Em busca da moto ideal: Scooters!

Em busca da moto ideal: Scooters!

Encontrar a moto ideal talvez seja uma das tarefas mais difíceis entre os motociclistas, mas algumas observações e novos conceitos podem ajudar na escolha.

Antes de começar, queria pedir desculpas aos leitores pela longa ausência. Desde minha última coluna “A Casa Caiu” publicada em meados de outubro se passaram 5 meses sem que eu publicasse aqui no Motonline uma única linha sequer. Razões para esse sumiço são muitas, mas nenhuma justifica o desapontamento dos leitores. Recebi dezenas de emails de amigos e leitores nesses meses perguntando sobre minha saúde, se eu havia mudado de site, se eu voltaria a escrever ou qualquer outro motivo que justificasse minha ausência. A verdade é uma só: faltou tempo! E faltou tempo para escrever, para andar de moto, para visitar amigos, para passear, para fazer qualquer coisa que não fosse trabalho, trabalho, e mais trabalho.

Eis que após o carnaval a carga de trabalho começou a diminuir e tive tempo para viajar um pouco, e com a cabeça mais livre ficou fácil voltar a escrever. Por isso eu queria compartilhar com vocês algumas observações recentes que talvez ajudem na escolha da moto ideal. Apenas para relembrar, quem acompanha minhas colunas deve saber que eu tenho uma imensa Harley Davidson Electra Glide 2006, e uma XT600E ano 2004 para passeios aqui na região de Resende, Penedo, Mauá e nas serras próximas. Quem leu as colunas “Comparativo: Moto grande, média ou pequena?” e “Mulher e motos: casamento difícil!” deve se lembrar das experiências e traumas com uma XTZ125 que comprei para minha mulher. Infelizmente meus planos não deram certo, minha mulher nunca se adaptou a altura da moto e acabei tendo que trocar por uma scooter automática (uma Yamaha Neo CVT zero km), jogando por água abaixo meus planos de ter uma parceira de trilhas. Pelo menos por enquanto. A vinda da scooter me aproximou de um mundo novo com um olhar diferente, e é isso que eu queria contar pra vocês.

Mas vamos ao que interessa: minha mulher amou a Yamaha Neo e me disse que nunca mais quer uma moto com cambio manual (!!!), só automática. Vocês devem estar pensando o mesmo que eu pensei quando ela me disse essa pérola. Moto automática! Que bobagem, quando ela aprender a andar melhor vai sentir falta das trocas manuais. Pensei eu no auge da minha sabedoria… ledo engano…

Com o brinquedinho novo em casa, peguei a Neo pra dar umas voltas e experimentar o cambio CVT. A primeira reação é “legal, funciona direitinho, mas a moto é meio fraquinha…” mas aos poucos fui gostando cada vez mais e também me apaixonando pela Neo. Minha experiência anterior com uma Suzuki Burgman e suas ridículas rodinhas tinha sido péssima, quase caí em uma curva cheia de buracos com a moto de um amigo, e em uma descida irregular cheia de solavancos me vi completamente “vendido” em cima da Burgman, sem nenhum controle. Rodinha pequena só em piso muito bom, mas muito bom mesmo! A Neo tem rodas maiores e isso faz TODA a diferença na condução da moto.

Minha esposa me pediu para colocar um baú na traseira da Neo, o que eu fiz, e assim ela passou a fazer supermercados e compras pra casa com a nova moto. Não sei ao certo a capacidade total de carga mas o espaço embaixo do banco e o baú traseiro parecem ser suficientes para todas as compras de mercado daqui de casa (somos nós dois apenas, sem filhos) e felizmente ela me parou de pedir para comprar um carro pequeno pra seu uso, algo difícil porque ela queria que fosse automático e não se encontra essa opção em modelos populares… Curiosamente meu pai trocou de carro recentemente e por insistência dela comprou um modelo automático. Está feliz da vida e os dois saíram para comemorar e o slogan “Cambio manual nunca mais!” virou o lema da dupla. Vá agüentar isso em casa…

