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XRE 190 no Enduro FIM: a missão

A Honda convidou o Motonline para uma missão e o escolhido fui eu para cumpri-la: encarar uma competição de Enduro FIM a bordo de uma trail de pequena ou de média cilindrada. E haviam três motos que poderiam ser escolhidas: as Honda Bros 160, XRE 190 e XRE 300. Imagine a situação, encarar uma competição fora de estrada, com uma moto projetada para rodar principalmente no asfalto, mas que aguenta um uso misto entre asfalto/terra.

XRE 190 encarou o Enduro?

XRE 190 encarou o Enduro?

Muitas dúvidas surgiram a partir deste convite. Qual moto devo escolher e por quê? Será que elas vão aguentar o tranco? Quais qualidades das motos irão sobressair? E sobre dificuldades, quais dificuldades vamos enfrentar e quais dificuldades as motos irão nos trazer? Um detalhe: as motos estão com pneus para trilha e a relação foi encurtada para dar mais força.

Eu já participei de outras competições na modalidade Enduro FIM, inclusive as organizadas pela Adrenatrilha – organizadora desta etapa. Então eu já sabia o que iria enfrentar. Certamente muitos enroscos, morros, troncos, raízes, atoleiros e muito mais. Mas essa é a parte mais divertida de tudo isso. Fiquei realmente indeciso na hora da escolha da moto.

Trecho

A fácil pilotagem da XRE 190 ajudou muito na terra! Foto: Maurício Arruda/MotoX

Porém eu já tive oportunidade de avaliar as três motos, o que facilitou a minha escolha. Logo de cara optei pela Bros 160, por ser leve, “na mão” e não ter ABS, mas acabou que a minha demora em decidir tirou a Bros do cardápio. Portanto, escolhi a XRE 190, uma moto com ótima ciclística, além de oferecer uma posição de pilotagem que me agrada muito.

A competição foi realizada em Ribeirão Pires (SP), cidade característica pelo tempo úmido e chuvas constantes, o que apimentou ainda mais a 2ª Etapa da Copa EFX. A XRE 190 tinha algumas alterações para encarar o Enduro, é claro. Os pneus Pirelli MT 60 de uso misto foram substituídos pelos Rinaldi, a embreagem foi reforçada, para aguentar o uso constante e a coroa foi alterada, o que aumentou a força em baixa da moto.

Ótima impressão e vitória na categoria

Com a calibragem correta nos pneus para encarar esse tipo de terreno – isso é essencial – por volta de 13 a 14 libras, os pneus Rinaldi ofereceram ótimo grip e a XRE 190 tomava o caminho que eu ordenasse, fosse para qualquer lado, nas subidas ou descidas, a frente sempre grudada no chão e a moto mais parecia uma bicicleta, mérito também de sua excelente ciclística, muito acertada para qualquer uso, inclusive nas trilhas.

O sistema de frenagem a disco na dianteira e traseira, com 240 mm e 220 mm respectivamente respondeu muito bem. Entretanto o ABS de uma via (na roda dianteira) da XRE 190 atrapalhou em alguns momentos e era óbvio que isso acontecesse, pois o ABS não é tão recomendado na terra porque com as características de aderência sempre limitada, ele acaba atuando muitas vezes e, em algumas delas, acaba atrapalhando. O único momento em que senti uma reação inesperada foi em uma descida muito acidentada, mas de resto, o ABS cumpriu o seu papel.

A fácil pilotagem da XRE 190 contribuiu em muito para que eu me saísse bem na competição e garantisse o primeiro lugar na categoria Jornalistas. Em todos os momentos eu senti a moto muito “na mão”, me dei bem com ela em trechos de single-track e de alta velocidade. Não é necessário dizer que não haviam muitos competidores nessa categoria.

A baixa altura da XRE 190 complicou as coisas em diversos trechos

A baixa altura da XRE 190 complicou as coisas em diversos trechos

Uma dificuldade imposta pela moto para completar a competição certamente foi a sua altura em relação ao solo. Os 241 mm não venceram as cavas, que se aprofundavam mais a cada volta. Imagine cavas de uma altura muito superior a 241 mm e dá pra perceber que a conta não fecha. A moto travou várias vezes e em diversos casos me obrigou a levantar seus 127 kg na mão, fosse para tirar uma das rodas do enrosco ou no pior dos casos, ambas.

