A CB 650F teve uma trajetória curta no Brasil. Deveria substituir, mas não alcançou o sucesso da Hornet. Destacamos pontos fortes, fracos e o seu legado.

A CB 650F chegou ao Brasil como linha 2015 com a missão de abrir uma nova fase para as motos de quatro cilindros da Honda. Apesar de uma certa expectativa, a naked não conseguiu repetir o fenômeno de vendas da CB 600F Hornet, que dominou o segmento por uma década. Em apenas quatro anos de mercado nacional, deixou a linha em 2019 e abriu espaço para uma nova proposta dentro da família 650.

A última versão da CB 650F em 2019 - Divulgação
A última versão da CB 650F em 2019 – Divulgação

Embora a Honda nunca tenha assumido oficialmente que a CB 650F substituía a Hornet 600F, a comparação foi inevitável. E, nesse embate, a naked substituta saiu em desvantagem: não conseguiu empolgar os fãs da esportividade, perdeu espaço para concorrentes diretas e vendeu menos até do que a CB 1000R, uma moto mais cara e de nicho.

O insucesso da CB 650F não pode ser explicado por um único fator. Mas, ao revisitar o modelo, é possível entender por que ele não caiu no gosto dos brasileiros.

A CB 650F em 2015 - Versão de cores LCR Team (referência à equipe Honda da MotoGP) - Divulgação
A CB 650F em 2015 – Versão de cores LCR Team (referência à equipe Honda da MotoGP) – Divulgação

A proposta da CB 650F: mais racional que esportiva

A Hornet havia conquistado seu espaço com uma pegada esportiva evidente. Seu quadro em alumínio, suspensão dianteira com garfo invertido e motor de 599,3 cm³ derivado da CBR 600RR entregavam 102 cv a 12.000 rpm e uma condução envolvente.

Já a CB 650F buscou outro caminho. O motor de 649 cm³ rendia 87 cv a 11.000 rpm, priorizando torque em médios e baixos giros: 6,4 kgfm a 8.000 rpm. Na prática, era uma moto mais dócil no uso urbano e com consumo entre 15,6 e 17,4 km/l, mas sem o mesmo brilho e empolgação em altas rotações.

Essa escolha técnica fez sentido para quem buscava versatilidade, mas deixou órfãos a “legião de fãs brasileiros” que esperavam uma sucessora direta da Hornet em emoção e esportividade.

Para tentar conquistar os que buscavam um estilo esportivo, a Honda chegou a lançar versões com base em sua equipe da MotoGP, a LCR Team. Isso aconteceu já na estreia em 2015 e se prolongou até a versão 2017. Mas nem isso foi suficiente para atrair o público brasileiro.

A CB 650F em 2015 - Divulgação
A CB 650F em 2015 – Divulgação

Tecnologia discreta, mas funcional

Outro ponto debatido foi a ausência de recursos eletrônicos modernos. A CB 650F não trazia modos de pilotagem, acelerador eletrônico ou controle de tração. Em contrapartida, entregava respostas imediatas ao acelerador a partir dos 4.000 giros e um câmbio preciso, com escalonamento mais longo nas marchas superiores.

Era possível rodar tranquilamente até mesmo dentro da cidade, algo prático para o dia a dia. Ainda assim, faltava aquele “algo a mais” que diferencia uma moto comum de um ícone do segmento.

CB 650F em 2018 - Divulgação
CB 650F em 2018 – Divulgação

Pilotagem e desempenho: estabilidade

Em estrada, a CB 650F mostrava estabilidade em alta velocidade, superando os 200 km/h com segurança. No entanto, não tinha a leveza e agilidade de concorrentes diretas, como a Yamaha MT-07 (sua concorrente a partir de 2016), nem transmitia a confiança que a Hornet 600 oferecia em sua época.

O ronco do escapamento curto era agradável, mas a entrega de potência acima dos 8.000 rpm se mostrava mais lenta do que os fãs esperavam. Para muitos, faltava emoção na condução.

Painel da CB 650F: interessante, mas não muito prático - Divulgação
Painel da CB 650F: interessante, mas não muito prático – Divulgação

Design: sem ousadia

Visualmente, a CB 650F estava longe de ser uma moto feia, mas também não se destacava. Suas linhas eram consideradas sóbrias demais, principalmente quando comparadas ao design agressivo da Hornet. Para alguns, foi justamente essa falta de ousadia que comprometeu a identidade do modelo.

O painel digital tinha boa visibilidade, mas limitava a navegação entre funções: era preciso soltar uma mão do guidão para alternar informações. A ausência de indicador de marcha também foi apontada como falha em uma naked que buscava ser referência.

A partir de 2018 a CB 650F ganhou farol em LED - Divulgação
A partir de 2018 a CB 650F ganhou farol em LED – Divulgação

Do “esquecimento” à evolução: legado da CB 650F

A trajetória da CB 650F encerrou-se em 2019, quando a Honda apresentou sua sucessora no Salão Duas Rodas daquele ano, com novo posicionamento: a CB 650R, inspirada no conceito Neo Sports Café. Com linhas retrô e mais personalidade, a naked conquistou rapidamente espaço no mercado brasileiro e internacional.

Honda CB 650R: aposta para ampliar presença da marcHonda CB 650R: apresentada no Salão Duas Rodas de 2019 - Divulgaçãoa entre as motos premium
Honda CB 650R: apresentada no Salão Duas Rodas de 2019 – Divulgação

A linha também ganhou a esportiva CBR 650R, com a mesma base mecânica, mas proposta diferente. 

Na mais recente atualização, a Honda apresentou a CB 650R E-Clutch 2026, trazendo um novo patamar para sua linha de motos naked. De acordo com a fabricante, o modelo já está disponível na rede de concessionárias. Por enquanto, a Honda Brasil não confirmou a presença do recurso E-Clutch na CBR 650R, restrito até agora à versão naked.

O sistema E-Clutch possibilita realizar trocas de marcha sem o uso do manete de embreagem, sendo apontado pela marca como uma das principais inovações a ser expandida para outros modelos no futuro.

A última versão da CB 650F em 2019 - Divulgação
A última versão da CB 650F em 2019 – Divulgação

Hoje, ao revisitar sua história, a CB 650F permanece como exemplo de como até grandes fabricantes podem errar o tom em relação ao gosto do mercado. Uma moto competente, mas que acabou marcada como “a sucessora que não vingou”.

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Jornalista, web designer, desenvolvedor web e editor ao mesmo. Já fui radialista, publicitário e até metalúrgico metaleiro. Acabei entrando e abraçando o mundo 2 rodas por influencia do meu irmão mais velho.
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