Orlando considera a sua moto o caminho mais curto para a sanidade

O meu capacete é meu templo

Por Guilherme Orlando Anchieta

Há pouco mais de três anos eu ter uma moto era algo impensável, pelo contrário, já tinha um discurso pronto sobre os riscos que essa máquina poderia trazer: máquina de fazer defunto e por aí vai … Mas a vida é curiosa e quando percebe que somos rígidos demais em alguma convicção, nos confronta e, em geral, perdemos a briga. Neste momento nossos paradigmas vão todos por água abaixo… isso aconteceu comigo… não me perguntem por quê.

A moto saciou o latente desejo de liberdade de Orlando e sua "garupatroa"

A moto saciou o latente desejo de liberdade de Orlando e sua "garupatroa"

Eu acho que essa mudança radical ocorreu após ter ouvido alguns relatos sobre aventuras, verdadeiras epopeias sobre duas rodas, o desejo de liberdade me contaminou, ou melhor dizendo, acordei essa força que todos temos, alguns em estado latente (era o meu caso). A partir daí comecei a me interessar por motociclismo e nada foi como antes… já tinha na mente o desejo de ter uma moto.

Ele se realizou pouco depois. Era véspera de um feriado do ano de 2012, não me lembro qual, minha esposa já estava na terra natal de nossas famílias, Nepomuceno, Sul de Minas, e eu estava saindo de Belo Horizonte para encontrá-la quando no caminho passei em frente a uma concessionária e vi uma moto que me chamou a atenção. Era uma Honda Shadow Aero 2007, em excelente estado. Não resisti, parei o carro e lá estava eu negociando a compra.

Negócio fechado, o vendedor perguntou se eu iria buscar a moto e sair pilotando, quando disse a ele que a minha única experiência com duas rodas se resumia a bicicletas. O cara não acreditou que eu comprara uma moto sem sequer saber onde era a partida. Combinei com o pessoal e eles acabaram levando a moto para minha casa.

Orlando considera a sua moto o caminho mais curto para a sanidade

Moto, o caminho mais curto para a sanidade

Depois de chegar em Nepré (nome carinhoso da cidade), antecipei a minha volta para BH (minha esposa ainda ficou no interior) para receber a moto. Até então, tudo no maior sigilo pois a futura “garupatroa” não sabia de nada. Quando a moto finalmente chegou, tirei uma foto e mandei para ela dizendo mais ou menos assim: “Olha quem está na garagem”. A minha esposa não entendeu absolutamente nada, ela achou que era alguma gozação, mas depois, quando descobriu que o negócio era sério, até a minha sanidade ela questionou (com a família fazendo coro).

Como não havia mais retorno, eu me matriculei em uma moto escola e depois das aulas regulamentares, de primeira consegui a minha habilitação. A vontade faz milagres e eu treinava dentro da garagem… o porteiro que ficava me vigiando pelas câmeras de segurança deve ter achado que eu tinha pirado, pois sempre que passava pela portaria ele ficava com um sorrisinho no canto da boca.

O que eu descobri com a habilitação na mão (a minha esposa também) é que, ao contrário, a moto estava preservando a minha sanidade. Nós estamos descobrindo através de viagens curtas ou longas que essa máquina de equilibrar alimenta a nossa vontade de pegar a estrada e conhecer novos lugares. Minha primeira viagem logo depois de ter conseguido a habilitação, foi uma aventura de 480 km de Belo Horizonte ate Monte Verde, no Sul de Minas. Claro, na garupa está a minha corajosa (ou louca) “garupatroa”. Eu, completamente inexperiente, fui com minha corajosa esposa até o primeiro Bike Fest na cidade de Monte Verde (MG) quase 500 km da nossa casa, uma viagem incrível.

Nesta pequena aventura enfrentei o meu primeiro perrengue sobre duas rodas pois na volta tive uma pane seca na estrada e de início não entendia o que podia estar ocorrendo. A ideia de falta de gasolina nem passou pela cabeça e custei para raciocinar a causa do problema. Nessas horas o nervosismo turva a mente, até que cheguei a uma hipótese: podia ser falta de combustível, já que a moto não tem marcador, e era isso mesmo. Acionei o tanque reserva da moto, sufoco vencido, consegui chegar em um posto e encher o tanque da motoca e voltar para a casa.

O que nós descobrimos já nessa primeira experiência: por melhor que seja o seu carro, você nunca sentirá uma sensação semelhante a de viajar sobre uma moto. A experiência é espiritual, visceral, é você, a estrada e seus pensamentos, enfim, a viagem vai muito além do asfalto. Dentro do meu capacete eu consigo refletir melhor sobre a minha vida. Sobre uma moto interajo com o ambiente, o asfalto correndo sob os pés, o vento, os aromas, a chuva, é uma forma de transcender, romper com a rotina.

O motociclismo para mim hoje é uma forma de terapia que chamo de “mototerapia”. Em uma conversa com um amigo, disse que o meu capacete é o meu templo. Ele gostou da frase e ela virou o nome do meu blog. Assim, a conta gotas, quando puder escapar do cotidiano fazendo alguma viagem, mesmo que curta, vou compartilhar as minhas experiências aqui no Portal Motonline.

Boas estradas a todos!

Texto e imagens de Guilherme Orlando AnchietaBlog do autor

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