Pedra Branca

Nixon, o professor-motociclista: voltas ao mundo sem sair do Ceará

Uma das muitas motos usadas no início por Nixon - ainda bem jovem. Nesta foram mais de 110 mil km rodados

Uma das muitas motos usadas no início por Nixon – ainda bem jovem. Nesta foram mais de 110 mil km rodados

Raul Nixon tem nome de presidente, mas é professor com excelente nível de formação em uma famosa rede de ensino do Ceará, pois é muito mais que mestre. Seria apenas isso se ele não fosse também motociclista. E seria apenas mais um dos tantos professores bem capacitados nesse país que também andam de moto se não fosse por um detalhe.

Um dos trechos que fez várias vezes e à noite. Quase 500 km apenas para relaxar

Um dos trechos que fez várias vezes e à noite. Quase 500 km apenas para relaxar

Raul nestes anos todos em que viaja pelo interior do Ceará lecionando já acumulou uma quilometragem de fazer inveja a qualquer motociclista, quanto mais a um professor. São mais de dez voltas em torno do mundo pela linha do Equador. Sim, e pouco mais que a distância do planeta Terra à Lua. Tudo isso feito de moto pelo interior do Ceará, ensinando.

Um duplo sacerdócio que a internet não conseguiu acabar

Um duplo sacerdócio que a internet não conseguiu acabar

Fui encontrar o Raul Nixon no Açaí para entrevistá-lo a respeito de um desafio que ele e o Alex Soares, do Fox MG, e o André Luiz estavam fazendo – o qual seria visitar todos os 184 municípios do Ceará de moto. No meio da conversa acabei descobrindo um outro lado do Raul que eu não conhecia. O professor-motociclista que viajava de madrugada para ensinar.

Raul me conta que é possível, saindo de moto às três horas da manhã, alcançar qualquer lugar no Ceará até no máximo às oito da manhã. E ele fala com a propriedade de quem saia de Fortaleza no final da tarde para dar aula em Aracati (150 km de Fortaleza) e voltar na mesma noite.

O Raul já fez trechos bem malucos. Em um deles, o qual fez várias vezes, compreendia deixar Viçosa(CE) e viajar à noite para chegar de madrugada na cidade de Aracati (CE) – aproximadamente 450 km – onde daria aula pela manhã. É ir de um extremo ao outro do Ceará em apenas algumas poucas horas.

As vezes não tinha estrada, mas tinha que chegar e nesse desafio os tombos eram previsíveis

As vezes não tinha estrada, mas tinha que chegar, e nesse desafio os tombos eram inevitáveis

Nessas viagens ensinando pelo interior do Ceará, Raul coleciona várias histórias. Numa delas tomou tanta chuva que chegou a atolar a moto e as botas na lama, ficando de pés descalços até encontrar uma bica onde pudesse se lavar.

Esta foto explica por que o nome Teneré na moto Yamaha. Sabe por que?

Sempre que possível, uma pausa na viagem para um click da natureza

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Na barraca quando não tinha pousada no lugar

Em outra viagem o Raul pegou uma estrada de terra e acabou levando um tombo. Estava numa moto potente e adequada para o trajeto, mas acabou tomando “um chão”. Eis que de repente aparece um menino, descendo a serra sem capacete, sem camisa e trazendo na traseira da moto, uma CG das antigas, dois botijões de gás sustentados apenas por uma vara de pau. O garoto parou para ajudar e o convidou para almoçar na sua casa. Lá comeu que nem um rei e ainda tirou um cochilo na rede que lhe foi oferecida pela dona da casa. Meses depois Raul retornou ao lugar, mas nunca mais viu e nem conseguiu achar o caminho da casa do garoto que tão bem o recebeu.

Uma das paixões de Raul é a fotografia. Sempre que pode ele aproveita e faz uma pausa na viagem para capturar alguma imagem da natureza. E assim já se somam milhares de registros que ele nem sabe mais o que tem de tanta foto que os mais de 400 mil quilômetros rodados ensinando pelo Ceará proporcionaram o registro.

Na barraca quando não tinha pousada no lugar e ajudando motociclistas em dificuldades

Ajudando motociclistas em dificuldades

Dicas ele tem muitas. Uma delas é “nunca pergunte se a sua moto chega lá”. Segundo o Raul, “perguntamos aos nativos do lugar se a nossa moto consegue chegar a um lugar cujo o acesso parece ser difícil. Aí eles olham a sua moto, veem que ela é grande e tem muita força e a resposta deles é fatal – ‘sim, claro que chega!’. É aqui o erro”, destaca Raul. O maior problema não é nem o peso, mas a falta de prática de andar em terrenos bem difíceis, com os quais os nativos estão muito acostumados. – “É tentar e tomar um tombo quase certo”, sentencia Raul.

A nova companheira de estrada

A nova companheira de estrada

Foram várias as motos que passaram pela vida nem um pouco monótona do Raul Nixon. Algumas pegou zero e entregou com mais de 110 mil quilômetros rodados. Assim tem sido a vida do professor-motociclista. Ou seria do motociclista-professor? Tanto faz. Raul poderia ter feito toda essa quilometragem de carro ou mesmo de ônibus e até poderia escolher ficar só pela capital no ar condicionado, almoçando em casa e sem correr grandes riscos.

Ainda bem que ele decidiu sair mundo afora ensinando pois segundo ele – “eu aprendi mais do que ensinei”. Realmente, Raul. Nós também, professor!

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Motociclista desde os 18 anos. Jornalista e apaixonado por motos desde que nasceu.