sociedade Paulista de Psicanálise

Segurança viária: de quem é a responsabilidade?

Vou começar com uma frase dita pelo jornalista e Instrutor de Pilotagem Geraldo “Tite” Simões, a qual sempre uso em minhas palestras e cursos práticos: “Nunca subestime a capacidade dos outros errarem”. Ela serve para lembrarmos que nem sempre são pelos nossos erros que os acidentes acontecem, mas também, e principalmente, por não percebermos os possíveis erros dos outros. Mas quem são esses outros? Quais são esses erros?

Para que haja uma real segurança viária, onde todos os agentes que compõem o trânsito – caminhões, ônibus, carros, motos, bicicletas e pedestres – possam conviver de forma harmoniosa e assim aconteça o que se chama mobilidade urbana, precisam convergir a educação, o treinamento, os projetos viários e a preocupação governamental para essa sociedade chamada trânsito.

Modalidades de transportes: todos fazem parte de uma sociedade chamada trânsito

Modalidades de transportes: todos fazem parte de uma sociedade chamada trânsito

Quando me refiro a “sociedade do trânsito”, quero dizer que é necessário uma aceitação, mesmo que obrigatória, das leis e regras, impostas ou não, para uma fluência segura e satisfatória de todos que fazem parte desta sociedade, sem privilegiar uma ou outra modalidade de transporte. Então, respondendo as perguntas do início…

…OS OUTROS…

…. são aqueles que mudam de faixa de direção sem sinalizar corretamente, são os buracos nas vias, é a falta de sinalização adequada e de iluminação nas ruas e estradas, é o pedestre que atravessa fora de sua faixa, é o cachorro solto na rua, é a chuva e a pista molhada, é a neblina, é o motorista que anda com seu carro muito próximo, é o motociclista que força a passagem em local inapropriado e é também o Governo (municipais, estaduais e federal) que não se preocupa comigo e com você. Já….

…OS ERROS…

… são a falta de atenção dos outros com relação a você, a sua falta de previsão com relação aos outros, acreditar que os outros sempre terão atenção a você, não perceber a possibilidade que os outros têm de errar. Em resumo, o verdadeiro erro está em subestimar o erro dos outros. Mas tudo o que foi mencionado é erro: não dar sinalização, falar ao celular, buracos, sinalização ruim ou a falta dela, pouca ou nenhuma preocupação das autoridades governamentais, etc., etc., etc.

Sabe-se por estatística que a culpabilidade dos acidentes não está, em sua maioria, na falta de técnica dos usuários das vias, embora eu tenha certeza que a metodologia de ensino nos órgãos de educação de trânsito (CFCs) deveria ser revista urgentemente, mas sim no mau comportamento dos pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas. O instrutor de trânsito ensina seu aluno a usar o pisca, ensina a obedecer as leis, ensina a dar prioridade ao trânsito e não ao celular, ensina a conduzir seu veículo em condições mínimas de segurança, mas isso é colocado em prática pelos alunos? Ou, aqueles que ensinam, praticam o que falam, dão o exemplo?

Dinâmica em grupo nas aulas de direção defensiva; Curso teórico para uma prática segura (arquivo pessoal)

Dinâmica em grupo nas aulas de direção defensiva; Curso teórico para uma prática segura (arquivo pessoal)

Estamos lembrados da faixa exclusiva para os motociclistas? Por que não deu certo? Porque os usuários dessa faixa, em sua minoria, não obedeciam as regras de velocidade e ultrapassagem. Também, os não usuários dessa faixa exclusiva, como motoristas, não respeitavam essas vias, desobedecendo regras de conversão, por exemplo. Pedestres não reconheciam esse “novo” caminho dos motociclistas e muitos atropelamentos aconteceram e, também, a falta de fiscalização era enorme. As autoridades de trânsito, portanto, resolveram eliminar essas faixas (em São Paulo), porque os acidentes não diminuíram. Mas, infelizmente, o projeto não foi satisfatório. Por que? O projeto era ruim ou os condutores não obedeciam as regras impostas a uma condução segura nestas vias?

