Multiple Moto!

Multiple Moto!

Acompanho alguns dos movimentos deste grupo há anos. Já li e ouvi, dezenas de relatos. Por mais absurdo que isso possa parecer, esta “filosofia”, é a verdadeira identidade de alguns membros deste “clã”… Os caras andam. Andam pra todos os confins do Brasil, às vezes, fora dele. Andam no asfalto, andam na terra, andam na pedra…

Não é a primeira vez que vejo imagens de um canto isolado qualquer deste país, com uma das bikes em situação pouco comum… Tipo assim… , sem o motor…. Pode parecer insano. Contraproducente. Mas, é assim.

Uma bike enorme, com um motor full size, no chão…. , no meio do nada. Os caras encaram a estrada como a grande maioria das pessoas vê a própria casa. Um lugar seguro, onde o tempo não passa e “tudo pode”. Pode até, sacar um motor, no meio do caminho, num estacionamento de um hotel qualquer, consertar o problema, remontar e, seguir viagem. Simples assim.

Chama uma cerveja, pega as ferramentas, avisa que não vai (ou nem avisa) e, party time! Não importa qual o problema ou, se a solução já esta definida, nem tão pouco se haverá peças. O que importa, é sentar ali, tomar uma gelada com as mãos cheias de graxa e…, usufruir do tempo, das amizades, da hospitalidade, da paisagem…. Viver! É estranho. A estrada, o trecho, assusta e gera angustia pra quem não é do ramo.

Mas, para quem é dessa lida, o sentimento é, justamente, inverso. Frequentemente me pego num suspiro aliviado e involuntário, quando vejo a cidade pelo retrovisor e, o caminho pela frente. Parece que a vida passa mais leve sobre rodas. Muito mais leve…. As motos destes caras, frequentemente, marcam seis dígitos no painel. Seis dígitos de histórias.

No relato, outra observação curiosa : “……estou começando a achar que viagem de moto que não dá problema, não tem graça….” Digo “curiosa”, pra não dizer “verdadeira”. Talvez não na tradução mais direta, mas, certamente, há algum fundamento nisso. É lógico, ninguém quer ter uma moto que só dá problema (nem é este o caso específico), mas , uma viagem sem “surpresas”, “imprevistos”, “desencontros”, “descobertas”, não me parece uma viagem…. Talvez um “deslocamento”, mas, não, uma “viagem”…

Tomadas as proporções e resguardados alguns fatores preponderantes, relativos à segurança, esta afirmação pode vir a fazer todo o sentido. Só quem já passou dias, preso num atoleiro intransponível, diante de uma ponte quebrada no meio do nada, ou ainda, com problemas eletromecânicos num país estrangeiro, pode entender essa afirmação. Só quem já se lançou no trecho, de peito aberto, sabe onde reside esta satisfação. Um dos grandes prazeres de uma viagem, esta justamente na exposição ao imponderável… Nestas ocasiões é que vivenciamos os momentos que ficarão gravados em nossa memória para sempre. Nessas ocasiões é que conheceremos toda a capacidade e criatividade humana. Nessas ocasiões, temos a rara oportunidade de interagir com pessoas e costumes de um “mundo” diferente do nosso cotidiano. Essa é a grande riqueza de qualquer viagem.

É ela que equaciona todos os aspectos, num único objetivo. Planejamento, investimento, coragem, criatividade, aventura, risco, desprendimento, nada disso pode, por si só, definir uma boa viagem. Uma grande e boa viagem é uma mistura de tudo isso, em proporções imponderáveis. Um pouco de tudo isso, somado a elementos intangíveis, como, por exemplo, o espírito, a companhia, a predisposição, a necessidade e outros fatores imensuráveis.

Confesso que as maiores e melhores lembranças que tenho da estrada (e fora dela), estão, justamente, vinculadas a algum tipo de imprevisto e seus desdobramentos. A grande aventura está no desconhecido.

Essa multiplicidade de opções é algo que me fascina no nosso esporte.

Na mesma hora, recebia a ligação de um brother, me avisando que iria participar de mais uma etapa do campeonato Paulista de MotoCross Amador. Campeonato este que já lhe rendeu um caneco e o lugar mais alto do pódio, na primeira etapa. Legal ver alguém se preparando para uma competição. Como ele mesmo diria: “…. você tem que mentalizar e se imaginar fazendo cada curva do circuito….” O MotoCross é um esporte “perigoso”. Uma aventura. Dentro de uma pista, com outros vinte ou trinta caras brigando pela melhor colocação, é necessária muita concentração pra se dar bem.

