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Proibir virou política de trânsito em São Paulo

Reproduzimos a seguir o texto escrito pelo jornalista Thiago Moreno (com a devida autorização) sobre a proibição de circulação de motos a partir do dia 1º de maio na pista expressa da Marginal Pinheiros, em São Paulo, sob a alegação de que “é necessário reduzir as mortes no trânsito”. É claro que há muito mais a ser falado sobre isso, mas Motonline deseja acrescentar apenas um dado simples: proibir a circulação serve apenas para transferir de local ou horário os acidentes e as mortes, algo como jogar para baixo do tapete a sujeira. Se desejar fazer algum comentário, use os espaços abaixo da publicação.

Por Thiago Moreno – 

proibidomotoComo vocês sabem, no próximo dia 1º de maio, além do Dia do Trabalho, a Prefeitura de São Paulo irá celebrar o fim das mortes de motociclistas nas pistas expressas da Marginal Pinheiros. Basicamente a prefeitura irá proibir você, que anda de moto, de circular de moto nas pistas expressas da Marginal Pinheiros. A partir de 1 de maio no sentido Castelo Branco. Em 2020, no sentido Interlagos.

Engraçada a escolha da data, pois irá afetar a vida de milhares de trabalhadores, não só os motofretistas, que fazem uso da via para locomoção. Entre eles, “euzinho”. A conversa é a mesma de sempre. Motoqueiro morre no trânsito da marginal. Só tem maloqueiro, “mal dou seta no meu SUV grande e prata e já começam a buzinar”.

A prefeitura diz que nenhuma morte no trânsito é aceitável. Louvável, mas essa decisão veio de forma unilateral, sem dados que comprovem a eficácia da medida para tal fim. Motos já são proibidas há anos nas expressas da Marginal Tietê, mas houve a desculpa de que as recém-inauguradas pistas centrais manteriam número igual de faixas de circulação para as motocicletas. Não fizemos nada.

Trânsito de motos nas pistas marginais em São Paulo é cada vez mais restrito; não demora e proíbem motos de circular: acidentes (e mortes) nas marginais aparecem muito e fora dali não

Trânsito de motos nas pistas marginais em São Paulo é cada vez mais restrito; não demora e proíbem motos de circular: acidentes (e mortes) nas marginais aparecem muito e fora dali não

Aí proibiram as motos nas pistas centrais. Das 22:00 às 5:00. A desculpa, mais esfarrapada impossível na minha opinião, era evitar o confronto entre caminhões e motos nesse horário. Não fizemos nada e agora, vão proibir as motos na Marginal Pinheiros. E continuamos sem fazer nada. Se andamos de moto, somos muito bunda mole. Se não andamos, não ligamos para nada disso e se bobear ainda apoiamos a medida.

Em ambos os casos, pensemos um pouco. A medida visa salvar vidas de motociclistas. Então essa atitude foi um pedido dos motociclistas, certo? ERRADO. Ninguém pediu, a prefeitura não colocou propostas alternativas na mesa. Foi lá e fez sem consultar a parte mais interessada.

O mais engraçado é que, no papel, a prefeitura atingirá seus objetivos. Forçando as motos às pistas locais, limitam-nas a 60 km/h, 70 km/h no máximo. Nessa velocidade, as mortes claramente são menos numerosas. Argumento posto pela última gestão ao diminuir as velocidades para estes patamares.

Só que, claramente, quem pensou nisso não anda de moto. Não sabe o inferno que é andar pela pista local, geralmente mais congestionada, mais propensa a motoristas mudando de faixa e, infelizmente, confronto entre veículos e pedestres. Nós não andamos na pista expressa da Marginal Pinheiros porque é a mais rápida. O fazemos porque é a pista em que há mais espaço para a circulação das motos e menos carros mudando de faixa.

Pense como o avião é o modo de transporte mais seguro, mas quando cai, morrem todos. Moto na marginal expressa é o mesmo. No entanto, prefiro correr esse risco do que passar raiva e aperto na pista local. Claro, com a medida o número de mortes irá cair, assim como o de acidentes mais graves. Mas aumentará a incidência dos pequenos acidentes, quedas, abarroamentos e incidentes que nem entram nas estatísticas. E é isso que a prefeitura quer: aparecer bonita na foto, pois, no papel, vai estar tudo bem.

Afinal, quem elegeu o prefeito e a atual câmara de vereadores foi o cara do grande SUV prata de shopping que fica chateado de ter que esperar para mudar de faixa. “Como podem, esses malditos motoqueiros passarem livremente enquanto você, no alto da moralidade de sua posição elevada de dirigir, tem que ficar parado e assistir a meia dúzia de motos que caem e travam a marginal?”

Nesse raciocínio, a prefeitura só sai ganhando. Ganha respeito por diminuir as mortes (na teoria); ganha crédito com a parcela da população que importa, a mais abastada que anda de carro e votou na atual gestão. Perde quem usa a moto, para trabalho ou para ir trabalhar. Perde quem optou por gastar menos e ser mais ágil que o transporte público. Perde quem não tem dinheiro (ou não quer gastar 4 vezes mais) para sustentar um carro. Perde quem não tem dinheiro para ser incluído nas políticas da prefeitura. Perde quem não importa.

Como a minha esposa disse, os motociclistas foram vítimas de mais uma política excludente para as classes mais baixas. Parabéns a todos os envolvidos, principalmente vossa excelência, o prefeito Bruno Covas.

Thiago Moreno é jornalista e também mais um indignado motociclista paulistano.

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