Projeto bom, mas não vingou por mau comportamento dos usuários (em sua minoria) e falta de fiscalização

Projeto bom, mas não vingou por mau comportamento dos usuários (em sua minoria) e falta de fiscalização

BONS EXEMPLOS

Um bom exemplo que estamos vendo em São Paulo está nas inclusões das faixas de retenção para motociclistas e ciclistas. Digo bom exemplo pois, tanto moto, carros e pedestres estão, em sua maioria, obedecendo esta nova regra de forma que os acidentes entre carros x motos e motos x pedestres estão, de fato, diminuindo, embora ainda faltem estatísticas oficiais sobre o tema. O mais interessante nesse projeto é que os usuários obedecem sem nenhuma imposição, medo de levar multa, ou coisa parecida. É uma obediência voluntária e imparcial, pois todos são beneficiados. Sim, quem pilota uma motocicleta sabe que parar ao lado de um veículo maior e mais pesado, ao sair do semáforo há uma competição para saber quem sai primeiro. É a chamada “Síndrome do Pole Position”. Essa disputa traz o perigo para o pedestre que está atravessando na faixa e para o motociclista que poderá ser abarroado, ou pego lateralmente por automóveis. Estas faixas de retenção aumentam a distância de perigo entre todos os usuários da via. Muito bom! Mas claro que, sem a obediência e aceitação de todos, esse projeto não irá para frente, não vingará, assim como não vingaram as faixas exclusivas.

Exemplo de obediência e respeito para todos os cidadãos que estão transitando

Exemplo de obediência e respeito para todos os cidadãos que estão transitando

SUGESTÕES DIVERSAS

Muitos projetos e sugestões, algumas absurdas e outras boas, aparecem para serem analisadas. Pena que as boas aparecem somente por aqueles que não têm voz ativa, como eu e você, cidadãos que não têm autoridade para mudar as leis de forma rápida e, assim, tais projetos ficam somente no papel, enquanto muitos morrem em nosso trânsito parcial, onde os mais fortes sobrevivem.

Um desses bons projetos é o SINALIZAR O QUE JÁ EXISTE. Nas redes sociais, em especial no Facebook, aparecem coisas interessantes como um que pede para efetivar os corredores de moto que já existem nas grandes cidades e avenidas, já aceitos e que todos os condutores já estão acostumados com ele. Seria bem fácil oficializar o corredor que já está lá, pois os condutores de moto e veículos mais pesados seriam motivados a prestarem maior atenção nessas vias já existentes. Note que não estamos defendendo criar algo novo nem exclusivo, mas oficializar a prioridade para as motos onde isso já ocorre. Claro, é necessário amoldar as velocidades e as atitudes dos motociclistas dentro desses corredores. Mas é evidente que se houver a sinalização, todos começariam a observar com maior atenção e, consequentemente, moldar suas atitudes para esse fluxo de veículos menores, como são as motos.

Faixa prioritária, não exclusiva, para motos; uma boa referência a sinalização, dando aos usuários a motivação para atitudes mais seguras

Faixa prioritária, não exclusiva, para motos; uma boa referência a sinalização, dando aos usuários a motivação para atitudes mais seguras

Será que conseguimos refletir um pouco e responder a pergunta que está no título desse texto? Segurança viária: de quem é a responsabilidade? Eu só enxergo uma resposta: DE TODOS!

Nós, motociclistas, motoristas, ciclistas e pedestres dependemos um dos outros para fazer de nossas vias um lugar melhor. Porém e infelizmente, dependemos da ajuda de autoridades que possuem o poder de mudar ou ajustar os projetos em vias de análise ou aprovação. Por que infelizmente? Bem, você leitor poderá refletir sobre isso. Mas sei que, independente de autoridade ou governante não nos ajudar, sou eu que tenho que governar minha vida em prol da sua e você em prol da minha. Desta forma seremos empáticos uns com os outros e a sociedade chamada trânsito melhorará de forma progressiva e satisfatória para todos, inclusive para autoridades que não sabem, ou não querem ajudar.


Texto de Carlos Amaral, diretor operacional da Carlos Amaral & Zuliani Motorcycle Training, instrutor de pilotagem e palestrante da Porto Seguro Cia de Seguros Gerais, instrutor de trânsito homologado pelo Detran – SP sob o nº 30.930. Imagens: SESVI, Data Folha, Blog da Infomoto, Motos by Minha Moto, APATRU Associação Preventiva de Acidentes e Assistência a Vitimas de Trânsito e Associação Paulista de Pisicanálise – Edição de Geórgia Zuliani



Carlos Amaral

Carlos Amaral - Instrutor de pilotagem defensiva certificado pela Honda, instrutor de trânsito do Detran-SP na especialidade Direção Defensiva, palestrante da Porto Seguro Cia de Seguros Gerais, blogueiro e diretor operacional da Carlos Amaral Motorcycle Training