Início de ano

Início de ano

SÃO PAULO – O ano novo começou com o céu nublado. As indústrias e os revendedores de veículos do País aguardam uma lenta e gradual reação do mercado após o mês de março. Mas agem com paciência, sem acelerar.

Nós, motociclistas e motoqueiros, que formamos a grande massa de consumidores e usuários de duas rodas (e somos a base de uma milionária cadeia de indústrias, serviços, comércio e produtos agregados), também estamos cautelosos. Como diz o velho ditado, canja de galinha e cautela não fazem mal a ninguém.

As opiniões nacionais estão dividas entre 1 — o otimismo do presidente Lula, 2 — a cautela moderada dos consumidores e 3 — o realismo da Imprensa. O presidente quer insuflar a confiança popular, o que é muito correto de sua parte. O povo brasileiro, calejado pelos altos e baixos da vida, está desconfiado (gato escaldado tem medo de água fria).

E a mídia (Imprensa) não faz nada além de divulgar o que acontece – são fatos, análises e opiniões vindas de todos os lados. Quem não enxerga essa realidade está viajando… Vejam: assim que fechei esse texto,} às 12 horas do dia 13.01, e liguei a TV, o jornal do meio-dia anunciou que a GM do Brasil havia demitido mais de 700 funcionários. Isso é real, e está bem distante das boas intenções do Lula.

Se pusermos as realidades da economia mundial e nacional numa balança, veremos que as situações negativas pesam mais que as positivas. Do contrário, os presidentes norte-americano, japonês e alemão, que comandam as três maiores potências econômicas mundiais, não estariam tão preocupados.

Na balança mundial — e nacional — oscilam as incertezas diárias de que tem o dinheiro na mão e o leva de um prato para o outro. O comportamento da balança econômica é mostrado diariamente pelos altos e baixos da nossa Bolsa de Valores, a Bovespa, nas quedas diárias das bolsas internacionais, na quebradeira de bancos e indústrias mundiais e na recessão galopante que evolui lá fora.

Se esses dados são pessimistas ou não, não importa: são fatos. Estão acontecendo hoje e agora. E, com certeza, podem atingir todos os que não estiverem abrigados — mais cedo ou mais tarde.

É melhor ficar esperto!!

Nós e mais nós Entre nós, motonliners, motoqueiros e motociclistas, a coisa também está nublada, mas começa a dar lentos sinais de recuperação. Uma ou outra loja começa a apresentar uma tímida reação nas vendas. Os bancos começam a liberar, cautelosamente, algumas modalidades de financiamentos, direcionados a um público economicamente mais estável.

“Notei que aos poucos o financiamento de motos novas está sendo normalizado. Em minha opinião, foram as notícias que assustaram os consumidores e os afastaram das lojas”, diz a vendedora Fátima Kamisnki, da rede de revendas Honda SPMotos, de São Paulo. Segundo ela, o mercado começou a reagir. “Ontem vendi duas motos e hoje espero vender mais duas”, declarou na manhã de terça-feira, 13.01. A vendedora reconhece que essa quantidade é pequena, mas é bem melhor que a paradeira que engessou o comércio nos meses finais de 2008.

De um ponto de vista mais amplo, a realidade que atinge centenas de milhares de consumidores de motos – para não dizer milhões — permanece cruel.

No segundo final-de-semana deste ano, essa realidade estava estampada nos jornais impressos e eletrônicos: “Produção de veículos cai pela metade — com férias coletivas e corte de vagas” (Folha de S.Paulo, sexta-feira, 09.01); “Resultado eleva pessimismo sobre indústria”; “Inflação para famílias de baixa renda tem maior alta desde 2004″ (na mesma Folha). Nessa faixa social, de baixa renda, estão situados os motoqueiros e motoboys, consumidores das populares – que representam mais de 70% do mercado nacional.

Nos noticiários de rádio, mais realidade: a indústria nacional demitiu 600 mil em dezembro e a crise vai piorar (opinião de economistas falando à rádio Jovem Pan AM na segunda-feira, 12.01 – www.jovempan.com.br ).

