Minha Vida Numa Moto - Como montar um motoclube - Algumas dicas

Minha Vida Numa Moto – Como montar um motoclube – Algumas dicas

Eu havia falado na minha última coluna que trataria sobre roupas, mas diante de tantos pedidos sobre como montar um motoclube e coisas afins, resolvi, junto com a equipe do Motonline, entrar logo com um especial sobre o tema MOTOCLUBES. Vamos conhecer um pouco mais sobre motoclubes e um pouco dessa incrível história e algumas surpresas. Vamos, lá?

10º Abraçando o Rio Grande (RS)

Há quem prefira andar só ou não ser ligado a nenhum grupo, mas existem aqueles que desejam andar em grupo e desfrutar das vantagens de fazer parte de um motoclube. Antes é bom deixar claro que é necessário ter vocação para andar em grupo. Há regras e temos que saber andar juntos. O espírito de solidariedade, comunidade e convivência são fundamentais para quem deseja vestir essa camisa. Alguns não se adaptam aos horários de saída e chegada, formação, esperar por alguém que se atrasou ou que teve problemas, enfim, deve entender que o problema de um pode ser de todos também. E, principalmente: ter muita paciência e bom humor.

O mesmo vale para as vantagens e elas são muitas. A primeira refere-se a segurança. Em grupo os riscos de você não ser visto ou de ser assaltado são bem menores. Outra vantagem está nos custos com hospedagem que caem consideravelmente e você ainda não tem o aborrecimento de ficar procurando hotel que aceite a sua moto no estacionamento. Comprar em grupo é também uma vantagem que os grupos de motociclistas possuem em relação a quem anda sozinho e claro, o espetáculo que é entrar numa cidade em grupo. As portas se abrem muito mais facilmente para um grupo do que para um motociclista solitário.

E como montar um motoclube?

É importante que você saiba que existem vários tipos de formação de grupos. Existem as confrarias, as irmandades, os motogrupos e motoclubes.

As Confrarias

Brazil Rider´s - Com 'Z" mesmo 

Brazil Riders é um grupo do qual também faço parte. As confrarias são formadas por pessoas que utilizam o conceito de grupo para obter vantagens quando em viagens. Segundo o dicionário, são formadas pelo conjunto de pessoas que se associam (como irmãos), tendo em vista interesses e objetivos comuns. Uma delas é o Brazil Riders. Os Riders não são um motoclube, mas operam através do conceito de que um BR rodando no Brasil tem o apoio dos BRs estaduais. Eles se organizam na forma de Conselheiro, Master e o membro. Essa formatação é interessante, pois além de fazer amigos e poder gozar de suporte de outros motociclistas em outros estados eles ainda podem seguir suas próprias regras de horário e tempo de viagem, além de não pagar mensalidade.

Segundo relatado no site oficial dos BR´s  foi por volta de 1998, o popular Gau (João Gonçalves Filho) em suas andanças pelo Norte do Brasil, recebeu apoio do motociclista Aires do Amaral, quando de sua passagem pelas péssimas estradas da Região Amazônica. A partir desse episódio, Gau sentiu necessidade de criar uma rede de apoio aos motociclistas viajantes, algo sem qualquer preconceito com relação a estilo ou tamanho da motocicleta e poucas regras, afinal essas são detestadas pelos motociclistas, pois moto é um dos símbolos mais representativos da liberdade, ainda segundo o site.

Além de apoio, Gau costuma dizer que “Não tente consertar o mundo com sua moto, seja apenas um canalha a menos…”, ou seja, nascia a concepção e filosofia do Brazil Rider’s como a conhecemos atualmente, focado no “motociclismo de viagem” através do objetivo principal: “possibilitar ajuda mútua aos motociclistas em viagem pelo Brasil e Exterior, através dos seus integrantes cadastrados no site”, porém, não necessariamente atrelado a isso para interagir interna e externamente.

Decorridos cinco anos e quatro Convenções Nacionais (Juatuba-MG, Vila Velha-ES, Guarujá-SP e Campina Grande-PB), com nova estruturação de lideranças, dentre esses os Conselheiros Estaduais e com cerca de 3.000 integrantes, o Brazil Rider’s transformou em realidade o sonho do seu idealizador, dando apoio virtual ou pessoal a inúmeros motociclistas em viagem, se confraternizando mutuamente nas suas localidades ou Estados e conhecido além do Brasil, afinal, seu nome (com “z”) foi concebido para isso.