Agora a pouco, em meados de março, consegui uns dias de férias e fui para Nova York com a esposa, e para pegar o avião no Rio de Janeiro acabei deixando meu carro na casa do meu pai, no baixo Leblon. Antes de viajar, saímos pelas ruas do bairro para resolver algumas coisas pequenas e notei a grande quantidade de scooters de boa marca espalhadas pelas calçadas, nas portas de lojas, supermercados, etc. O Rio de Janeiro é bem diferente de São Paulo em termos motociclísticos, quase não há motoboys e há poucas motos nas ruas. Só no centro da cidade em dias comerciais ou nos finais de semana, especialmente nas praias, é que vemos uma maior quantidade de motos circulando. Em bairros pequenos como o Leblon é raro ver uma moto passando, exceto as simpáticas scooters automáticas ou alguns raros modelos importados de grande porte. Pegamos o avião naquela noite e fomos para New York , lá chegamos com um tempo ótimo, sol todos os dias mas com muito frio, geralmente em torno de 5 graus. Talvez por isso vi poucas motos nas ruas, exceto mais uma vez as simpáticas scooters! Mas há uma grande diferença entre as scooters de Manhattam e as que temos no Brasil. Aqui predominam os modelos asiáticos com visual “jáspion”, como a própria Yamaha Neo, Suzuki Burgman, etc. Lá predominam os modelos Europeus com visual clássico, especialmente os italianos. Os motores lá também são maiores, geralmente 250cc. Mas o uso não é diferente. Executivos e executivas, gente bem vestida, gente com trajes esporte, gente fazendo compras, gente fazendo entregas, todo mundo usando as belíssimas scooters clássicas, todas automáticas. Me impressionou também a quantidade de acessórios vendidos exclusivamente para scooters, como os baús combinando com o estilo da moto (e cor), capas de chuva (que vestem o scooter inteiro), aparelhos de GPS, kits de som, muita coisa legal!

É moda ou é bom senso? Olhando friamente para as necessidades típicas de um motociclista urbano em regiões que não exijam altas velocidades, as scooters são incrivelmente versáteis. Não tenho certeza se ficaria a vontade com uma disputando espaço na marginal em SP ou em outra avenida de fluxo intenso e de alta velocidade, pelo menos não com uma scooter 125cc, mas com uma 250cc ou superior a história muda de figura. Mas em bairros, ou cidades pequenas, as scooters são ótimas soluções. Não é a toa que em minhas viagens para China, Taiwan, Japão e outras cidades asiáticas só vemos scooters nas ruas. É fácil encontrar um estacionamento com mais de 300 delas lado a lado.

Passei quase 10 anos da minha vida em cima de uma Honda Sahara 350cc como minha moto “faz tudo”, com ela ia ao trabalho, viajava, usava na cidade, etc, até que em 2005 me motivei a comprar uma moto “grande” e comprei uma Drag Star, que se transformou em um grande arrependimento. A Drag não é “grande” o suficiente para andar com garupa em viagens e descobri, após vários meses de observação, tentativas e erros, que os modelos “custom” tão populares no Brasil são completamente inadaptados para nosso piso, tornando as viagens com essas motos muito PIORES do que poderiam ser com uma moto tradicional ou de uso misto. As Customs são ótimas em pisos de boa qualidade, comuns nos EUA e suas grandes planícies, mas péssimas nas estradas esburacadas brasileiras cheias de quebra molas, e piores ainda nas cidades com trânsito intenso e asfalto ainda pior. Até com minha Harley, que é mais uma estradeira do que uma custom propriamente dita, eu sofro em certas viagens. A suspensão traseira a ar, apesar de confortável, tem curso curto e não absorve pancadas causadas por buracos nas estradas tão bem como uma moto de uso misto (como a Sahara) fazia. Isso sem contar com as curvas nas serras, onde é comum raspar o cavalete lateral. Se você pensar na moto custom com um motociclista solitário viajando com pouca bagagem até vá lá, mas com garupa e bagagem para dois… não dá.

Hoje estou chegando a conclusão que para as estradas brasileiras as melhores motos são as big e mid trails ou as motos no estilo GT (Gran Turismo) como as Bandit da linha S e algumas BMW que se adaptam mais ao típico asfalto brasileiro. E para as cidades, cada vez mais me convenço que as scooters automáticas são as mais adaptáveis e versáteis. O problema, e sempre há um problema, é que na minha opinião o modelo ideal de ambas categorias ainda não existe por aqui. Uma moto na faixa de 30 mil reais com características similares aos da Honda Transalp 700 (2 cilindros, vocação estradeira, boa potência, suspensão para terreno ruim), ou uma scooter de 250cc abaixo de 10 mil reais com desenho clássico, rodas não tão pequenas e cambio automático por enquanto são apenas sonhos distantes. Talvez um dia isso mude… talvez…