Dia do Motociclista: há o que comemorar?

Há uma semana, dia 27 de julho, foi comemorado o Dia do Motociclista. Hoje a data mostra marcas inimagináveis há décadas, panorama que a frota, por si só, dá a dimensão. Assim como há anos não era prevista uma explosão do número de motos rodando nas ruas e rodovias, o mesmo não foi considerado para os demais veículos e, principalmente, na estrutura viária para absorvê-los. O resultado: tráfego saturado. Cada vez mais, menos espaço. E tolerância.

A questão extrapola o “físico” urbano, não planejado de acordo, e avança em altos graus no social. Nada disso é novidade, assim como os benefícios da motocicleta, que a elevou em tamanha preferência e, mais que isso, necessidade. Mas o contexto precisa, sim, de novos olhares, que possam enxergar acima do preconceito e generalização um problema social que é de todos e afeta todos.

As medidas que têm sido tomadas em relação aos condutores de motos demonstram o despreparo (ou falta de vontade?) em resolver situações que serão permanentes. Que exigem mais do que ações imediatas. Afinal, as frotas ainda vão crescer e outros problemas virão.

Em São Paulo, motos estão sendo proibidas de passar em vias importantes, obrigando o uso de atalhos, nem sempre viáveis. Justificativa: alto índice de acidentes. Em Limeira, as faixas de estacionamento de motos foram rapidamente banidas de perto dos bancos, mas pintadas em outros locais, bem longe dessas intituições, na área central. Literalmente: o motociclista precisa andar mais, ainda que seja cliente do banco ou de outro estabelecimento perto. Justificativa: altos índices de roubos e assaltos próximos a esses locais com indivíduos usando motocicletas.
Esses são exemplos mais gritantes de uma lista imensa e inexplicável, do ponto de vista lógico, como a de motofretistas usarem coletes com a placa da moto nas costas.

Que algo deve ser feito, está claro. No entanto, autoridades têm primado pelas medidas mais “fáceis” e “imediatas”, que se mostram totalmente na contramão de um equilíbrio. Explico: se a obrigação do poder de quaisquer esferas é buscar e implantar soluções para o bem comum (alguém lembra disso?), por que tantas medidas focam o motociclista, mas não especificamente o cidadão que, porventura, usa este veículo?

Pessoas que usam moto também usam carro. Há motociclistas com veículos que valem R$ 5 mil tanto quanto com os que custam R$ 50 mil. Há quem use a moto para roubar, e quem a use para trabalhar. Com carros, idem. Cabe, ao Estado, implantar ações que separem o joio do trigo. Ou seja: planejar medidas que punam criminosos, independente do veículo usado. E não pressupor o veículo, antes da pessoa, como vem ocorrendo.

Criminosos: tanto os que agem de má conduta no trânsito, abusando da segurança, quanto os que se valem do veículo para demais delitos. Não existe diálogo. As medidas citadas foram impostas. Não foram pensadas ou discutidas, coisa que uma democracia (?), minimamente, exigiria. Ainda que atentem contra o direito de ir e vir (no caso
paulistano) e de igualdade (no caso limeirense). Por que carro pode passar e moto não? Por que carro pode estacionar perto e moto não?
Pressupondo-se que condutores de ambos paguem seus devidos tributos, aonde está o problema?
Um motociclista é um motociclista, até que se prove que é um marginal.

Qual a diferença para um motorista? A índole e efetiva “culpa” devem ser divisores de águas em julgamentos, e não os veículos usados. É muito mais fácil pintar ou tirar faixas do que fiscalizar e punir quem realmente atrapalha. A alta em índice de acidentes envolvendo motos é sempre uma bandeira de defesa de medidas não refletidas a fundo. No entanto, as pesquisas não estratificam “causadores” dos acidentes que assolam tanto. Moto estar “envolvida” é uma coisa. Moto ter “causado” é outra. Para carros, idem. Mas nunca vamos saber se motociclistas são, de fato, maioria nessa culpa, enquanto as pesquisas não mostrarem. Será eterna a margem “virtual” para generalização?

A alta de crimes com uso da moto como veículo de fuga tem problemática idêntica. Não foi com capacete e jeans que ladrões levaram milhões em joias em shopping de luxo em SP. A roupa, assim como o veículo, não faz, necessariamente, o bandido. A intenção, sim, por trás de qualquer fantasia. Só que isso dificulta o trabalho de quem precisa garantir segurança. Por isso o equilíbrio está longe das decisões majoritárias, que precisam “agir rápido”, na tentativa de remediar problemas complexos que exigem planejamento. Resultado: medidas que jogam no patamar de bandido, ou inconsequente, uma classe inteira. Ainda que não seja, em tal extensão.

Quando os problemas do trânsito começarem a ser tratados pensando em (e dialogando com) cidadãos, em vez de “motociclistas” ou “motoristas”, aí sim, quem sabe, todos poderão ter o que comemorar.

Jornalista (MTb 56.157), motociclista e repórter da Gazeta de Limeira