193, O NÚMERO DA VIDA

193, O NÚMERO DA VIDA

MOB, A MOBILIDADE DOS BOMBEIROS

A motocicleta é o transporte do futuro. Sua emissão de poluentes é baixa, e o consumo de combustível é reduzido, tornando-a uma interessante opção. Outro ponto em que este veículo de duas rodas se destaca, é a extrema versatilidade, justificando o gradativo aumento de pessoas que optam por utilizá-la como meio de transporte, principalmente nas grandes metrópoles.

Apesar de todas essas qualidades, os motociclistas muitas vezes sofrem pré-conceito, por parte da população desinformada, que ainda acredita que as motocicletas são veículos perigosos, generalizando as pessoas que as utilizam como imprudentes e causadoras de acidentes.

Talvez uma das melhores formas de mostrar o quanto este veículo, quando bem utilizado, pode ser uma ferramenta que beneficia amplamente não só um indivíduo isoladamente, mas sim uma sociedade inteira, é o brilhante serviço prestado à população, por parte da Divisão MOB, do Corpo de Bombeiros, cuja ferramenta principal é a motocicleta. Esta sigla significa: Moto Operacional de Bombeiros, e surgiu em torno de 1999. Seu nascimento se deu no posto do Belém, bairro localizado zona leste de São Paulo, primeiramente como um projeto piloto com objetivo inicial de chegar de motocicleta ao local do acidente, e dar um primeiro atendimento antes mesmo da chegada do furgão do resgate.

Quando a imensa cidade de São Paulo começou a ter problemas com o trânsito caótico, o Comando do Corpo de bombeiros se deu conta que a motocicleta era o único meio de transpôr o trânsito e diminuir o tempo resposta, que nada mais é do que tempo necessário para cobrir a distância da base até o local do acidente. Em uma parada cardiorespiratória é necessário chegar em menos de 3 minutos. Em acidentes mais graves como hemorragia, é preciso diminuir esse tempo de resposta pra chegar e já agir rapidamente.

Devido a grande agilidade e mobilidade, ficou evidente que em qualquer ocorrência que necessitasse dos bombeiros, as motos poderiam realizar um pré-atendimento, e dar as informações a central. Após um tempo de experiência, se notou que a motocicleta não era usada apenas para resgate e sim para vários tipos de atendimentos, como em salvamentos, resgates e até mesmo em incêndios. Em virtude do grande êxito do MOB, as equipes foram ampliadas, e hoje somam um total de 10 em toda a cidade de São Paulo. Diante de comprovada eficiência, várias cidades e capitais do nosso país já adotaram o protocolo do resgate da cidade de São Paulo, cotado com um dos melhores do mundo, tamanho o grau de desenvolvimento e eficiência.

DUPLA DINÂMICA As equipes são formadas por duplas, que trabalham em conjunto todo tempo, isso porque apenas um socorrista teria dificuldade de dar o atendimento protocolar como uma parada cardio-respiratoria, ou mesmo uma imobilização. Outro fator é o espaço, muito reduzido nas motos, fazendo com que cada uma delas transporte um baú e uma bolsa contendo equipamentos diferentes. Dessa maneira, uma moto complementa a outra.

A primeira moto é equipada com equipamento de trauma, imobilização, hemorragia e queimadura. Essa é a bolsa mais utilizada, nela é encontrada tala, atadura, compressa de gases, soro, estetoscópio e oxigênio.

Já a outra é mais voltada ao uso clínico, como uma parada-cardiorespiratória, insuficiência respiratória , desmaio, ou ainda um ataque epilético. Para isso, ela conta com um desfibrilador, aspirador de secreção, kit parto e sondas de aspiração. Muitas vezes o material de ambas as bolsas é utilizado em uma só vítima. Nos baús são transportados os materiais de salvamento usados com menor frequência, como corda, material de altura, ferramentas, máscara, capa de incêndio. Já na pilotagem, em virtude da experiência e dos acidentes que já ocorridos, determinaram certos procedimentos como a ordem em que as motocicletas seguem em direção a ocorrência.

