Aqui sim, a pista, é o lugar para testar limites

Vamos evoluir junto com as motos

Texto de Dudu Costa Neto

Amigos: infelizmente, temos nos deparado com tristes notícias sobre motociclistas envolvidos em graves acidentes. Venho participando de muitas conversas sobre quais seriam os motivos. Afinal, o que poderíamos fazer para diminuir estes índices?

Não se arrisque: este não é um bom lugar para acelerar (foto: Bitenca)

Não se arrisque: este não é um bom lugar para acelerar (foto: Bitenca)

Há muito tempo, existe a migração dos pilotos de rua para as pistas – ou para “track days”, ou mesmo para ingressar em campeonatos de Motovelocidade. Por inúmeras vezes, abordei o tema com muita felicidade, pois o autódromo realmente é o lugar certo para “abusar” das motos de alta performance.

A maior premissa, ao subir em uma motocicleta, é ter respeito por ela, ou seja: conhecer seus limites, características, analisar sua melhor forma de uso. Observo que, com a evolução tecnológica das motos, esse respeito vem diminuindo absurdamente. Hoje, as motocicletas estão infinitamente estáveis, os freios são altamente eficientes, os pneus são fabricados com máxima aderência, há controle de tração, ABS, suspensões impecáveis, enfim… A moto atual praticamente faz “quase” tudo sozinha.

Seria loucura, da minha parte, criticar a qualidade das motocicletas atuais. Ao contrario: só há elogios a fazer à indústria das duas rodas. O que quero criticar é a forma como muitos vêm lidando com esta evolução. A maioria dos motociclistas está abusando da tecnologia e da capacidade de pilotagem das motos. E o pior: atribuindo a qualidade dos feitos à sua capacidade de conduzir uma máquina esportiva. Não quero tirar o mérito de nenhum piloto e nem justificar acidentes. Só gostaria muito de ver os motociclistas terem mais respeito por suas motocicletas.

Aqui sim, a pista, é o lugar para testar limites - foto: divulgação

Aqui sim, a pista, é o lugar para testar limites - foto: divulgação

Lembro da chegada das Superesportivas de mais de 140 cavalos na década de 1990: elas impunham respeito, não eram motocicletas fáceis de pilotar. Eu era capaz de ouvi-las dizer “Cuidado comigo! Me respeita, senão eu te jogo no chão!”. A potência não era linear – muitas motos despejavam mais 50 cavalos em apenas 1500 rpm – uma verdadeira patada. O conjunto “suspensão e pneus” já mostrava sinais de falta de estabilidade na primeira “abusada” que o motociclista desse… Portanto, a geração anterior das motocicletas esportivas impunha respeito, exigia ser tratada com conhecimento, prudência e carinho. Para colocar uma motocicleta desta geração nas pistas, era necessária uma preparação colossal, absolutamente tudo devia ser mudado, principalmente, para que o freio e a suspensão não fatigassem na segunda volta.

As motocicletas esportivas da nova geração estão prontas: elas têm tudo do bom e do melhor para proporcionar muita diversão e performance na pista, o que não esta ocorrendo com muitos de nossos candidatos a piloto. Sinto não estarem prontos para tanta velocidade… É aí que reside o nosso grande problema. É fundamental o conhecimento técnico, saber o que é a pilotagem, como ultrapassar, como fazer pêndulo, o que é uma tangência, frenagem e, principalmente, quais são os limites, pois, como as motocicletas de hoje são fáceis de pilotar e transmitem muita segurança, acabam levando até os mais comedidos a abusar.

Pilotar também se aprende na escola - foto: divulgação

Pilotar também se aprende na escola - foto: divulgação

Creio que a Confederação Brasileira de Motociclismo deveria normatizar os “track days” e campeonatos. Para ingressar em um evento, o candidato deve receber uma formação, deve fazer um curso homologado e, a partir daí, ser credenciado e estar apto a participar. Desta forma, certamente, seriam poupadas, além de tristezas e frustrações, vidas.

Nos eventos que aconteciam há mais de dez anos, existia uma grande rigidez e burocracia para ingressar na pista. Antes chamados “racing days”, tinham exame médico, aula básica, instrutores na pista (com o intuito de assegurar que a diversão não virasse um pesadelo) e era exigida a carteirinha da CBM em um campeonato. E esta carteirinha só era emitida com o aval da Federação Estadual e de uma escola homologada. O que aconteceu? O lado comercial falou mais alto? Por quê?

Como sabemos, mesmo os campeões mundiais, “feras” na pilotagem, acabam indo ao chão em motocicletas perfeitas. No caso, entra a segurança passiva, ou seja: os equipamentos de primeiríssima linha (capacetes, macacões, botas, luvas e protetores de coluna) que amenizam as consequências de acidentes inevitáveis.

Outra forma de segurança passiva, já empregada há mais de 20 anos em competições pelo mundo afora, é o Airfence, nada mais que um colchão de ar instalado em pontos de maior risco de impacto nos autódromos. Eles têm a função de absorver os choques. É uma grata surpresa saber que já está presente no Brasil, mesmo sabendo que somos um dos últimos países do mundo a receber esta antiga solução. Resta, agora, cobrar que sejam usados em “todos” os eventos envolvendo motocicletas no país. Afinal, não há nada que justifique a falta de segurança!

Espero que os leitores e amigos respeitem seus próprios limites, procurem sempre aprender sobre o mundo das motocicletas e coloquem a segurança em primeiro lugar. Esta é a fórmula para que possamos, por muitos anos, desfrutar dos prazeres que o universo das duas rodas pode proporcionar. Vejo vocês na pista!

 

Texto de Dudu Costa Neto, publicado na revista Moto Adventure do mês de agosto/2013

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