O retorno da MotoGP ao Brasil depois de 22 anos de ausência era para ser uma festa. E foi — mas com muita emoção fora da pista também. O Autódromo Internacional Ayrton Senna, em Goiânia, recebeu 148.384 pessoas ao longo do fim de semana e entregou corridas eletrizantes. Mas os problemas de infraestrutura roubaram a cena e deixaram equipes, pilotos e organização sob pressão durante todo o evento.
O buraco que parou o campeonato
O maior susto do fim de semana aconteceu no sábado. Logo após a classificação da MotoGP — que consagrou Fabio Di Giannantonio na pole position —, um buraco profundo surgiu na reta principal do autódromo. A causa: as chuvas torrenciais dos dias anteriores provocaram movimentação do solo embaixo do asfalto, abrindo uma cratera de aproximadamente 2 metros por 1 metro, com profundidade considerável — funda o suficiente para assustar até quem não ia pilota por cima dela.
A organização emitiu nota imediata: as classificações de Moto2 e Moto3 foram suspensas. A corrida sprint da MotoGP, marcada para as 15h, ficou em risco. Máquinas pesadas foram mobilizadas, o asfalto foi cortado com serras disco e concreto foi jogado dentro da cratera por um caminhão betoneira que entrou na pista. A operação durou horas.
No fim, a sprint aconteceu — mas com 1h20 de atraso em relação ao horário original.
A crítica mais dura: “não está no nível MotoGP”
O chefe da equipe Trackhouse, Davide Brivio, não poupou palavras. Em entrevista no sábado, ele afirmou que o circuito é bonito e o traçado é excelente, mas a preparação deixou a desejar. Segundo ele, o autódromo deveria ter iniciado as obras mais cedo ou o evento deveria ter sido marcado um mês depois. Ao chegar na quarta-feira, a equipe encontrou a pista alagada com água vermelha e lama.
A crítica tem contexto: as obras de reforma do Autódromo Ayrton Senna começaram em janeiro de 2025 e consumiram R$ 60 milhões em investimentos diretos — parte de um pacote total de R$ 250 milhões para viabilizar o evento. A pista chegou a ser homologada pela FIM com a classificação A, a mais alta do órgão regulador. Mesmo assim, os problemas apareceram.
Domingo: corrida reduzida de última hora
Se o sábado foi de susto com o buraco, o domingo trouxe um novo problema. Com a temperatura da pista chegando a 55°C e o desgaste do asfalto se tornando crítico — especialmente na curva 12, no último setor —, a organização tomou uma decisão radical minutos antes da largada: a corrida foi reduzida de 31 para 23 voltas.
O comunicado foi emitido de última hora. Pedro Acosta, líder do campeonato, reagiu rápido e trocou o pneu traseiro médio pelo macio. Vários outros pilotos fizeram o mesmo. Jack Miller, da Pramac, foi um dos poucos que manteve o médio — e pagou o preço: caiu na segunda volta em sua 200ª corrida no MotoGP.
A corrida que aconteceu apesar de tudo – MotoGP Goiânia problemas pista
No meio de todo o caos, o espetáculo aconteceu. Marco Bezzecchi, da Aprilia, venceu a corrida principal e marcou sua quarta vitória consecutiva — feito histórico para a marca italiana. Jorge Martín completou um 1-2 da Aprilia. Di Giannantonio ficou em terceiro.
No sprint do sábado, Marc Marquez caçou Di Giannantonio durante toda a corrida e assumiu a liderança na reta principal na última volta, vencendo com frieza. Foi sua primeira vitória desde a cirurgia no ombro.
O brasileiro Diogo Moreira terminou em 13º na corrida principal e em 10º no sprint — resultado digno diante de um grid repleto de campeões mundiais.
E Toprak? A história continua difícil
Toprak Razgatlioglu, o grande nome da estreia no MotoGP, teve um fim de semana para esquecer em Goiânia. Na sexta-feira havia mostrado ritmo impressionante, chegando a figurar em terceiro nos treinos livres. Mas caiu no treino do sábado e terminou o sprint em posição frustrante. Na corrida de domingo, a situação não melhorou. Ele próprio definiu o resultado como “decepcionante e um passo para trás”.
O aprendizado segue em andamento. E o próximo round é em Austin, nos Estados Unidos — onde o asfalto, ao menos, promete não ter buracos.
O que o GP do Brasil deixa de lição
O contrato da MotoGP com o Brasil é de cinco anos — de 2026 a 2030. A própria organização já previa que a primeira edição seria uma espécie de teste. O teste aconteceu, os problemas apareceram e as lições estão dadas.
O público provou que o Brasil está pronto para a MotoGP. A infraestrutura ainda tem um caminho a percorrer. O próximo GP em Goiânia, em 2027, vai mostrar se as lições foram aprendidas.
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