Era um garoto, que como eu...

Era um garoto, que como eu…

Era um garoto, que como eu...

Não, ele não morreu. “Só” quebrou a perna.

Mas não era qualquer um. Não pela ótica generalista. E quem não é?
Bem, foi um carinha. Poderia ter sido eu, ou você. Se fosse você não seria qualquer um, certo?

***

Virei a mesma esquina de todo santo dia e cruzei a mesma avenida. Algo diferente. Movimentação na calçada, vários garotos uniformizados. Logo pensei que não podia ser… aquilo não seria briga de moleques? Aparentemente um já estava no chão. E o resto só olhando?
— Que aconteceu?
— O cara caiu de moto.
— Caiu?
— É, estava empinando.
Cara de espanto.
— E a moto, cadê?
— Você viu? Nem eu.
É claro que não era habilitado e, segundo os curiosos, a moto estava sem placa. Era só um moleque. Que quebrou a perna. Algum vizinho piedoso chamou o resgate.

***

Não deu pra segurar o ímpeto do “bem feito, agora aprende”, apesar do trabalho eterno da tentativa de não desejar o mal aos outros. Mas quem deseja o mal? E quem o procura?
Pelo que disseram, o garoto subiu quase toda a rua empinando. Alguns só ouviram o estrondo. O que o levou a fazer isso? Pressão dos colegas? Excesso de segurança? Ou irresponsabilidade inata?

Fico imaginando que relação o moleque vai ter com as motos daqui pra frente. Vai procurar mais “emoção”? Vai passar a respeitar o poder mortífero do veículo? Vai ser mais um serial killer ou suicida nas ruas? Ou será um piloto que adquire consciência a custo do próprio sangue?
Sei que são muitas interrogações para um só texto, mas quem dissipa as interrogações quando vemos nas vias motos que viram entulho ou condutores que viram cadáveres, ou semi-cadáveres???

“Como pode?”, pensamos. Tudo pode, tudo podemos. A nosso favor ou não.
O garoto perdeu uma ótima oportunidade de, um dia, curtir a verdadeira emoção do passeio, da estrada, e não a de uma rua cheia de curiosos. Por enquanto, espero.