A adrenalina irá atingir os níveis mais altos e, nesse momento, o piloto deverá executar movimentos e analisar opções que irão depender de toda a “serenidade” e “lucidez”, possíveis… Isso tudo acelerando 40/50hp em conjuntos de 100kg, ao máximo. Isso tudo, voando sobre obstáculos que, facilmente, poderiam comprometer a estrutura do corpo humano a qualquer tempo, caso algo viesse a dar errado. Isso tudo, “batendo guidão” com outros tantos caras, tomados pelo mesmo ideal. Isso, requer uma capacidade de concentração quase budista…. O motociclismo, como esporte (em qualquer modalidade), requer nervos e músculos de aço.

Ao final de uma disputa, quando se consegue atingir um padrão de comportamento deste, a sensação é quase que indescritível…, uma “viagem”…. Recebo um “SMS” no celular, outro irmão, me avisa que estará indo pra Canastra no feriado. Grupo grande, confraternização. Dias inteiros de rolê pelo meio do paraíso. Frequentemente, esses caras dormem em fazendas, em alojamentos improvisados, ou, acampados sob o céu de estrelas, ao som das incontáveis quedas d água. Aventura.

Altos visuais e toda a “áurea” que acompanha um grande grupo de pessoas excursionando. Egos, desejos, estados de espírito… , tudo isso lá, no berço da natureza. Vendo o sol nascer, vendo o sol se por e…. , acelerando, no mato! Coisa fina….

Enquanto isso, eu, continuo na onda de “treinar”…. Meus rolês têm sido “chatos”. Tenho estado concentrado em tentar assimilar a técnica correta. A evolução é clara, mas, dura… Quando consigo acertar o movimento, da até pra sair na foto! Mas, os hábitos errados, decorrentes de uma vida alheia ao aprendizado da técnica, volta e meia, me pegam…. Tô no meio do caminho. Não ando mais como sabia andar e nem sei andar como deveria… Como diria Bon Scott (AC/DC): “It´s a long way to the top, if you wanna rock´n´roll” ….

Talvez… , quem sabe… , um dia…. , consiga me desprender totalmente dos vícios de pilotagem do passado e , então, usufruir do benefício. Para o momento, tudo que me resta é treinar e prestar atenção. É “chato”, mas, certamente me levará a um lugar melhor. A técnica correta permite um ganho substancial na velocidade. É mais segura, e menos desgastante. Mas …. , pra quem já não é mais menino, demanda atenção e, às vezes, “dá medo”…

Neste findê, treinei no XC. Meu objetivo é conseguir assimilar ensinamentos até que os mesmos se tornem intuitivos. Na pista, observava um cara fazendo o que não deve ser feito: se jogar em saltos longos, sem o mínimo controle da situação. A cada aterrissagem…. , um silencio na “platéia”…. Todos atentos pra uma “emergência”. O cara … , alheio ao perigo, se divertia com o famoso: “….tô emendando tudo…” Tomara que o “Dr” no pronto socorro, tenha a mesma habilidade…, se o praticamente inevitável, vier a ocorrer…

Lá pelas tantas, ouve-se um quatrocentas e cinqüenta cilindradas, girando na velocidade para a qual foi concebido. Ninguém menos do que um dos nossos heróis nacionais: Zé Hélio! Observei duas passagens do cara. Só duas. Vinha andando num ritmo bom durante toda manhã, achei que tinha feito um treino razoável. Qué isso… , tava enganado…. O cara vinha numa velocidade de dava medo até nas árvores…..

Evidentemente, não tinha a menor pretensão de andar perto do tempo dele, mas, a velô que o cara anda é coisa bonita de ver….!! Não é sempre que se vê alguém mandar mão cheia numa 450, em pequenas retas sombreadas, escorregarias, precedentes de curvas descompensadas e cheias de cavas…. Difícil acompanhá-lo.

Mas, o ronco do motor, ao longe, entregava a razão de tamanha distinção: Longos períodos de tubo cheio, seguidos de um silencio quase angustiante…. , só quebrado pelo barulho da corrente batendo no slider e ….. , TUBO CHEIO OUTRA VEZ, até aproxima curva. No melhor estilo on/off, o cara voava baixo no trilho. Show!

Enfim, cada um na sua “vibe”, no seu momento, na sua filosofia, no seu ritmo. Todo mundo curtindo o bom e velho motociclismo. Amém!

MOTOHEAD