Leilões: a origem de tudo; melhor ir para reciclagem

Eu vendo, tu pagas, ele rouba…

A palavra “cadeia” na língua portuguesa é usada para designar duas coisas diferentes. Para nós brasileiros é mais comum utilizá-la para especificar o local onde criminosos ficam detidos. Mas existe a outra forma para especificar as várias etapas que fazem parte de uma rede de produção e venda de um setor de atividade econômica – chain – em inglês.

Como estamos falando de roubo de motos, a palavra cadeia tem relação direta com o assunto nos dois sentidos. Preste atenção pois você faz parte dessa cadeia. Veja como é no Brasil a cadeia do setor de motocicletas: a indústria fabrica, a concessionária vende, você compra, o ladrão rouba, o receptador recompra, o “comerciante-bandido” vende e o “consumidor-esperto” compra. E assim esta cadeia se realimenta e vai consumindo nossas economias, nosso patrimônio, fazendo o seguro custar cada vez mais, o financiamento ficar cada vez mais difícil, enfim, é nosso mercado que vai andando para trás.

Nessa cadeia ainda faltam alguns personagens: as seguradoras que fazem leilões de motos acidentadas (com documentos) e sucatas de motos (sem documentos), a polícia que não investiga e não consegue nem proteger o cidadão e nem prender o bandido, a justiça que não consegue condenar, os governos que arrecadam e claro, o medo, o alimento principal para que essa cadeia continue funcionando assim, bem ajustadinha e regulada, como uma relação secundária novinha que você acabou de trocar na sua moto – claro, comprada nova e original na concessionária e não naquela loja de peças usadas conhecida como “desmanche”.

Desmanche: nova lei é mais rigorosa em São Paulo, mas não basta

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Uma conversa rápida numa roda de amigos motociclistas e é possível encontrar facilmente as causas deste fenômeno tipicamente brasileiro. Impunidade, peças caras e falta de fiscalização são as razões mais citadas. Claro, tudo acompanhado de um claro desânimo dos interlocutores expressado por um sonoro “isso não vai mudar nunca” ou “sempre foi assim e só vem piorando”. Mas não vamos ficar “enxugando gelo”, como vem acontecendo há muitos anos com as ações (ou será inação) que o Estado realiza. É evidente que se Motonline abordasse os Governos ou as secretarias de segurança pública como a chamada Grande Imprensa já fez inúmeras vezes, certamente ouviríamos as mesmas justificativas e estatísticas de sempre, enfatizando que o crime diminuiu aqui e acolá.. blablablabla…..

Leilões: a origem de tudo; melhor ir para reciclagem

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Mas para nós todos que usamos a motocicleta, vale o que percebemos nas ruas das grandes cidades todos os dias. Medo de roubo, assalto, furto, violência, agressão, ameaças…. morte, em muito casos! Apenas para ilustrar com alguns números, segundo dados noticiados recentemente sobre estatísticas da própria polícia, somente na cidade de São Paulo são roubadas 45 motos por dia em média. No estado de São Paulo são mais de 120 motos todos os dias. Destas, não se sabe exatamente quantas são levadas após ameaças seguidas de agressões e até da morte do motociclista (latrocínio). Converse com seus amigos e você rapidamente terá vários relatos de alguém que foi agredido mesmo entregando tudo aos bandidos. A polícia inclusive recomenda que se faça desta forma (e nós também) como forma de preservar sua vida.

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No fim das contas, quase nada é feito pelo poder público para mudar esta situação. Na raiz deste problema estão os chamados “desmanches”, lojas que arrematam em leilões de seguradoras (acidentadas) e dos Detrans (apreendidas) essas chamadas sucatas de motos para desmanchar e revenderem as peças usadas que tenham condições para uso. Neste sentido, em julho de 2014 entrou em vigor no estado de São Paulo a Lei 15276/14, que determina mais rigor na atividade de comércio de peças usadas (desmanche). Já é alguma coisa, mas continua faltando o rigor e a certeza da severa punição aos infratores.

Destas conversas, surgem muitas perguntas e sempre algumas sugestões. E duas delas são as mais recorrentes e vão direto na raíz do problema. A primeira sugestão é acabar com leilões. Aí surge a pergunta: E o que seria feita daquelas toneladas de sucatas de motos? E vem a resposta: reciclagem. A segunda sugestão é acabar com a atividade de desmanche. Aí vem a pergunta: e os atuais legalizados vão fazer o quê? Continuar vendendo peças novas, ou mudar de ramo. Como se percebe, existem boas soluções e respostas. Mas enquanto o assunto fica no campo da utopia, sobre este assunto conversamos com um diretor da Assohonda, Fernando Medeiros, ele mesmo vítima recente de assalto com agressão. A Assohonda reúne as concessionárias Honda em todo Brasil e, claro, com 80% do mercado brasileiro, a marca e as concessionárias sentem fortemente o problema.

MOTONLINE – Quais as fontes de peças usadas que os lojistas podem comprar e comercializar?

Fernando Medeiros – A novata lei dos desmanches, que passou a vigorar nos Estado de São Paulo, por exemplo, estabelece regras claras e rigorosas para comercialização deste tipo de peças. Mas mesmo nos demais estados da Federação já há critérios para regulamentar esta prática. Basicamente só se pode comercializar peças usadas oriundas de motos compradas em leilões oficiais. Neste casos, veículos vendidos aos lojistas são baixados no DETRAN e o lojista possui um documento legalizando a operação. Também há critérios sobre o tipos de peças que podem ser comercializadas. Peças de itens de segurança como freios e direção, por exemplo, não podem ser vendidos.

