima, foi preciso sacrificar
em algum lugar e quem pagou este sacrifício foi a capacidade
de retomada de velocidade. Técnica e tradicionalmente os
motores em V se caracterizam pela ótima retomada de velocidade
e uma velocidade máxima menor. No caso desta Comet, a retomada
é fraca e exige constantes reduções de marcha,
lembrando os motores dois tempos.
O motor V2 tem 4 válvulas por cilindro, duplo comando e
vale destacar que os cilindros são desalinhados. Os primeiros
motores em V eram totalmente alinhados, mas percebeu-se que o cilindro
de trás ficava no vácuo do outro e prejudicava o arrefecimento,
mesmo se tratando de motores arrefecidos a líquido. Um simples
deslocamento foi suficiente para que o ar chegasse ao cilindro de
trás, facilitando o controle da temperatura.
Escolhi um traçado bem cheio de curvas para avaliar esta
capacidade de retomada e, de quebra, o comportamento das suspensões.
Sem recorrer às reduções de marcha o motor
não consegue ganhar giro. Outra solução é
entrar na curva já com uma marcha reduzida e agüentar
o motor esgoelando. Neste momento fica evidente um problema congênito
da Comet: o conjunto câmbio e embreagem.
Antes de receber a Comet oficialmente das mãos da Kasinski,
já tinha dado umas voltas em uma emprestada. Percebi certa
dificuldade para encontrar o ponto-morto. Depois que o motor aquece
esta dificuldade aumenta ainda mais, a ponto de em alguns casos
ter de desligar o motor para conseguir achar o neutro. Com a moto
“oficial”, a mesma dificuldade ressurgiu, com o mesmo
sintoma: enquanto o motor está frio as marchas entram sem
problemas, mas depois que aquece a embreagem “desce”
e nunca mais consegui engatar o ponto-morto. Quando forçava
demais, o eixo do câmbio chegava a sofrer uma pequena torção.
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E as curvas? Eu não via a hora de chegar na serra e curtir
os pneus Pirelli 110/70-17 na frente e 150/60-17 na traseira. Se
você é um leitor atento, deve ter percebido que o pneu
traseiro é mais largo do que o da Twister (130/70-17). Muita
gente vai me escrever perguntando “Tio Tite, posso usar o
pneu da Comet na Twister” e já vou adiantando que “Nãããõ!”.
Pneu mais largo nunca foi sinal de mais estabilidade, pelo menos
em motos.
Nas curvas de alta, tipo 120 a 130 km/h, de raio longo, a Comet
apresenta boa estabilidade, mas notei uma pequena torção
quando havia depressão nas curvas. Nada comprometedor, mas
já serviu de alerta para as curvas mais rápidas que
viriam a seguir. Realmente, acima de 140 km/h já foi possível
perceber que só mesmo em asfalto muito liso a moto mantém-se
firme. Mas o susto veio nas curvas rápidas de raio curto.
Uma forte tendência a sair de frente e que se agrava quando
tem alguma irregularidade na pista. A primeira suspeita recaiu sobre
a calibragem da suspensão dianteira invertida, que achei
um pouco “dura”.
A respeito da suspensão invertida, sou obrigado a estragar
o prazer de muita gente ao revelar que no caso de motos pequenas
este item é pura ferramenta de marketing. A suspensão
invertida surgiu nas motos fora-de-estrada como forma de reduzir
a torção das bengalas, sobretudo nas recepções
dos saltos cada vez mais altos. As motos esportivas aderiram ao
estilo porque também ajudava a aumentar a rigidez torsional
das bengalas durante as exigentes frenagens. Tudo bem que o freio
dianteiro da Comet é um discão de 300 mm, com grande
capacidade de frenagem, mas não chega a representar um esforço
demasiado às bengalas convencionais.
Já o monoamortecedor traseiro tem regulagem na tensão
da mola e originalmente ele pareceu muito “mole”, o
que pode ser a responsável pelos sacolejos nas curvas de
alta. Como a moto sai de fábrica programada para transportar
suas pessoas, a suspensão vem originalmente pré-regulada
numa posição mais “mole”. Falando em garupa,
você já sabe minha opinião sobre garupas em
motos esportivas: nem a pau! Se a Kasinski criar uma capa para transformá-la
em monoposto, a “minha” Comet certamente teria lugar
para apenas uma pessoa.
No trecho de reta, na volta do teste, percebi a aproximação
de uma Twister. Esperei o motociclista me passar e fui atrás,
passei e fiquei controlando meu “adversário”
pelo espelho. Assim que chegamos ao trânsito ele emparelhou
e quis saber tudo sobre aquela misteriosa moto vermelha com placa
azul. A primeira pergunta é sempre a mesma: qual a cilindrada?
Propositalmente a Kasinski não divulga em nenhuma parte da
moto a cilindrada. Aliás, a Hyosung já fazia a mesma
coisa com seus modelos.
Durante todo o teste o consumo médio foi de 23,6 km/litro.
Só por curiosidade, no mesmo trajeto a Twister fez consumo
de 22,0 km/litro. Com o tanque de 17 litros, a Comet proporciona
uma autonomia de 400 km! Dá para sair de São Paulo
e chegar ao Rio de Janeiro sem precisar reabastecer. Tive a oportunidade
de rodar à noite e depois de refazer a regulagem do farol
fiquei bem satisfeito com a capacidade de iluminação.
Sei que a tentação de comparar a Comet com a Honda
CBX 250 Twister é muito grande. No entanto, devemos ter cuidado
porque a única semelhança entre elas é a capacidade
volumétrica dos motores. Todo o resto é diferente.
Principalmente os preços. Enquanto a Twister custava R$ 9.200,
a Kasinski era vendida a R$ 14.300. Uma respeitável diferença
de 55%, que não pode ser atribuída apenas aos itens
exclusivos da Comet, como freio traseiro a disco. Também
não aceito o argumento de que a Comet é “menos
visada por ladrões” porque essa é uma preocupação
estritamente paulistana. Garanto que em Caicó, RN, este argumento
cai por terra.
A Kasinski poderia seriamente pensar em soluções
para se aproximar mais da Twister, simplificando a Comet, por exemplo,
adotando bengalas convencionais, ou trazer logo a 650 para brigar
com a Honda Hornet. Do jeito que está, em termos de preço
ela fica muito mais próxima da Falcon 400 (R$ 13.200). Como
o brasileiro está mal acostumado a considerar cilindrada
como potência, é difícil convencer alguém
a pagar mais caro para ter uma 250 em vez de uma 400.
Matéria publicada em 10/10/2005
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