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Conheça as três fases de uma frenagem

Não sei se há alguma pesquisa a respeito do tema ou mesmo alguma estatística, mas posso afirmar com total segurança que um dos momentos mais sensíveis (e perigosos) para todos os motociclistas é a hora de “alicatar” os freios numa frenagem de emergência. Exige técnica apurada e muita sensibilidade para isso.

Frenagem brusca traseira, com o uso da embreagem; a moto derrapa sem controle a 40 km/h

Frenagem brusca traseira, com o uso da embreagem; a moto derrapa sem controle a 40 km/h

Não se trata aqui de explicar todos os detalhes do momento da frenagem de emergência e por isso não importa agora quantos dedos são usados para puxar o manete dianteiro ou qualquer outro detalhe desse tipo. Aqui o importante é como fazer a moto parar no momento e espaço que se apresentam na circunstância de emergência, levando-se em consideração que trata-se de uma técnica de pilotagem defensiva e não esportiva.

Antes de mais nada, é preciso entender uma coisa óbvia, mas que muitos não atentam. Não é o freio que pára a moto, mas o atrito dos pneus com o solo. Os freios param somente as rodas, mas isso não significa que a moto irá parar também.

Nas frenagens o freio dianteiro é o mais preciso e importante. Isso é bem simples de entender, pois se é o atrito do pneu que faz parar a moto, então o maior atrito será sempre do pneu dianteiro, já que o peso do piloto junto com a inércia da moto mais o peso da moto, tudo é transferido sempre para a frente, deixando a traseira mais leve e quase sem atrito. Por isso é que a moto sai de traseira quando se pisa forte no pedal de freio, pois o atrito é pequeno.

Frenagem correta: atrito total na frente e atrás

Frenagem correta: atrito total na frente e atrás

Minha experiência nos cursos de pilotagem defensiva me ensinou que um dos principais exercícios é o da frenagem. Devo confessar que sinto um arrepio quando é solicitado ao aluno que venha lá de longe acelerando e, de repente frear. Mas, o que significa frear de repente? Aqui entra outro detalhe fundamental que é o tempo de reação.

Considere um motociclista normal: sóbrio, descansado, feliz por ter comprado a moto de seus sonhos. Este cidadão levará 3/4 de segundo para começar a frear. Ou seja, seu reflexo usa 75 centésimos de segundo entre o momento que seus olhos enxergam o obstáculo e a mão e pé direitos (duas mãos no caso de scooter) acionam os freios. Lembre-se que um piloto treinado (piloto de competição ou de um avião caça, por exemplo) consegue diminuir o tempo de reação para algo próximo de 40 centésimos de segundo.

Para exemplificar:  a uma velocidade de 100 km/h, 75 centésimos de segundo significa que a moto percorre 20,83 metros. Você certamente já ouviu comentários sobre um acidente do tipo “nossa, … nem deu tempo de frear!”. É isso mesmo, se o obstáculo estiver a menos de 20,83 metros, a “porrada” é forte e na maioria dos casos fatal, pois o motociclista não teve tempo de usar os freios! Esta é a primeira das três fases da frenagem: seu reflexo e o tempo de reação.

A segunda fase é a distância de frenagem. Será que toda moto freia igual? Não, não, não! As motos são como pessoas, possuem personalidade, caráter. Por isso é necessário conhecer bem a moto que se pilota para saber, entre outras coisas, a capacidade de frenagem dela. Nos testes de frenagem que se faz nos cursos de pilotagem defensiva é possível perceber com clareza estas diferenças, mesmo em motos iguais, mas de proprietários diferentes.

Se a sensibilidade não atuar, poderá causar este efeito, o chamado "nose wheeling"

Se a sensibilidade não atuar, poderá causar este efeito, o chamado "nose wheeling"

Veja o exemplo de uma moto de 1000 cm³, que pesa entre 170 e 185 kg  mais o piloto, equipada com freios ABS, suspensão e pneus perfeitos e bem calibrados, que aciona os freios em pista reta com asfalto bom e seco. No momento em que se usam os dois freios – mais forte na dosagem no freio dianteiro e menos força na dosagem no freio traseiro -, esta moto percorrerá 28 metros até parar! Aí eu pergunto: Sua moto possui freios ABS? As suspensões estão em perfeitas condições? E os pneus estão bons e calibrados corretamente?

Numa moto em situação normal, sem ABS, a sensibilidade do piloto na mão e no pé substituirá o ABS e tentará compensar as más condições de piso e as eventuais imperfeições dos pneus ou da calibragem. Assim, nas frenagens emergenciais, jamais se deve usar a força no freio dianteiro de modo agressivo e repentino. O ideal é dosar a força dos dedos no manete dianteiro de uma forma progressiva e paulatina até chegar o curso total do manete. Claro, a teoria é linda. A maioria dos motociclistas ao fazerem este teste comentam que “dá um medão danado pois parece que a moto vai jogar você de boca no chão ou vai escorregar de frente…”.

É verdade. Esse relato é correto e isso pode realmente acontecer se a força for demasiada e repentina. Muitas quedas acontecem nas frenagens porque se usa a força dos dedos sem soltar mais o manete. Lembrem-se das palavras progressiva e paulatina. Sua sensibilidade deve perceber que a moto vai escorregar de frente e mandar seus dedos aliviarem a força no manete. A mesma técnica deve ser usada para o uso do freio traseiro. Porém, lembre-se de não acionar a embreagem, pois nas frenagens emergenciais a roda traseira precisa ter tração para que ela não fique solta pois essa situação facilita a derrapagem da roda traseira.

E alguém pode perguntar: e se o motor da moto morrer? Melhor, pois o motor sem aceleração funciona como freio nestas situações. Alguém não sabe o significado da expressão “freio-Motor”? Muito bem, aí está a segunda fase, a distância de frenagem.

Treinar é a melhor forma de ajustar a técnica e garantir a segurança nas frenagens

Treinar é a melhor forma de ajustar a técnica e garantir a segurança nas frenagens

E agora? Qual é a terceira fase para parar a moto? Vamos recapitular a história: trata-se de uma boa moto de passeio (não de competição), em piso reto, asfaltado e seco, o piloto está sóbrio, feliz, descansado e atento. Resultado: a 100 km/h, antes de frear, a moto percorre 20,83 metros – tempo de reação. No momento da frenagem a moto percorreu 28 metros – distância de frenagem. A soma do tempo de reação mais a distância de frenagem da moto resulta em 48,83 metros. Caramba! Mais de 48 metros de espaço para parar a moto em condições ideais!

Aí eu chego e pergunto: E se o chão estiver molhado? E se o piloto está cansado? E se a moto for “normal”? Aonde isso vai parar?

A terceira fase da frenagem é chamada de distância de parada. Ou seja, a soma do tempo de reação mais a distância de frenagem da moto. Por isso, usar a sensibilidade para dosar a força na mão e pé direitos (duas mãos nos scooters) fará com que a frenagem emergencial seja feita com mais segurança e “não dará tanto medo assim”. A distância de parada da moto será menor e mais eficaz.

Moto é união e vida. Por isso, usem-na com amor. Faça da moto sua melhor amiga. Procure conhecê-la muito bem e respeite seus limites. Até a próxima!

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