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Como
era tradição da Yamaha na época, a fábrica
escolheu a RD 350LC um modelo dois tempos que fazia muito sucesso
na Europa, Japão e EUA, enquanto a Honda confirmava
sua eterna aposta no motor quatro tempos e decidiu nacionalizar
a CBX 750F, também de sucesso inegável no exterior. Só que
a nacionalização da RD 350 foi caótica e a
Yamaha pagou caro por entregar uma moto totalmente desequilibrada.
O texto só não foi mais crítico porque as
revistas nunca desciam a lenha nas motos pois dependia (e depende
até hoje) da publicidade das fábricas. Mesmo assim
leia o box no final da matéria para ter idéia de
como a política da Yamaha já era estranha 20 anos
atrás. Certamente aquela RD 350 estava muito longe de ser
uma moto segura e confiável. A salvação do
modelo viria com a criação da Copa RD que deu uma
aura de esportividade e conseguiu sobreviver até 1992 quando
finalmente saiu de linha.
Esta viagem-teste foi uma daquelas que tem mais histórias
de bastidores do que do teste mesmo. Para começar pegamos
um recorde de mais de 24 horas de chuva sem parar, numa época
em que as roupas de chuva desmanchavam com o vento e nós
só rodávamos acima de 160 km/h. Nossos capacetes
Peels Mach 5 tinham viseiras horríveis que ficaram riscadas
nos primeiros quilômetros de estrada. Eu ainda tinha o recurso
de abrir a viseira e ser protegido pelos óculos de grau,
mas o Gabriel Marazzi fez um vôo cego de 2.500 km. No trecho
do Paraná a terra vermelha espalhada no asfalto, misturada
com água tornou nossa viagem um inferno.
A parte engraçada foi nosso “contrabando”.
Queríamos comprar um toca CD portátil, novidade total
na época. Só que o camelô só tinha um.
Compramos e o Gabriel foi encarregado de ser a “mula” e
passar pela aduana. O guarda veio direto na gente só que
revistou só a mim, enquanto o Marazzi passava assobiando,
mais à vontade do que bode em canoa. No hotel, em Foz do
Iguaçu, eu decidi ficar com o aparelho e ainda fomos revistados
de novo na estrada, mas o fiscal desistiu de abrir a mala cheia
depois de sentir a marofa de roupas sujas e molhadas. No ano passado
(2005), recebi a visita do Gabriel na minha casa e “devolvi” o
aparelho para ele com um pequeno atraso de 20 anos! Mas com um
detalhe: já não funcionava mais!
Curta a matéria escrita a quatro mãos, com edição
de Roberto Araújo e medições do Marazzi, e
fotos do grande Mário Bock. Algumas infelizmente não
ficaram boas depois do escaneamento. Para compensar acrescentei
algumas inéditas. Boa leitura!
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Saída
na avenida Paulista |
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Gabriel
em Vila Velha, ES |
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Divisa de
Brasil e Paraguay |
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Tite
fazendo careta em Foz do Iguaçu |
Chove há mais de quatro horas sem parar um minuto. A Rodovia
Castelo Branco, SP,270, está em péssimas condições
na região de Avaré, (SP). Lá na frente o
Gabriel Marazzi anda forte com a Honda CBX 750F nacional. Atrás
dele, coberto pela água espirrada de sua moto, venho tentando
enxergar alguma coisa, pilotando uma Yamaha RD 350LC cheia de problemas.
Um caminhão segue lento pela faixa da esquerda e o Gabriel
passa pela direita. Eu insisto em pedir passagem piscando o farol.
O caminhão vai para a direita e acelero vitorioso. Quando
fiquei emparelhado, dei de cara com a réplica do solo lunar:
uma sucessão de "crateras".
Este foi um dos (muitos) sustos que passamos durante os 2.500
Km da Aventura-Teste realizada de São Paulo, SP ao Paraguai,
com uma Honda CBX 750F e uma Yamaha RD 350LC, agora finalmente
nacionais, onde contamos com a companhia quase constante das famosas
chuvas da região Sul.
Nosso plano era eu levar a CBX e o Gabriel a RD até o Paraguai,
e na volta nós trocaríamos. Eu já tinha feito
uma viagem longa com a CBX importada e o Gabriel fez uma Aventura-Teste (DR n° 120)
com a RD importada e nossas trocas de informações
foram valiosas para enriquecer o comparativo. Na verdade, acabamos
comparando mais as versões importadas com as nacionais,
do que propriamente a RD com a CBX, já que não faria
muito sentido comparar duas motos com características tão
diferentes, se não fosse o fato de serem as motos nacionais
mais rápidas. Uma de 750cc, com motor quatro tempos e outra
350cc com motor dois tempos, torna-as de categorias diferentes,
mas como agora, e só agora, as duas foram nacionalizadas,
o comparativo revela-se válido.
Uma moto vibrante
Depois de sair de Curitiba, pedi ao Gabriel para trocarmos as
motos por uns 100 Km e fiquei impressionado. Um problema na parte
dianteira da RD fazia todo o conjunto vibrar que nem uma britadeira.