A moto que sai da Base na frente, deve sempre chegar antes. O bombeiro que segue atrás, em hipótese alguma pode ultrapassar o da frente. Essa regra é muito importante para evitar que as motos ultrapassem os carros ao mesmo tempo, e assustem os motoristas, que muitas vezes reagem desviando bruscamente, acertando um dos Bombeiros – por isso, uma deve sempre seguir a outra exatamente pelo mesmo caminho. Também pensando na segurança, as motos usam sirenes diferentes a fim de fazer com que os carros percebam que se trata de duas diferentes viaturas. Na chegada ao local do acidente, todas são estacionadas de maneira a sinalizar aos carros que se aproximam e também cobrir e garantir a segurança das vítimas e dos bombeiros durante o atendimento. Testando novas motos

Honda-NX-4-Falcon

Mulheres-também-fazem-parte do MOB

Atendimento a mais uma vítima

TEMPERATURA MÁXIMA Para fazer parte do MOB, antes de ser um motociclista, o candidato tem que ser um bombeiro competente. A seguir, algumas diretrizes determinam o perfil do motociclista. Como requisito básico, é necessário ter os cursos de resgate, noções de produtos perigosos, salvamento em altura e salvamento terrestre, além de ser um bom nadador, já que são os primeiros a chegar na ocorrência, podem deparar-se com qualquer situação. É necessária experiência anterior de aproximadamente quatro anos no resgate e em salvamento, pois os bombeiros são responsáveis em dar o primeiro atendimento e a tomar decisões. É dada a preferência aos bombeiros casados, com mais de trinta anos, e que já pilotem motocicleta há mais 3 anos, buscando assim, mais experiência e maturidade para controlar o entusiasmo quando estão pilotando.

As MOBs em São Paulo só trabalham durante o dia, das 7 da manhã às 8 da noite, horário em que o trânsito está mais intenso. Durante a noite não há justificativa para manter as motocicletas operando, pois não há congestionamentos na cidade, além de que, a visibilidade é muito ruim, representando grande perigo para os bombeiros que conduzem as motocicletas.

Um dos fatores que fazem com que o número de ocorrências seja maior durante o dia, é o calor intenso. O numero de atropelamentos e acidentes de trânsito com motocicletas e carros são bem maiores durantes os dias quentes.

Isso acontece porque com o calor, os motoristas ficam mais displicentes, além do consumo de bebidas alcoólicas aumentar. No caso dos motociclistas, muitos ficam mais entusiasmados, pilotam sem jaqueta, luva e usam o capacete posicionado de forma errada na cabeça, completamente solto e sem o afivelamento correto.

MOTOBOYS NO TOPO DA LISTA Na cidade de São Paulo, existe uma gama de ocorrências muito grande, e não especificamente só com motocicletas. Existem atropelamentos, casos clínicos, tentativas de suicídio, acidentes com carros, caminhões e trens. As motos são uma grande parte disso tudo, principalmente os motoboys, que são os campeões em número de ocorrências, mas segundo os próprios bombeiros, eles não são seus maiores “clientes”, já que o índice com motos, não chega ser muito diferente dos outros acidentes.

A fama que o MOB tem de atender em sua maioria casos com motociclistas, se dá pelo fato de sempre chegarem primeiro que o resgate, principalmente em vias onde, devido ao transito caótico, o acesso é difícil, como nas marginais que cortam a cidade. Pela experiência adquirida como bombeiros mas principalmente como motociclistas, os pilotos do MOB observam que a maioria dos acidentes acontece por imprudência do motociclista, que muitas vezes poderia ter evitado o acidente com uma pilotagem mais defensiva. Infelizmente grande parte motociclistas não conseguem relacionar o tempo com o valor da vida. Muitos acham que 15 ou 20 segundos farão diferença no final do dia, quando no entanto , muitas vezes esse tempo é a diferença entre a vida e a morte.

PEQUENOS CUIDADOS, GRANDES BENEFÍCIOS. Segundo os bombeiros, algumas pequenas regras podem trazer o benéfico da segurança. Caso o motociclista seja inexperiente, ele deve procurar informação com quem já se envolveu em um acidente, procurando saber como foi, e se poderia ter sido evitado. É necessário que se comece a agir preventivamente. Como exemplo eles citam o caso da marginal. O motociclista que estiver em um corredor de trânsito na marginal entre dois caminhões, em hipótese alguma deve tentar ultrapassá-los, o prudente é esperar um pouco, ou tentar um corredor alternativo, afinal uma pequena movimentação no volante de um veículo tão extenso, significa 30, 40 cm de redução do espaço, suficientes para causar um acidente fatal.