Piada de trilheiro

Sobre a moto ficar presa num enrosco enlameado no meio de uma trilha, os trilheiros mais antigos contavam uma piada que era mais ou menos assim. Quando a moto atola com a roda da frente, o certo é dizer “atolou-se”. Mas quando a moto atola com a roda traseira, diz-se “se atolou”. E quando fica preso com as duas rodas, “se atolou-se”. Piada ou não, o fato é que eu “me atolei-me” algumas vezes e em alguns locais só com a ajuda de outros pilotos para me fazer seguir em frente. Só para comparação, a CRF 230F tem 19 cv e 108 kg, enquanto a XRE 190 oferece 16 cv e pesa 19 quilos a mais. A altura mínima do solo prejudicou também a alavanca do câmbio, que entortou para dentro, mas nada que um “ajuste fino” não consertasse.

Várias dificuldades colocaram a prova a XRE 190

Várias dificuldades colocaram a prova a XRE 190

De uma maneira geral, o motorzinho da XRE 190 se saiu até que bem e deu conta do recado. A diferença de apenas 2,9 cv não aparenta ser tão expressiva, mas na prática quem faz trilha com frequência sente a falta de um pouco mais de cavalinhos no motor, sobretudo em subidas mais íngremes e velozes, onde a moto careceu de força. Mas subiu, sem problemas. A suspensão também deu conta do recado. Os simples garfos telescópicos de 160 mm de curso na dianteira e amortecedor único de 150 mm de curso na traseira fizeram o seu papel na buraqueira e por apenas alguns momentos percebi final de curso. É claro que se olharmos sob a perspectiva de uma competição off-road, é necessário uma suspensão mais acertada, mas o conjunto original não fez feio no teste.

A XRE 190 ao final da competição

A XRE 190 ao final da competição

Depois da prova me perguntei se algo teria sido diferente caso a minha escolha tivesse sido a XRE 300. Ela é mais alta, porém mais pesada também. A altura em relação ao solo certamente iria ajudar a transpor as cavas, mas e se a moto travasse? Como seria para tirar a XRE 300 da cava? Pois certamente uma moto mais pesada iria dar muito mais trabalho nessa situação. Eu escolhi a XRE 190 pensando nos trechos cronometrados, em que uma moto menor corresponde a um tempo mais veloz. Entretanto essa escolha me trouxe prejuízos por conta da altura da moto, mas se eu tivesse a chance de voltar ao tempo teria escolhido a XRE 300.

Durante a competição ganhei vários apelidos: herói, guerreiro e muitos outros

Durante a competição ganhei vários apelidos: herói, guerreiro e muitos outros

Boa surpresa

Me surpreendi positivamente com o desempenho da XRE 190 no enduro. De verdade, não achei que ela pudesse encarar a competição da maneira como foi. Ela é uma moto pensada para um uso misto, em que a maior parte dos consumidores a utiliza no asfalto. As motos de competição são pensadas em cada detalhe para favorecer o desempenho no off-road, algo completamente diferente da XRE 190.

Por isso a comparação é impossível da XRE 190 com uma CRF 230F, por exemplo. Porém é possível olhar a XRE 190 com uma ótica diferente, a do potencial da moto. Isso significa dizer que a XRE 190 tem um potencial off-road incrivelmente grande, encarou diversas dificuldades sem problemas, parecendo uma autêntica moto de trilha. No entanto, sua limitação fica por conta de altura em relação ao solo e pelo motor que sente falta de um pouco mais de “pimenta”. No mais, se você busca uma motinho para dois usos, a XRE 190 tá na mão!Separador_motos



Jan Terwak

Publicitário, curte motos desde que se conhece como gente, é piloto de motocross, enduro, cross-country e trilhas. Empresta sua experiência no off-road para as avaliações de motos no Motonline.