As Irmandades

O maior do Brasil em quantidade de membros 

O Bodes do Asfalto é baseado na maçonaria. Existem ainda as irmandades as quais, segundo o dicionário, são formadas em cima de objetivos  fraternos, ou de similaridade entre irmãos, companheiros de classe, credo etc. (nada a ver com racismo ou coisa semelhante). Esta definição pegou, em parte, um cunho preconceituoso por conta de irmandades popularmente sectárias e exclusivistas, por que não dizer aquelas que fazem apologia ao racismo. O conceito irmandade, na sua essência é uma das mais bonitas e significativas formas de se organizar um grupo, desde que seja para o bem comum.  Estes são formados por motociclistas de uma determinada classe social. Apesar de adotar o formato Motoclube, o Bodes do Asfalto é na realidade uma irmandade, pois segundo sua história, publicada no site oficial, o Moto Clube Bodes do Asfalto foi idealizado por Edson Fernando Sobrinho, sendo fundado em 01 de agosto de 2003,  e está sediado na cidade Feira de Santana – Bahia e possui representações em diversas cidades do Brasil e no exterior. A ideia do motoclube surgiu de conversas entre Maçons integrantes da lista de discussão Atalaia, sendo inicialmente planejado para apoiar os Maçons Motociclistas, os quais, quando em viagem, viessem a necessitar de algum tipo de ajuda, o “Moto Clube” aproximaria, através da fraternidade, os irmãos motociclistas com os irmãos das cidades onde ele passará.

Os Motogrupos

Liderado pelo Professor Maurício - Grande Mestre 

A figura do presidente não existe. Mas do líder. Os motogrupos podem possuir ou não estatuto, nem classe social, preferência por determinadas cilindradas ou regras de formação. O foco deles é sempre a amizade e a tradição. Eles geralmente possuem uma liderança informal e quase vitalícia, geralmente ocupada por pessoas mais antigas ou experientes. A figura do presidente não existe. Geralmente o líder é chamado de ‘professor’ ou ‘mestre’ e isso é uma forma do grupo valorizar a tradição e o respeito pelos vários anos e milhares de quilômetros rodados. A liderança pode ser abdicada em favor de outro a ser escolhido pelo grupo, mas geralmente isso não acontece, pois este princípio – o da tradição e da experiência – são os que mais importam. Apesar disso, os MGs são muito organizados e influentes, pois são formados geralmente por ex-integrantes de outros MCs.

O FOX Motogrupo é um deles. O grupo foi formado em janeiro de 2000. Os participantes do Fox são ex-integrantes de outros motoclubes como Socyte Motocycle, Gênesis, Esquadrão do Asfalto e Grupo de Amigos Motociclistas do Ceará – GAMCE. Os fundadores do Fox (Maurício Ibiapina, Marco Fábio, Gomes e Joaquim Neto) desejavam que o seu grupo fosse mais do que um motoclube, deveria ser um grupo de amigos. Uma das características dos fundadores é a longevidade da amizade de seus integrantes, pois alguns são amigos desde a Década de 70’.

Juntos com a turma do FOX com o Professor nos braços

Segundo Maurício, o líder do grupo, o estatuto demorou cerca de dois anos para ser concluído, pois não tinha pressa e sempre tinha algo a ser discutido. Inicialmente a ideia era a de fazer um grupo fechado, mas acabaram decidindo aceitar novos integrantes, isso depois que o novo integrante passar por um bom período de observação. A ideia não é de quantidade, mas sim de qualidade. Hoje o grupo conta com mais de quatorze integrantes.

O dia de encontro semanal do grupo é nas quarta feiras, mas sem local definido. A sistemática para a escolha é bem interessante: cada integrante, por ordem alfabética, escolhe o próximo encontro, desde que tenha participado do encontro anterior. Dessa forma todos ficam satisfeitos. Inicialmente o encontro era às quintas, mas Maurício ( O Professor) ressalta que ficar em um local só, normalmente churrascarias, acabou não dando certo, pois no começo o atendimento é uma maravilha, mas com o tempo a qualidade do serviço vai caindo, dessa forma a regra é variar.

Mauricio conta que o grupo viaja bastante e que as viagens são escolhidas aleatoriamente, não existindo uma agenda a ser cumprida, depende da disponibilidade de tempo de cada um. Para ser parte do grupo é necessário primeiro um “estágio probatório”, sem tempo determinado, pois é necessário conhecer o comportamento no grupo do novo integrante, e, a melhor forma, segundo Maurício, são as viagens. Caso este seja casado, a esposa também é convidada a participar e fazer parte do grupo, pois todos devem ser conhecer e ter bom relacionamento. O grupo é bem rigoroso nesse aspecto, pois, segundo eles, assim se mantém a qualidade.

Os Motoclubes

Os motoclubes são entidades sem fins lucrativos geralmente organizados com base em um “Estatuto” ou “Organograma”, onde são definidas a sua denominação, sede, patrimônios, e os representantes, como presidente, vice-presidente, diretor regional, secretários, tesoureiros, diretor financeiro, diretor de eventos, entre outros, além de definir as funções de cada um perante a associação. Um estatuto que dita as regras do moto clube e que devem ser seguidas por todos os seus afiliados.