Os espelhos retrovisores ("carinhosamente" apelidados
de "orelhas do Mickey") tremiam tanto que não
era possível saber se o que vinha atrás era um Mercedão
preto 1113 a 20 metros, ou um besouro a 10 centímetros.
Paramos para analisar as causas e acabamos por tirar os pesos do
balanceamento da roda dianteira. Resultado, a moto melhorou. Em
seguida. passamos por Vila Velha, PR, com suas estranhas formações
rochosas.
Pilotar à noite não assusta. Pilotar com chuva não é problema.
Mas pilotar à noite, com
chuva e neblina é desaforar o próprio anjo-da-guarda.
Como estavam fazendo a conservação da estrada, não
existia qualquer faixa de sinalização informando
aonde começava e terminava a estrada. Era tudo uma escuridão,
que só clareava quando caía um raio. Felizmente,
estas duas motos têm faróis compatíveis com
seus desempenhos, chegando inclusive a incomodar os veículos
que vêm no sentido contrário.
Cansados de fazer curvas "quadradas" e de pilotar pelo
método Braille, resolvemos parar em Garapuava, PR, cerca
de 400 Km antes de Foz do Iguaçu. Assim que paramos no hotel
a chuva também parou e uma lua um tanto discreta apareceu
por trás das nuvens. Brinquei com o Gabriel: “pode
deixar, amanhã de manhã estará chovendo novamente”.
O dia seguinte amanheceu... chovendo.Chegamos a Foz de Iguaçu
no domingo, com vontade de fazer as famosas compras no Paraguay
(é com "y" porque já estamos na fronteira).
Fomos informados de que no domingo as lojas ficam abertas só até às
11:00 horas. Impossibilitados de comprar uma série de coisas
que vínhamos sonhando a viagem inteira, fomos conhecer o
belíssimo Parque Nacional do Iguaçu, onde ficam as
cataratas.
Já no Paraguay, uma surpresa: plena segunda-feira e as
lojas estavam fechadas. Era feriado religioso. Nós não
poderíamos ficar mais um dia e a solução foi
comprar as coisas que os milhares de camelôs oferecem pelas
ruas. Tem desde fitas cassetes falsificadas, até legítimos
uísques espumantes made in P.J. Caballero. Voltamos para
o Brasil com um monte de quinquilharias compradas no Paraguay.
Na volta foi a minha vez de pilotar a RD 350LC. Olhei saudoso
o Gabriel montar na CBX, que nós comparamos a um Galaxie
Landau, e peguei a RD vibrante, que nós comparamos ao Escort
XR-3. Só para variar, escolhemos outro roteiro, passando
por Londrina, PR.
Agora eu entendia porque o Gabriel ficava um pouco para trás,
quando pilotava a RO. Ela simplesmente não passava de 180
Km/h (de velocímetro). Numa descida forte acelerei tudo
e o ponteiro enconstou nos 200 Km/h, mas a frente começou
a balançar para me lembrar que estava pilotando uma moto
problemática. Por questões de segurança, dormimos
em Londrina, para desespero do pessoal do hotel, que viu entrar
dois seres completamente vermelhos e encharcados.
Estes últimos 550 Km foram os mais demorados. Parecia que
cada quilômetro tinha 2.000 metros. A tensão de pilotar
a mais de 120 Km/h na chuva e a posição muito inclinada
de pilotagem na RD, me provocaram fortes dores nas costas e nos
braços. O Gabriel ia lá na frente, seguro, com a
CBX e para não perder a luz de referência da sua lanterna
traseira, fiz o possível para acompanhá-lo. De repente
me via fazendo curvas na chuva a 140 Km/h. Aí o "juizômetro" chegou
na faixa vermelha e me contive.
Finalmente chegamos à Rodovia Castelo Branco que nos seus últimos
quilômetros (ela começa em São Paulo) era tão
ruim que até os camioneiros reclamavam. Depois de muitos
sustos e alguns buracos a 150 Km/h, chegamos ao trecho realmente
asfaltado da estrada, na altura de Sorocaba. SP. O asfalto era
liso e cada pista tinha três faixas além do acostamento.
Então foi a vez de confirmar se a Yamaha RD 350LC passava
dos 200 Km/h. O Gabriel fez um sinal dizendo que iria me "puxar" no
vácuo. A moto, nestas condições, passou dos
200 e ainda tinha acelerador para abrir. Mas uma lombada a 200
Km/h foi suficiente para fazer o "juizômetro" passar
da faixa vermelha, começar a apitar, avisando que mais uma
dessas e o anjo-da-guarda iria pedir demissão.
Pela cor do céu, cinza chumbo, percebi que havíamos
chegado a São Paulo. Paramos na Cidade Universitária
para fazer nossa foto da chegada. Os dois cansados, moídos,
sujos com a bunda dolorida, mas a cara feliz. Na despedida eu gritei
pro Gabriel:
- Na próxima vez vamos para o sertão do Piauí!
Geraldo Tite Simões
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Logo
após a chegada, o cansaço
do Tite na porta de casa |
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