Na Internet, mais. O portal do O Estado de S.Paulo ( www.estadao.com.br ) destacou que “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira, 12, que os primeiros meses do ano serão `preocupantes’ para o Brasil por causa da crise financeira internacional “.

Será que todos os veículos de comunicação se uniram para divulgar o negativismo, ou apenas trata-se da realidade?

Ao retornar de suas férias, o presidente Lula declarou que o governo continuará fazendo investimentos em obras de estrutura básica pelo País. Isso é otimismo. Essa atitude do Governo deve movimentar a economia, gerar empregos e ( tomara ) liberar mais financiamentos para a compra de motos novas.

Mas, enquanto isso, a ficha continua caindo — como já tinha adiantado o MOTONLINE, em 14.12.08. A redução de IPI ( o Imposto sobre Produtos Industrializados ) dos carros foi apenas uma jogada psicológica do Governo para estimular a ida dos consumidores de autos às lojas na virada de ano. A isenção de IPI já existe há mais de duas décadas para indústrias de motos estabelecidas na Zona Franca de Manaus (AM). Quer dizer, para o mercado de duas rodas – especialmente as populares — essa redução não refrescou.

As únicas vendas que reagiram na passagem de ano foram as dos carros e motos médios. Entre os autos, os sedãs Honda Civic e Toyota Corolla, por exemplo, que custam bem mais que um carro básico da faixa economia, surpreenderam pela boa procura. Esse dado partiu de Sergio Reze, presidente da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores).

“Os carros médios venderam bem no final do ano”, disse o executivo. “Em novembro e dezembro, modelos como os sedãs Corolla e Civic tiveram uma procura expressiva”, notou, mostrando os dados da entidade (www.fenabrave.org.br).

Quanto ao mercado de motos, especificamente, Reze declarou ao MOTONLINE que “as motos de baixa cilindrada, ditas populares, ainda estão com um desaquecimento nas vendas. Essas motos eram 100% financiadas, o que ajudava e incentivava seu comércio. Mas isso acabou.”

Segundo Reze, nesse mar cinzento a única tábua de salvação para o mercado de motos populares é o consórcio, modalidade que deverá se fortalecer nos próximos meses. “O consórcio é a melhor alternativa para quem pretende trocar de motocicleta sem recorrer aos financiamentos”.

No chão da fábrica A Anfavea, associação que reúne as montadoras nacionais de quatro rodas ( www.anfavea.org.br ) e que é uma baliza da economia nacional — inclusive, influenciando decisivamente os rumos da economia do País –, está em cima do muro e não arrisca projetar uma perspectiva sobre a reação do mercado em 2009 – apesar de sair de um 2008 fantástico na produção e vendas de veículos automotores.

“As indústrias estão com o pé no freio. Temos férias coletivas a redução de produção está programada”, declarou o presidente da entidade, Jackson Schneider, na primeira coletiva à Imprensa, no início deste ano. Segundo ele, o futuro próximo é “uma incógnita”: “Esperamos uma recuperação a partir de março”, arrisca. O executivo diz que o principal fator que balança os brasileiros é a dúvida sobre a manutenção do emprego.

Bem observado. No nosso meio de duas rodas, essa dúvida afeta a tudo e a todos: motoqueiros, motonliners, motociclistas, lojistas, indústrias de motos, mecânicos, vendedores, fabricantes de motopeças, associações, motoboys, bancos e revendas.

“Comprar um veículo por prestações e depois poder pagá-las regularmente permanece um fantasma para todos. Essa é a realidade”, aponta Jackson Schneider.

Para Sérgio Reze, a única válvula de escape segura, por enquanto, é a do consórcio – uma modalidade de aquisição de bens físicos que requer paciência. Como me disse filosoficamente um motoboy, outro dia, enquanto aguardávamos lado a lado o farol abrir, na linda Avenida Paulista: “O bagulho é louco, mas o processo é lento”.

Pois é, mano.