Uma grande família

Filosofia AMA, mas cara de OUT OF LAW

Voltando de São Paulo, onde estava morando havia cerca de cinco anos eu levei junto minha moto echegando a Fortaleza, Ceará, decidi que iria criar um MC. Na mesma época eu estava lendo um livro chamado Guerreiros do Sol, de Frederico Pernambucano, um especialista na história verdadeira do cangaço e a sua originalidade no mundo. Nada existe de igual! Pernambucano consegue traçar pelas mais de 300 páginas de seu livro o perfil do cangaceiro que muito se assemelha a um Ronin. Os Ronins viviam no Japão da Idade Média e eram samurais sem dono. Excelentes guerreiros e mestres, os Ronins eram quase que sagrados. No Brasil, mais precisamente no Nordeste, na área que abrange boa parte dos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, os Guerreiros do Sol reinaram soberanos por muitos anos.

O ponto de partida eram os detalhes da indumentária, o isolamento do Nordeste Brasileiro no início do Século XX e a forma como se organizavam. Ficamos fascinados com tudo que lemos a ponto sugerir batizar o MC com o nome de Guerreiros do Sol. O perfil, as motivações, as verdades e mentiras daqueles que fizeram da região aonde a lei não chegava e o senhor era chamado de coronel: A Terra dos Guerreiros do Sol. Decidimos então homenagear a cultura deixada por eles: o xaxado, as roupas, o conhecimento, as táticas de guerrilha (utilizadas hoje por nossos militares, inclusive contra guerrilha urbana), a inteligência, a teimosia em sobreviver e viver em um ambiente hostil, diferente de tudo no mundo. Sua poesia, seus perfumes, bebidas, amores, código de honra e encantos. Sua coragem! Uma das motivações que nos levaram a fazer essa homenagem foi ter a honra de relembrar um pouco dessa história carregando na motocicleta a marca daqueles que sempre foram Guerreiros do Sol. Gostemos ou não, essa é uma parte muito rica da nossa história, que resgatamos sem os preconceitos do passado. Existe uma unidade do Exército Brasileiro (Batalhão de Caatinga) cuja a indumentária é basicamente a utilizada pelos cangaceiros e eles desfilam no 7 de Setembro e são muito apaludidos.

A logo que foi criada e junto com ela toda uma programação visual, tinha como objetivo montar um MC modernizado, porém respeitando as tradições dos bons motoclubes sem perder a cara Out of Law, mas dentro do espírito AMA-US.  O MC começou com quatro pessoas: Sucupira, Valdemar, Ivan e Danilo e hoje são 18. Os quatro motociclistas nutriam, além da paixão pelo motociclismo, o desejo mútuo de reunirem um grupo de amigos para passeios e viagens de moto, a partir de uma lista de proprietários de motos Mirage da Kasinski (na época), e assim nos reunimos e então formamos o núcleo fundador de um motoclube que foi fundado oficialmente em 15 de dezembro de 2004.

Na estrada

A reunião era semanal para falar de amenidades, contar histórias, falar de motos e organizar próximas viagens. Em 2005 os Guerreiros do Sol fundaram na cidade de Iguatu – a 380 km de Fortaleza – a primeira facção de um motoclube da história do Ceará. Os poucos integrantes formaram uma família. Fizeram uma grande festa de aniversário – coisa inédita na época em se tratando de MCs de capitais do Nordeste. Apareceram em vários programas de TV e em um deles entraram ao vivo, no estúdio, com a apresentadora na garupa. Participam de todas as campanhas que surgem: filantrópicas, campanhas de educação no trânsito, educação sexual, Fortaleza Motorcycle, doação de sangue, etc. Fizeram um mini-encontro para batizar a facção que era formada por outros grandes motociclistas do local e que fechou o ano com chave de ouro, com a doação de 600 brinquedos e 80 cestas básicas a famílias carentes e abrimos o desfile militar do ‘7 de Setembro’ a convite do Exército Brasileiro, pois boa parte dos Guerreiros do Sol havia servido a esta arma. Esta foi a primeira vez que um MC fez isso no Brasil.

Pelas estradas do NordesteUma das marcas dos Guerreiros do Sol sempre foi a organização e a disciplina nas viagens em grupo. A formação era impecável até mesmo para estacionar e sair com as motos. Chamava a atenção e havia todo o cuidado de fazer muito bem feito a ponto de o grupo dar nota para a formação. As mulheres eram um capítulo à parte e são chamadas de Amazonas. Elas ajudavam na recepção de todas as garupas que chegavam com os novos membros. Éramos um grupo formado por casais de motociclistas, tanto que fizemos uma Guerreira do Sol, a Graça, esposa do Guerreiro Pablo. Uma curiosidade: Nos Abutres, as garupas são chamadas de carniça… Acredito que há um duplo sentido nesta nomenclatura (risos).

