Junior e o sonho realizado

Vou ali e já volto!

Texto de Junior Batista

Antes mesmo de eu comprar a minha primeira moto, sempre estava buscando informação aqui e ali sobre qual modelo eu gostaria de comprar. Você sabe que quem procura acha e antes mesmo de eu decidir pela minha primeira moto eu vi uma foto de uma tal serra. Cliquei na imagem e entrei no site. O título da matéria era o nome daquela foto: Serra do Rio do Rastro.

Junior e o sonho realizado

Junior e o sonho realizado

Lembro até hoje o encanto em que eu me vi mergulhado ao olhar todas aquelas curvas de concreto por entre o verde imenso da serra. Não precisa muito para se questionar como um lugar pode ser tão bonito. Claro, você pode dizer que existem outros lugares muito mais bonitos. Pode até ser, acredito também, mas foi aquele lugar, aquela serra que acendeu em mim o poder do “eu posso”.

Os anos passam!

Depois de ter lido bastante coisa sobre aquela serra e saber que ainda me faltava a moto, voltei meu foco para o que eu mais desejava naquele momento e guardei a serra, só um pouquinho, em uma das minhas caixinhas de lembranças. Então depois de um bom tempo brigando comigo mesmo para decidir o que eu queria, comprei minha primeira moto. Uma Yamaha Fazer 250 zero km.

Raros momentos de sol naquele outubro de 2012

Raros momentos de sol naquele outubro de 2012

Sabe criança quando ganha um presente e não quer largar, vai dormir desejando que amanheça logo só para poder brincar novamente? Então, foi assim com minha Fazer. Grande parte de tudo que aprendi sobre andar de moto, motociclismo e, porque não, três tombos  – (ainda bem que o maior deles eu estava a 40 km/h apenas) – foi com aquela moto. Posso dizer, claramente, que só tive alegrias e aventuras com ela.

O painel da Bandit mostra o caminho para ir ao encontro do sonho, além do erro de velocímetro

O painel da Bandit mostra o caminho para ir ao encontro do sonho, além do erro de velocímetro

Depois que a euforia da minha nova moto passou e de já ter andado muito pelos quarteirões do meu bairro eu precisava ir mais longe. Afinal, muito antes da minha primeira moto, já havia despertado em mim o motociclista que a gente leva tempo para ser, para entender e até mesmo para praticar. E eu estava em um momento em que o tempo para ser, o tempo para entender já tinham sido concluídos e eu tinha começado a parte prática da coisa.

Como todo bom ser humano que sempre acha defeitos em tudo e até mesmo naquilo que tem, eu comecei a achar desculpas para trocar minha moto. Coisas como ela não anda tanto assim, não tem força, conforto e etc.

Tempo chuvoso e frio, mas com excelente comida

Tempo chuvoso e frio, mas com excelente comida

E quando as desculpas aumentam, o melhor mesmo é criar condições para mudar o que você já não acha tão bom. Como eu já tinha um belíssimo papel de parede no meu computador que mostrava uma Suzuki Bandit 1250 eu, pelo menos naquele momento, já tinha algo para me inspirar. Felizmente, depois de três anos sonhando, eu consegui o que eu determinei como algo para fazer todas as viagens que eu queria. Em 2010, quatro anos depois da minha Fazer, a minha “Banditera” tinha chegado!!

Não vou nem descrever novamente a alegria da criança adulta que senti e nem a do meu primo que parecia mais feliz do que eu, mas foi assim que a gente ficou. Como duas crianças!

Pomerode, a mais alemã das cidades brasileiras

Pomerode, a mais alemã das cidades brasileiras

O planejamento!

Mas, e a serra? E aquele lugar que eu gostei tanto? Como faço para chegar até lá? Como faria eu então para andar mais de 1.000 km até a Serra do Rio do Rastro? Já com a moto dos meus sonhos e a experiência necessária ao “guidão” eu queria ir mais longe, ser um verdadeiro motociclista que vai em busca do horizonte, reconhecer o verdadeiro sentido do dizer: “Sem pressa de chegar”.

Então voltei lá atrás quando tudo começou e abri minha caixinha de lembranças. E por sorte todas as imagens e sensações da serra que eu tanto gostei estavam intactas. Pareciam ter esperado por mim desde o início. Só que dessa vez tinha um lembrete lá que dizia: – E aí, vai encarar? Vai deixar as desculpas de lado e fazer o que realmente deseja?