É importante ficar atento e certificar-se que os motoristas estão vendo nos espelhos retrovisores, as motos que se aproximam. Quando o trânsito está totalmente parado, o cuidado deve ser redobrado, pois caso uma das faixas comece a andar, os automóveis que estão na faixa que está parada, tendem a mudar para a outra repentinamente, muitas vezes sem sinalizar.

O motorista tem muitos pontos cegos no veículo, por isso o motociclista tem que considerar as situações, analisar o contexto todo e garantir a sua própria segurança. As condições da motocicleta não devem ser esquecidas : os pneus e freios devem estar em perfeitas condições, usar equipamentos de boa qualidade, pilotar sempre equipado, usando o capacete corretamente e sempre afivelado, pois num caso de choque frontal, ele é projetado antes mesmo de quem o usa.

FERRAMENTA DE 400 CILINDRADAS A primeira motocicleta utilizada pelo MOB foi à antiga on-off road NX 350 SAHARA. Pouco tempo depois, esse modelo saiu de linha dando lugar a NX4 Falcon. Com a licitação, buscou-se uma moto mediana, de potencia média, com suspensões de longo curso para poder carregar o equipamento e bombeiro, e poder circular em qualquer tipo de terreno. Segundo os bombeiros do MOB, a escolha foi acertada, pois dentro da disponibilidade do mercado brasileiro, a Falcon é uma moto que atende plenamente as necessidades a um custo razoável. Eles completam que não é preciso uma moto com muita potência para velocidade final, e sim uma com bom torque, o suficiente para garantir boas retomadas, e ajudar a vencer obstáculos e subidas.

Durante a escolha do modelo a ser utilizado, houve divergências de opinião. Alguns acreditavam que pelo fato das motos serem utilizadas na cidade, o ideal seria o uso de motocicletas street, sendo realizados na época, testes com a descontinuada CB500. Porém, a necessidade de subir e descer calçadas e escadas, ou ainda, andar por canteiros de terra, logo provaram que este modelo não era versátil o suficiente. Algumas adaptações foram feitas ao longo do tempo para tornar a Falcon mais apropriada ao uso dos bombeiros, já que as motos eram adaptadas para o uso em policiamento. Por terem utilizações distintas, equipamentos como sirene e luminosos são posicionados de maneira diferente nas motocicletas.

HERÓIS SOBRE RODAS É inquestionável o valor de uma vida humana. No entanto, me questiono se os profissionais que realmente arriscam a própria vida para salvar a dos outros, recebem o merecido reconhecimento da sociedade e são remunerados à altura do risco que correm. Exemplo de competência e habilidade ao guidão, Edson Dutra de Oliveira Júnior, 36, é sargento do MOB no posto da Casa Verde em São Paulo, e nos falou um pouco de como é ser bombeiro em uma motocicleta vivendo situações extremas o tempo todo.

Contando que o envolvimento é profundo e inevitável, o Sgto.Dutra completa: “Para nós, é forte o lado moral. É total o nosso comprometimento e envolvimento com a profissão. É difícil você encontrar dentro de um quartel de bombeiros, um profissional insatisfeito. Geralmente todo mundo aqui abraça a profissão, se doa. É impressionante, quando toca o alarme, você esquece tudo: família, filhos. Naquele instante o problema do cidadão passa a ser o nosso problema. Você se envolve com a situação e trata ele como se fosse um ente da sua família e como se aquele fosse o maior problema da sua vida”. Ocorrência após outra, restam, ao final do dia, apenas lembranças e o sentimento de dever cumprido.

A moral entre os homens do Corpo de Bombeiros é alta: ninguém se arrepende ou fica com trauma, pois todos têm o sentimento de que sempre fazem o que máximo possível, na maioria das vezes indo além do que podem. Sgto.Dutra nos conta orgulhoso sobre o respeito e reconhecimento por parte da população: “Temos mais de 96% de aceitação do público, um índice que nenhuma outra instituição tem” e completa: “Sentimos durante o atendimento, nos elogios na rua, que o nosso trabalho é muito valorizado pela população”.

