A piloto Moara Sacilotti corre no Rally dos Sertões a xx anos entre os marmanjos

Moara Sacilotti é…

O tabu dos esportes motorizados em duas rodas serem praticados somente por homens ainda é uma realidade no Brasil. Elas são ainda raras nas pistas e nos bastidores das competições nacionais, mas aos poucos se percebe uma mudança nesse cenário. Alguns grandes nomes já despontam e se fazem notar nesse ambiente, seja ON ou OFF road. E os organizadores das competições também perceberam essa realidade e algumas modalidades e campeonatos já tem a categoria feminina.

A piloto Moara Sacilotti corre no Rally dos Sertões a xx anos entre os marmanjos

A piloto Moara Sacilotti corre no Rally dos Sertões a 15 temporadas entre os marmanjos – divulgação

E isso acaba estimulando a participação de mais garotas em várias modalidades sobre duas rodas em todo o país. Já não é tão incomum vê-las desfilando charme e graça naquele ambiente cheio de poeira, barro e graxa. Praticamente todas as provas de motocross, enduro e motovelocidade abrem espaço para elas. Uma rápida pesquisa mostra que somente no rali convencional é que a categoria feminina ainda não foi criada, talvez por falta de competidoras dispostas a encarar os desafios que a modalidade exige de quem o pratica.

Um bom exemplo do que estamos falando é Moara Sacilotti, que já acumula 15 participações na maior competição de rali do país, o Rally dos Sertões, sendo a única mulher a disputar a edição de 2014, prova internacional homologada pela FIM como uma das etapas do Campeonato Mundial de Rally Cross Coutry.

Além do Sertões, Moara tem em seu currículo a participação em outros ralis, como o RN 1500, O Rally Barretos e outros que fazem parte do campeonato nacional. A convite do Portal Motonline, Moara Sacilotti concedeu a entrevista exclusiva que transcrevemos abaixo, para que os fãs do off-road conheçam melhor essa grande piloto.

Moara Sacilotti no Rally dos Sertões 2014 - foto de Gustavo Epifânio

Moara Sacilotti no Rally dos Sertões 2014 – foto de Gustavo Epifânio

Motonline: Como e com que idade você começou a andar de moto e quem foi seu maior incentivador?

Moara: Ganhei minha primeira motinho aos 7 anos de idade. Meu pai, Gilberto, corria de motocross e como minha mãe, Regina, sempre foi apaixonada por nosso esporte, eu e o Ramon crescemos nas pistas. Nas corridas aprendemos muitas coisas e fizemos muitas amizades.

Motonline: Quando e como aconteceu a opção pelo motocross? E porque não o rali ou enduro que são competições menos agressivas?

Moara: Como meu pai corria de motocross, para mim essa era a única modalidade que existia, afinal eu era bem criancinha. Minha primeira corrida foi no Mundial em Campos do Jordão, 1987, naquela época quase não existiam provas infantis. Acho que é a melhor opção, pois o motocross é a base para todas as outras modalidades.

Eu ainda amo motocross embora tenha deixado de correr há muitos anos, as vezes faço alguns treinos com o Ramon. Quando comecei no rally, ainda continuei no motocross algum tempo, mas estava ficando complicado trocar cotoveladas com caras beeeeem maiores que eu, e além disso foi na época em que o rally começou a crescer no Brasil, e de fato o rally é o que eu mais amo. Só não sei se o rally é menos agressivo que o cross, é muito diferente mas também agride, e muito!

Moara Sacilotti concede entrevista exclusiva ao Motonline

Moara Sacilotti concede entrevista exclusiva ao Motonline – foto de Nelson Santos Jr.

Motonline: Como é competir em um ambiente predominantemente masculino? Te dão moleza ou a coisa é de igual para igual?

Moara: Quando eu decidi correr meu primeiro Sertões nunca uma mulher tinha tentado, e eu só tinha 18 anos. Foi dureza lidar com o preconceito. Mas meu pai correu junto comigo e isso me deixava um pouco mais segura em relação aos outros pilotos. Depois ele parou e eu continuei e todos perceberam que eu estava ali para disputar de igual para igual com eles, mas jamais com qualquer pensamento feminista de querer ser melhor que alguém por ser mulher. Muito pelo contrário, conheço minhas limitações físicas e também minhas qualidades, sou mulher, e por isso sou diferente deles, nem melhor nem pior.

Tenho muitos amigos no rally, amigos de verdade. Eles vão passar por cima de mim se eu estiver “roiando” (e eu vou fazer a mesma coisa com eles), mas também me ajudam sempre que preciso e jamais dificultam ultrapassagens. Eles me tratam de igual para igual quando a disputa é “fair play” e quando tiramos os capacetes são todos extremamente gentis comigo. Aqui fica uma dica para as mulheres que estão iniciando no nosso esporte: respeito se conquista com o tempo!

Moara em "traje de guerra" no Sertões 2014

A Lady do Sertões, em “traje de guerra”  – foto de David Santos Jr.

Motonline: Como é a sua relação com as demais garotas do esporte?