No caminho, Jaraguá do Sul é um dos bons lugares pra se ficar... e gostar

No caminho, Jaraguá do Sul é um dos bons lugares pra se ficar... e gostar

Confesso ter ficado envergonhado em ler essa minha mensagem me colocando contra a parede. Juntei um pouco de desculpas, mas eram tão esfarrapadas que não tinha mais jeito, agora era Serra do Rio do Rastro ou nada! Chamei a minha garupeira fiel de lado e disse: – E aí vamos!?

Essa pergunta ainda tinha algum pretexto de que era pra eu deixar esse história de lado. Mas, a resposta foi pronta, clara e objetiva: – Vamos, demorou! Agora sim, a coisa ficou séria!! Se a garupeira vai, então tenho que mostrar quem veste as calças por aqui, mesmo sendo ela quem passa!!

Comecei então a programar as coisas. Pesquisar daqui e dali, blogs e mais blogs com informação das estradas, tempo, horários e por aí vai. Compramos tudo igual, guardadas as devidas proporções de modelo feminino e masculino é claro. Então apertamos daqui e esprememos dali e aos poucos tínhamos tudo: calça e jaqueta de cordura, luvas, botas, GPS e um intercomunicador.

Esse último item, se você for viajar com garupa, acredito ser essencial. Afinal de contas, você não vai ali do lado fazer alguma coisa, vai bem longe e a comunicação é vital. Bom, tudo pesquisado e aprontado. Então era hora de partir! Data limite: Férias 2012!

A realização

Caminhos lindíssimos e paisagens de tirar o folego: alimento para a alma

Caminhos lindíssimos e paisagens de tirar o folego: alimento para a alma

Em outubro de 2012 quando minhas férias e a da garupeira chegaram, também tinha chegado a hora da viagem. Por quase duas semanas no início de Outubro de 2012, choveu muito. E com isso sempre volta, no sempre ser humano, aquela coisa “e se a gente deixar pra lá!?” Mas a garupeira sempre bota pilha nas coisas e me empurra para o salto definitivo que às vezes eu teimo em recuar. E então fomos!

Era uma manhã de quinta-feira. Deixamos o pedreiro dando cabo da nossa casa que ainda ia começar a ser construída (tentei usar essa desculpa e não colou) e saímos rumo ao primeiro trecho: Curitiba! Quando saí com a moto, já bem amarrado, com toda aquela roupa, GPS acoplado ao capacete, mais intercomunicador e as malas laterais e a “mala da garupa” quer dizer, minha garupeira, percorri um caminho já comum para mim, de vários outros passeios que tinha feito, mas dessa vez foi diferente.

Saí da minha casa e fui em direção a Rodovia Índio Tibiriçá, pois escolhemos ir pelo litoral, passando por Peruíbe, até Curitiba. Conversa vai, conversa vem e bem alí, na Rodovia Índio Tibiriçá, eu me vi arrebatado por um sentimento que poucas vezes havia sentido. E nem sei se das vezes anteriores foi igual. Mas, um sentimento de realização, de missão cumprida, antes mesmo de começar, de satisfação e sim de liberdade bateu direto no meu peito.

Eu senti como se tudo aquilo que nos amarra no dia-a-dia tivesse ido embora, como se as desculpas para privar-se de fazer aquilo que se tem vontade não tinham nenhum peso sequer e eu podia ser aquilo que eu queria e fazer o meu caminho como sempre desejei. A voz ficou embargada e eu tive que fazer uma força para que aquela lágrima do canto dos olhos ficasse lá.

Finalmente eu estava livre de verdade e indo ao encontro do meu sonho!

A pousada Max: descanso é aí mesmo

A pousada Max: descanso é aí mesmo

A garupeira perguntou sobre o silêncio e eu, “macho”, disse: – Nada. É esse intercomunicador que tá zuado.

Bom, enfim continuamos com a viagem seguindo até Peruíbe para alcançar a BR-116 até Curitiba. Chegamos em Curitiba já ao anoitecer, pois saímos um pouco tarde de casa e foi por lá que tivemos nossa primeira noite de descanso. Na manhã seguinte seguimos para a cidade mais alemã do Brasil que é Pomerode (SC), distante cerca de 200 km de Curitiba. Passamos por Joinville e Jaraguá do Sul. Em Pomerode ficamos um dia inteiro, curtindo a cultura e beleza do local. Nos hospedamos na Pousada Max que é uma construção nos moldes da arquitetura alemã de alguns séculos atrás e quase toda sua estrutura é em madeira.