Todo mundo pára para ver um comboio passando

A marca do MC guerreiros do Sol foi criada a partir de uma pesquisa visual que tinha como objetivoidentificar elementos que permeiam duas culturas aparentemente incompatíveis: a Cultura do motociclismo e a cultura nordestina. Durante a pesquisa foi percebido que estes dois ambientes tem alguns elementos semelhantes.  A caveira que faz parte da marca e é um elemento comum à cultura do motociclismo, ganhou um chapéu de cangaceiro como característica nordestina e os pistões representam as motocicletas e sua força. Todos estes elementos ganharam um traço rústico e típico da arte nordestina que é a xilogravura. O círculo amarelo no fundo representa o sol que faz alusão ao nome do motoclube e por ser a luz algo marcante no Nordeste e nas suas estradas.  O design do site também buscou elementos de interseção entre Nordeste e Motociclismo – o asfalto de primeiro fundo e o couro cru, típico das roupas dos cangaceiros como segundo fundo.

Motoclubes: uma tradição de quase 100 anosO MC desenvolveu estatuto, manual de deslocamento e manual de identidade visual  e ainda realizavam periodicamente provas para avaliar os conhecimentos a respeito do estatuto, das regras e normas de segurança, leis de trânsito e deslocamento em grupo, inclusive relacionamento interpessoal. Para ser um Guerreiro do Sol era necessário antes passar por uma etapa de avaliação que durava no mínimo seis meses. Primeiro era necessário vir apresentado por outro Guerreiro batizado. O pretendente ou aspirante recebia o nome de Jagunço. Seis meses depois seu nome será posto em votação e se aprovado por unanimidade ele seria aceito como apto a ser batizado e nesse período era um ‘Cabra da Peste’. O batizado sempre ocorre na data de aniversário do MC ou em uma ocasião especial como o aniversário da Facção. O batismo é feito pelo padrinho que pede que seja lido o juramento o Guerreiro do Sol que é: “A estrada como história. O Céu como testemunha. O horizonte como desafio. A vida como um prêmio de Deus.” Depois disso derramam cerveja na cabeça do novo Guerreiro.

Unidos na Copa do Mundo

Mesmo adotando todo cuidado de andar em formação, usar corretamente os equipamentos de segurança, de cuidar do companheiro que está atrás (o ala) e não termos registrado nenhum acidente em viagens oficiais do MC, perdemos o irmão Thelmo Maia Nunes em um acidente na BR 116 onde ele foi colhido, viajando sozinho, por um carro vindo na contra-mão. Abatido o grupo tratou de homenagear o companheiro que era professor universitário e preparador de atletas olímpicos de Iron Man Brasil. Thelmo era apaixonado por motos, tanto que morreu indo em viagem a trabalho quando fiscalizaria uma turma de pós-graduação em Russas, Ceará.  Os Guerreiros do Sol e todos os MCs e MGs de Fortaleza organizaram um cortejo, em formação de escolta com apoio de viatura do Batalhão de Choque e da P.R.E (que sempre foi apoiado pelos MCs nos seus eventos, pois alguns policiais são motociclistas). No momento da descida do caixão todas as motos foram ligadas e realizamos um minuto de aceleração máxima numa última homenagem ao Guerreiro Thelmo que deste dia em diante recebeu o nome de Guerreiro do Céu. O MC hoje está em fase de reformulação devido a falta de tempo por parte da maioria dos seus membros para dedicarem-se as coisas do MC, fruto desta vida louca que vivemos. Porém, o espírito e a amizade continuam as mesmas. O glamour dos MCs pode até estar diminuindo, mas não a vontade de andar junto.

Uma paixão por motos e pessoas. Na garupa: minha Maria na viagem ao I ENM na Shadow 750cc cedida pela Honda Se você está pensando em organizar um grupo de motociclistas veja a documentação que disponibilizei em anexo – estatuto, manual de deslocamento e o manual de identidade visual da marca. Lembre-se que a motocicleta é a ferramenta que nos une e nos aproxima chegando quase a nos apresentar para sermos amigos.  O motociclismo em grupo ainda é uma das formas mais legítimas de expressar o espírito estradeiro. Ainda hoje quando vejo um grupo passar em formação não posso deixar de me emocionar a ponto de sentir um friozinho na espinha com vontade de estar no meio daquele burburinho de emoções.

 

Obs.: Para facilitar a discussão sobre esse assunto, além da área de comentários abaixo, criamos um tópico no fórum para os motonliners que preferem este formato. Clique aqui para acessar o tópico.



Motociclista desde os 18 anos. Jornalista e apaixonado por motos desde que nasceu.