Moara: No rally eu sou a única mulher nas motos. Tenho uma grande amiga que corria de carro e agora corre de UTV, a Helena Deyama. Conversamos muito nos rallies, trocamos experiências e agora ela está me dando dicas para eu ser mais rápida na Polaris Cup (campeonato de UTV para proprietários de Polaris que estamos participando). Eu não vou parar de correr de moto, que fique bem claro!

Tenho contato com algumas meninas do enduro, sempre combinamos de fazer uma trilha juntas, mas está difícil conciliar as datas. Com as meninas do cross eu tenho menos contato, mas acompanho seus resultados. Torço por todas elas e respeito o trabalho de cada uma. Fico feliz que hoje existam categorias femininas tanto no enduro quanto no motocross. No meu tempo de motocross não existia, mas tudo bem, não fico chateada por isso, fico feliz que o esporte está evoluindo muito nesse sentido. E as meninas estão andando muito forte, é bonito de ver. Já no rally eu sei que nunca vai existir uma categoria feminina e por mim tudo bem também, me acostumei assim afinal já são 15 temporadas de Brasileiro sendo a única mulher.

Motonline: Sabemos que o motociclismo é um esporte caro. Quem participa com recursos financeiros para viabilizar sua carreira?

Moara: Corro pela Kawasaki, com patrocínios da Rinaldi, Prefeitura de São José dos Campos e Virage Mitsubishi. E tenho apoios da Red Dragon, Alpinestars, FAS Gráficos, Stocovich, BRC Escapamentos.

Motonline: Qual a sua pista preferida?

Moara: Costumo treinar na pista do Caipira em Guararema, e no MBox em Jarinu. Mas o que eu realmente prefiro é andar sem ficar dando voltas, longas distâncias, sem saber o que tem pela frente, especialmente no Jalapão, é o melhor lugar do mundo pra mim!

Motonline: Quais são seus principais resultados?

Moara: Fui a primeira mulher a correr o Sertões de moto e a única que já o fez 15 vezes. Embora isso não seja um resultado, são marcas extremamente importantes.
Principal resultado: Vice Campeã Mundial de Rally, 2013.
Três vezes Campeã do Sertões Mundial Feminino – 2014, 2013, 2007.
Algumas vezes Campeã Brasileira e Vice entre os homens.
E esse ano sou Campeã Brasileira novamente, com uma etapa de antecipação.

Motonline: O que pretende para o futuro em relação à sua carreira?

Moara: Pretendo correr etapas do Mundial de Rally no deserto – Marrocos, Abu Dabi, Qatar. Continuar disputando o Brasileiro com os homens. E não fazer contas de quantos Sertões ainda quero correr, simplesmente continuar correndo!

Motonline: Você anda de moto nas ruas? Qual sua moto pessoal? Onde se sente mais segura, competindo ou disputando espaço com os carros?

Moara: Não costumo andar de moto nas ruas, mas isso bem que agilizaria meu dia a dia. Poderia ser uma Kawasaki Versys, ou até mesmo uma scooter 50cc. Sem dúvida que o trânsito é mil vezes mais perigoso que a competição. Nas competições, sua segurança depende apenas da sua mão direita, a que acelera é a mesma que freia.

Motonline: Qual seu estilo de moto preferido? (Trail, Speed, Custom … etc)

Moara: Off Road, sempre! Amo minha KLX 450, minha preferida, mas as motos de motocross também são sensacionais. Mas eu bem que gostaria de ter uma moto de cada estilo!

Motonline: Considera scooter coisa de mulher?

Moara: Considero scooter uma “mão na roda”, isso sim (risos). Acho que não tem nada disso de ser de homem ou de mulher, embora as scooters facilitem para as mulheres por serem pequenas e dá pra andar com as pernas fechadas. Mas isso não quer dizer nada! Essas motinhos são bacanas porque facilitam o dia a dia, tem motor bem fraquinho o que diminui o risco de acidentes, mas com as nossas ruas esburacadas será que dá pra confiar naquelas rodas pequenas?

Motonline: Dá para ser piloto sem ter calos nas mãos? E como você convive com isso?

Moara: Impossível! Eu amo meus calos! Também não dá para manter as unhas feitas, é muito difícil cuidar dos cabelos, minhas pernas estão sempre com hematomas. Tudo isso faz parte do meu esporte, é uma vaidade que para mim nem existe. Agora, cuido para que meu equipamento e os adesivos da minha moto estejam sempre impecáveis!

Motonline: E quando vem a TPM e tem competição, seu desempenho melhora ou piora?

Moara: Para mim não faz diferença. Sei que algumas mulheres são muito influenciadas pelas variações hormonais, mas não é o meu caso.

Motonline: Quem é Moara Sacilotti?

Moara: Moara Sacilotti é uma pessoa apaixonada por moto, especialmente por rali. E que nunca vai parar de competir!

Moara Sacilotti em ação

Moara Sacilotti em ação

Matéria publicada originalmente em outubro de 2014.



Mário Sérgio Figueredo

Motociclista apaixonado por motos há 42 anos, começou a escrever sobre motos como hobby em um blog para tentar transmitir à nova geração a experiência acumulada durante esses tantos anos. Sua primeira moto foi a primeira fabricada no Brasil, a Yamaha RD 50.