Se você não exige muito luxo, mas sim um lugar confortável e aconchegante para descansar, então aqui fica a dica. Aproveitamos também para dar um pulinho na Oktober Fest em Blumenau-SC, que fica bem próximo de Pomerode, distante cerca de 30 km. A Oktober Fest é uma festa muito bonita. Para quem gosta de uma boa cevada lá você pode encontrar cervejas de vários tipos, desde artesanais até aquelas importadas que valem uma boa quantia em dinheiro.

Pequeno trecho do "sonho": Serra do Rio do Rastro, Junior Batista e a Bandit, uma relação eterna de amor... sem esquecer da garupeira, que fez a foto, claro!!!

Pequeno trecho do "sonho": Serra do Rio do Rastro, Junior Batista e a Bandit, uma relação eterna de amor... sem esquecer da garupeira, que fez a foto, claro!!!

Na manhã seguinte a moto não teve descanso novamente, o destino agora era Urubici-SC. Então para alcançá-lo passamos por Balneário Camboriú, Florianópolis e em seguida seguimos pelo encanto que é a BR-282 até chegar em Urubici. Uma coisa eu devo dizer com toda sinceridade; caso sigam para algum lugar no sul do Brasil, passem pela BR-282; é simplesmente uma estrada linda. É de uma beleza que um relato, seja ele qual for, não traduz como é estar lá.

Em Urubici ficamos por dois dias recuperando as energias para a tão aguardada Serra do Rio do Rastro. Ficamos na Pousada Arcanjo Rafael que é simplesmente excelente. É impossível não conseguir descansar naqueles quartos com uma das camas mais confortáveis que eu já dormi. Durante esses dois dias só conseguimos tempo razoável na metade do primeiro dia. Depois foi chuva e frio sem parar.

Na segunda-feira, no quarto dia da nossa viagem, ainda estava um pouco frio e garoando, mas motociclista de verdade anda com qualquer tempo e já tínhamos pego chuva, neblina e calor, portanto, não ia ser a garoa e o frio que iriam nos parar. Como a região Sul possui clima inconstante, saímos cedo para evitar neblina ao chegar na Serra do Rio do Rastro e poder vislumbrar toda sua beleza através do mirante em Bom Jardim da Serra, distante 70 km de Urubici.

O frio e a garoa nos acompanharam boa parte do caminho até a Serra do Rio do Rastro, mas já bem próximos da Serra, no Portal de Bom Jardim da Serra a garoa parou e ficou só o vento frio. Andamos mais um pouco e então pudemos ver o mirante a nossa esquerda. A Banditera foi como uma rainha andando bem vagarosamente até a extremidade do mirante. A garupeira desceu da moto, depois eu desci e nós dois fomos até o mirante e olhamos juntos para aquela incrível imagem que é a Serra do Rio do Rastro e dissemos juntos: – Chegamos!!

Oktoberfest: festa e cerveja para todos os gostos

Oktoberfest: festa e cerveja para todos os gostos

Algo tão contagiante que o meu sonho se tornou o sonho da garupeira e juntos realizamos essa incrível viagem.

Agora eu não a via mais pelo computador, mas tinha ido buscar com meus próprios olhos. Agora tenho ela guardada do jeito que eu vi e senti e em um lugar onde somente eu posso visualizar. Aquilo tudo é incrível. O tamanho, a imensidão, o silêncio e a realização!

Por isso, eu insisto: VÃO!! ONDE QUISEREM IR!

Arrumem como desculpa somente o tempo para se programar, não digam que sua moto não chega, que o tempo não está bom o suficiente ou que não pára de chover. Simplesmente realizem aquilo que somente essa vida pode lhes dar!!!

Obs.: Depois de alguns meses, relembrando a nossa viagem, eu contei para a garupeira a verdade sobre o meu silêncio na Rodovia Índio Tibiriçá!

Junior Batista é um paulista entusiasta das motos e da fotografia. Tem 32 anos e trabalha com TI (Tecnologia da Informação). Gosta de escrever e de ler coisas boas sobre motos. “Poder aprender, testar, admirar e sentir o que esses brinquedos podem fazer é muito bom mesmo!!!”, diz. Teve uma banda de rock entre seus 15 e 22 anos, atividade “combustível” na sua vida naquele período. Teve várias amantes: Yamaha Fazer 250, Suzuki Bandit 1250, Yamaha Teneré 250 e por fim, mas não por último, uma BMW 650 GS. “Amei todas e senti a separação de cada uma. Se pudesse teria todas. Se tivesse todas, não me desfaria de nenhuma e saberia, com certeza, que gosto de todas igualmente!!!”