UM JORNALISTA NO MOB No intuito de sentir na pele todas as reais sensações e emoções, me propus a acompanhar algumas ocorrências atendidas pelo MOB. Após a autorização por parte do Comando, recebi as instruções necessárias para que pudesse compreender como eram os procedimentos realizados por eles e acompanhá-los em segurança. Por inúmeras vezes, o Sgto. Dutra me alertou para que eu o seguisse exatamente pelo mesmo caminho que ele iria abrir na frente, e que em momento algum eu deveria prosseguir sem esperar pela Bombeiro Feminino Fernanda Sanches, que seguiria em nossa retaguarda. Em outras palavras, eu deveria fazer a ligação entre uma moto e outra, fato que me deixou nervoso, pois a responsabilidade era grande, já que com um erro, eu poderia comprometer o atendimento. O nervosismo inicial foi passando à medida que os minutos corriam sem nada acontecer.

Tranqüilo, fui almoçar com todos os bombeiros que estavam de prontidão no refeitório da Base. Quando começamos a comer, o alarme específico para as MOB começou a soar. Neste momento, confesso que a comida em minha garganta insistia em não descer, tamanha era a minha ansiedade.

Correndo, nos dirigimos às motos e em quanto eu colocava meu capacete, que embaçava a lente devido ao meu nervosismo, ia ouvindo os bombeiros discutindo brevemente o percurso e sobre o grave quadro clínico em que a vítima s encontrava: na ocorrência em questão, uma parada cardíaca. Me concentrei a fim de restabelecer a calma e garantir uma tocada sem erros até o local da ocorrência. Logo ao sair, vi a importância das sirenes, pois precisamos atravessar um grande cruzamento. Num ritmo muito forte, muitas vezes com os giros atingindo a faixa vermelha, fomos seguindo em direção a favela onde se encontrava a pessoa que estava à beira da morte.

Procurei me centrar nos vários obstáculos que precisavam ser transpostos com o máximo de atenção, e esqueci, ao menos por um tempo, que uma pessoa estava morrendo e que “poderíamos” salvá-la. Admito que foi a tocada mais forte de toda minha vida, e que fiquei admirado com a extrema habilidade dos pilotos do MOB. Me chamou atenção o ritmo, sempre muito próximo do limite da moto, mostrando que um erro pode trazer conseqüências muito graves.

Em alguns momentos me senti numa pista de supermotard, tamanha eram as constantes acelerações e desacelerações da motoca. Neste momento entendi porque o Sgto Dutra se saía bem nas competições que costuma a participar. Houve situações em que foram necessárias trafegar na contra-mão, aumentando o perigo e a tensão, principalmente porque algumas pessoas se assustam com as sirenes, e ao invés de abrirem espaço, acabam atrapalhando ainda mais.

Numa determinada parte do percurso, passamos policiais em motocicletas fazendo a ronda com a atenção redobrada em virtude -na época- dos ataques realizados pelo PCC. Eles acharam suspeito uma Falcon azul seguindo os bombeiros em altíssima velocidade e de muito perto. Imediatamente esboçaram uma reação, apontando suas armas em minha direção. O desfecho poderia ser no mínimo “doloroso” para mim, caso a Bombeiro Feminino Fernanda Sanches não houvesse sinalizado dizendo que não havia nada de errado… Sorte minha! Em poucos minutos, cruzamos uma grande distância, e chegamos ao local com uma precisão tão grande, que parecia que os bombeiros já sabiam onde era a ocorrência.

Lá, deixamos as motos e corremos com as bolsas que continham os equipamentos para a casa da vítima. Nela, nos deparamos com enfermeiros de uma ambulância que haviam constatado que a pessoa havia morrido. Ainda assim os bombeiros do MOB checaram se nada poderia ser feito, mas infelizmente o diagnóstico anterior estava correto.

Angustiado por um final não esperado para minha primeira experiência em acompanhar o nobre trabalho do MOB, retornamos à base. Houveram outras experiências, como atendimento a uma senhora de 85 anos que sofreu um traumatismo na cabeça devido a um queda, e até uma escolta a um carro que transportava uma mulher em trabalho de parto, porém esta a primeira foi a mais conturbada e a que mais me marcou.

Confesso que jamais esquecerei as sensações e emoções que vivi e que agora passo a você, pois não só aprendi a ser um motociclista mais consciente, como descobri que existem pessoas que nos provam todos os dias que a vida é a maior dádiva de todas. Sargento Dutra