Quatro numa motocicleta, sem capacete! Reflexo do trânsito não municipalizado em Mombaça, Ceará.

Nordeste: quando as quatro patas viraram duas rodas.

Quatro numa motocicleta, sem capacete! Reflexo do trânsito não municipalizado em Mombaça, Ceará.

Quatro numa motocicleta, sem capacete! Reflexo do trânsito não municipalizado em Mombaça, Ceará.

Em uma viagem que fiz recentemente a várias cidades do interior nordestino, a constatação é preocupante. Chinelas japonesas, bermudas, camisas de manga curta, bonés e por aí vai. Se você pensou que estes itens estão relacionados a ir à praia, ao parque ou coisa parecida, enganou-se. Estes são os equipamentos de segurança da maioria dos motociclistas no interior do Nordeste.

A maioria das cidades, apesar de ter seu trânsito municipalizado, não fiscalizam como deveria. Os mototaxistas são um caso à parte: na maioria dos lugares onde passei eles usam o capacete, colete, calças compridas, sapatos ou tênis. Porém, o restante dos motociclistas não demonstra a menor preocupação com segurança e anda numa moto como se fosse mesmo ir a uma praia, a um banho de rio ou mesmo a um passeio pela praça ou shopping.

Mais de três pessoas numa moto…
É comum ver motociclistas sem capacete carregando na garupa das motos duas pessoas mais bagagem. Crianças que pela idade e tamanho sequer alcançam a pedaleira destinada à garupa, são conduzidas usando capacetes de adultos – maiores que as suas cabeças – e, portanto, com grande probabilidade do capacete sair da cabeça em caso de acidente.

Conversando com motociclistas, mototaxistas e motoboys,  existe uma clara diferença entre o motociclista profissional e o motociclista digamos, amador. Os que usam a moto a trabalho usam um pouco mais os equipamento de proteção. Apesar de não ser o equipamento adequado é bem melhor que não usar nada. Já entre os amadores a coisa rola solta. Chinelos de dedo, capacetes sem a cinta presa, viseiras abertas, sandálias, capacetes no braço ou sendo usado como chapéu e por aí vai. E tem mais. Há pelo menos 15 municípios cearenses com cinco vezes ou mais veículos do que condutores que possuem a CNH. O Detran (CE) estima que existam cerca de 300 mil pessoas dirigindo sem CNH no Estado.

A falta de informação…
Numa breve passagem em um ponto de encontro de mototaxistas percebemos o quanto os itens segurança são deixados de lado por falta de informação. Alguns usavam capacetes com viseiras opacas e que por estarem neste estado estava sempre aberta, o que é, neste caso, uma infração de trânsito. Muitos pilotam em estradas de terra ou de calçamento e basta um grão de areia ou um besouro no olho para provocar um acidente grave. Bastou alertar para começar a ouvir histórias de companheiros que se acidentaram  por estar com a viseira aberta.

Apesar de certificados pelo Inmetro, alguns tipos de capacetes não permitem uma proteção adequada em regiões onde o sol e o calor são os fatores de maior desgaste para equipamento e piloto.

Poucos sabem que a pele descoberta associada ao atrito com o vento e o sol aceleram a níveis altíssimos o ressecamento, as queimaduras e a desidratação. A desidratação é outro grande inimigo de quem anda de moto pelo Nordeste e acredite: ela mata.

Sol e desitratação mata

Sol e desitratação mata

Sol e desidratação
Cientistas e pesquisadores preocupados com a saúde do motociclista nordestino. Em outro estudo * Santos  analisa os traumas ocorridos em motociclistas após os acidentes de trânsito provando que, em mais da metade das vítimas, os membros  inferiores  representaram um dos segmentos corpóreos mais atingidos. O mesmo estudo, evidenciou também, que a maioria dos óbitos concentraram naqueles que não utilizavam o capacete, confirmando ser este risco dez vezes maior entre aqueles que não fazem uso deste equipamento.

  • Ao mesmo passo, de todas as lesões:
    59,3% foram classificadas como ferimento leve,
    25,0% traumatismos superficiais,
    9,4% fratura e
    6,3% luxação, entorse ou distensão das articulações e dos ligamentos.

Saber que a simples utilização de proteção para as pernas, tipo caneleiras e joelheiras, que custam cerca de 60 reais, reduziria sobremaneira o índice de gravidade dos ferimentos provocados por um acidente com moto, só confirma a nossa impressão de que a falta de informação é que gera a falta de educação e com ela a postura de não querer utilizar o equipamento de proteção.

O Álcool e a fome
É comum no Nordeste Brasileiro, ao fim do dia, dar uma parada em um bar próximo de casa, encontrar os amigos para colocar o “fuxico em dia” e tomar uma dose de pinga antes de ir para casa. Este hábito vem desde o tempo em que o homem do interior andava à cavalo ou em jumentos. Mas as quatro patas se transformaram em duas rodas e o hábito se manteve. Na cabeça desse povo isso nunca foi um problema, pois o animal geralmente o levava para casa mesmo que estivesse completamente bêbado. Agora, mesmo sendo em duas rodas, a tradição ainda permanece, porém, com um agravante: os acidentes com motos no início da noite aumentaram.

Outro fator cultural está no fato de ao acordar pela manhã o sertanejo toma uma xícara de café preto e sai para trabalhar. No caso dos mototaxistas a primeira refeição é feita após receber o dinheiro da primeira corrida do dia. Aqui mora outro grande fator de risco: a fome. A falta de alimentação para quem anda de moto é várias vezes pior do que para quem dirige um carro. A queima de açúcar é ainda mais rápida por causa do excesso de adrenalina e isso pode provocar a hipoglicemia – falta de açúcar no sangue que gera confusão mental e perda de movimentos e reflexos, além de falta de equilíbrio.

O estudo realizado pelos pesquisadores da Universidade Estadual de Feira de Santana, UEFS-BA, dos acidentes estudados, 37,8% ocorreu no período da manhã. O fato de o município ter base econômica no comércio e, portanto o fluxo de pedestres e veículos ser mais intenso no centro da cidade, 51,4% ocorreram nessa região. Além disso, 23% afirmaram não ter tomado café da manhã.

Vejam que a maioria desses problemas aqui listados se resolveria com pequenas intervenções locais e a um custo baixíssimo. Porém não existe educação sem informação e sem entender a cultura e a linguagem local. É um simples gesto que feito de forma repetitiva, com multiplicidade de informações, visão sistêmica e holística que pode diminuir os acidentes e com eles um exército de mutilados, sem falar nos mortos. É preciso entender para poder explicar e educar. E é isso que necessita o conjunto homem, moto e sistema viário.

*  (Diagnóstico de lesões e qualidade de vida de motociclistas, vítimas de acidentes de trânsito. Rev Latinoam Enferm 2003; 11:749-56 SANTOS, Ana Maria Ribeiro dos et al. Perfil das vítimas de trauma por acidente de moto atendidas em um serviço público de emergência. Cad. Saúde Pública [online]. 2008, vol.24, n.8, pp. 1927-1938. ISSN 0102-311X)