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MOTONLINE – Qual é a regra para ser um comerciante de peças usadas “regularizado”?

Fernando Medeiros – A empresa deve ser caracterizada como Desmanche, estar enquadrada nas normas de prevenção de impacto ambiental, como por exemplo, ter espaços especiais para armazenamento de matérias de alto risco ao meio ambiente, piso 100% impermeável e descarte comprovadamente adequado de fluídos. Estes documentos e licenças devem ser renovadas anualmente e 100% das peças devem ter origem comprovada.

MOTONLINE – Você acredita que multar o comerciante pego em flagrante é suficiente? Afinal, ele é parte da quadrilha!

Fernando Medeiros – Não acredito que uma simples multa seja a penalidade mais coerente. O comerciante que comercializa peças roubadas deveria responder criminalmente, pois é um receptador. Ele é o destino final de uma indústria perversa responsável por 50% dos latrocínios em São Paulo, por exemplo. Creio que as estatísticas não sejam diferentes nas demais regiões do país.

MOTONLINE – Não seria melhor simplesmente proibir a comercialização de peças usadas? Assim fica mais fácil identificar e prender os bandidos?

Fernando Medeiros – Sem dúvida nenhuma. Os problemas envolvidos neste segmento de mercado são tantos e o volume de motos comercializadas via leilão é tão pequeno que não justifica esta prática no mercado. Além de alimentar o roubo de motocicletas, há a questão da segurança. Quando um carro quebra por uma peça que deu defeito, ele simplesmente para e protege seu motorista de uma possível colisão, mas quando uma moto simplesmente para por defeito, o risco de acidente é muito maior. Isto sem considerar os acidentes causados pelas próprias peças. Até mesmo uma simples lâmpada que queima, pode representar um grande problema, afinal moto tem apenas um farol. Já vi motociclistas comprarem pneus riscados. Isto é simplesmente insano.

MOTONLINE – O que as fábricas (no seu caso, a Honda) fazem para combater isso?

Fernando Medeiros – Não atuo na fábrica. Respondo por uma associação de concessionários Honda, mas tenho ciência de que a Honda por ter a maior frota de motos no mercado,acaba sendo a marca que tem o maior número de peças pirateadas e também que perde vendas de peças originais por consequência deste mercado paralelo de usadas. A fim de minimizar este impacto a marca lançou uma linha de peças denominada HAMP (Honda After Market Partner) que são peças originais, porém com preço subsidiado. Com esta estratégia o acesso a peças originais é maior, reduzindo a diferença de preços entre as peças originais e estas peças usadas.

Fim dos leilões seria a melhor alternativa pois secaria a fonte dos desmanches

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MOTONLINE – Os tais “pacotes de peças” a preços mais baixos poderiam incluir outros itens que não apenas as peças de giro rápido e manutenção regular?

Fernando Medeiros – Concordo que o ideal seria isto sim, no entanto um dos principais fatores para reduzir preço é o ganho em escala. Nas peças de menor giro é mais difícil reduzir preços, mas é sim extremamente necessário que haja uma linha maior de peças mais baratas, e não só aquelas de maior giro.

MOTONLINE – Em alguns países, a venda de peças para motocicletas é toda feita pelo mercado paralelo, deixando para a fábrica apenas a venda da moto. É uma espécie de “cada um na sua” – você fabrica e vende a moto e eu fabrico e vendo a peça, com a mais completa livre concorrência. O que você acha disso?

Fernando Medeiros – Sinceramente acho que o modelo adotado no Brasil é mais interessante, primeiro porque protege o consumidor. As fábricas garantem o fornecimento de 100% das peças! Enquanto em um mercado só abastecido pelo mercado paralelo algumas peças são de reposição tão rara que acabam não sendo interessantes para os fabricantes de peças. Outra questão é a qualidade. As peças fabricadas pelas fabricante da moto são feitas com base no projeto original da peça e da moto, enquanto os fabricantes somente de peças, desenvolvem o projeto a partir de uma peça original.

MOTONLINE – O que pode ser feito para baratear o preço das peças?

Fernando Medeiros – Penso que a primeira coisa é estabelecer regras de mercado que funcionem. Isto é, todos devem competir de igual para igual, e isto só se consegue com fiscalização sobre fabricantes e lojistas. As fabricantes de motos devem também rever margens e buscar escala a fim de oferecer peças a um preço menor e, por fim, itens de segurança como pneus, freios, direção, buzina e acessórios de segurança devem contar com carga tributária reduzida.

MOTONLINE – Do ponto de vista da lei, o que poderia ser feito pela Justiça Brasileira para combater essa situação?

Fernando Medeiros – Temos leis brandas, as possibilidades de recursos e liminares são infinitas e as penalidades fiscais também são bem suaves. O crime acaba compensando. Código penal mais severo, leis fiscais mais severas e fiscalização efetiva fariam toda a diferença, e não só no mercado de peças mas na sociedade como um todo. O sujeito tem que saber que se vender peça roubada vai preso e ponto final. O sonegador tem que saber que se não pagar os impostos vai pagar multas severas e se for fiscalizado não vai ter jeitinho.