Foto: Edgard aos 66 anos (foto:Mario Bock)

O senhor da velocidade

Foto: Edgard aos 66 anos (foto:Mario Bock)

Foto: Edgard aos 66 anos (foto:Mario Bock)

Em uma manhÆ de s bado em fevereiro de 1994 foi designado pelo Josias Silveira, diretor editorial da DUAS RODAS, a acompanhar a turma do Edgard Soares em um passeio at‚ Campos do JordÆo (SP). Na hora pensei “que programa mala: viajar com um bando de velhos!”; nÆo precisei nem 20 km de estrada para perceber que estava redondamente enganado. Aos 66 anos o “seu” Edgard tinha uma vitalidade invej vel, pilotava uma barbaridade e escrevi o texto que vocˆ vai ler a seguir. Antes devo admitir que omiti algumas ocorrˆncias daquela viagem. A primeira dela ‚ que o Edgard s¢ andava acima de 200 km/h e como eu estava com uma Honda CBX 750F Indy foi um sufoco acompanh -lo. Depois, j  na serra, sa¡ reto numa curva ao tentar ultrapass -lo. Na volta caiu uma garoa fina na serra, a¡ nÆo teve jeito: com a BMW K1 com freios ABS o seu Edgard simplesmente desapareceu na frente de todo mundo e logo em seguida foi pego no radar a 160 km/h. Quando o policial estava lavrando a multa, seu Edgard me chamou num canto e falou: “P“, que vergonha, levar uma multa s¢ a 160 km/h, vÆo pensar que fiquei velho!”. Essa imagem que quero preservar desse motociclista, piloto e senhor das motos e que faleceu dia 10 de novembro, aos 78 anos. Nesse artigo foi citado tamb‚m o Eloy Gogliano, presidente do Centauro Motor Clube, tamb‚m j  falecido. Boa leitura!

Foto: Edgard em 1952

Foto: Edgard em 1952

Enquanto os vov“s normais colecionam selos, Edgard Soares se diverte a mais de 200 km/h.

O r dio-comunicador anuncia uma moto em alta velocidade. Alguns segundos depois um policial rodovi rio se posiciona na estrada esperando para frear os ƒnimos do motociclista: “mais um desses boyzinhos com suas super motos”. Ele p ra a BMW K1 vermelha, caminha em dire‡Æo ao motociclista, que retira o capacete. Ao olhar a cabe‡a coberta de cabelos brancos e o rosto de um pacato senhor de idade, com ar de vov“, o guarda nÆo tem a menor d£vida: “deve ser engano, parei o motociclista errado”.

O motociclista era aquele mesmo, mas o policial nÆo conhecia o curr¡culo daquele “vov“zinho”, que tem registrado em sua carteira de habilita‡Æo o nome Edgard Soares. Falar do ex-piloto Edgard, ou “seu” Edgard como os chamam os mais novos, ‚ simples. Ele correu nos anos 50 e 60 e quando nÆo chegava em primeiro era por um defeito na moto; a¡ chegava em segundo. Ou nÆo terminava, se o defeito fosse grave. Um curr¡culo f cil de decorar porque nÆo precisa encher de terceiros, quartos ou quintos lugares.

“Seu” Edgard criou fama de mau. Quando algu‚m entra em sua loja na esquina da General Os¢rio, com BarÆo de Limeira, o centro nervoso da “boca”, em SÆo Paulo, SP e pergunta o pre‡o de uma das car¡ssimas motos importadas, ele j  vai logo bufando. Com o pior humor dispon¡vel explica que a moto ‚ cara e o interessado nÆo tem dinheiro para compr -la, quase enxotando o pentelho da loja.

Por conta disso ele j  passou uma tremenda vergonha: “o sujeito entrou de jeans – lembra Edgard – perguntou o pre‡o da moto e eu logo disse o velho refrÆo. NÆo ‚ que o tal era um empres rio de posse, pagou … vista e ficamos amigos at‚ hoje.” Com ele ‚ assim: ficar seu amigo ‚ uma tremenda sorte.

A Turma do Edgard ‚ formada por motociclistas de v rios tipos e idades variando dos 18 anos, bem, at‚ a idade em que ainda se consegue acelerar mais de 100 cavalos. Numa das tradicionais viagens a Serra Negra, SP, acompanhei pessoalmente essa tribo. S¢ motos grandes, de preferˆncia importadas. Com uma Honda CBX 750F Indy ficou dif¡cil seguir o “seu” Edgard em sua BMW K1 na estrada. “Na serra o velho vai tirar a mÆo”, pensei. De fato ele tirou. Para acender o cigarro enquanto esperava o resto da galera que ficou l  atr s.

Andar atr s do Edgard ‚ uma aula de pilotagem cl ssica: corpo inclinado junto com a moto, ou a moto mais inclinada do que o corpo, dependendo da curva e situa‡Æo. E quem pensa que ele anda mais devagar quando sua esposa, Dona Noˆmia, est  na garupa, comete um mero engano. Ele pilota do mesmo jeito. Numa dessas viagens sob chuva para Serra Negra, chegou a sair da pista e invadir o mato de moto e esposa na garupa (“esqueci do ABS e que poderia frear forte”, justificou). Olhou para tr s e Dona Noˆmia fez apenas um sinal de positivo com a mÆo, como que dizendo “tudo bem, normal, pode continuar…”

Visitar a loja do Edgard Soares no s bado de manhÆ ‚ uma alegria. A hist¢ria do motociclismo nacional se concentra naqueles metros quadrados, principalmente com a chegada do amigo e vizinho, Eloy Gogliano, presidente do Centauro Motor Clube. Numa dessas manhÆs, “seu” Edgard me mostrava as fotos de uma antiga revista de motos, onde ele aparecia recebendo um trof‚u do presidente Juan Manoel Per¢n, da Argentina, na 100 milhas de Buenos Aires, em 1953.

– NÆo sei onde foi parar esse trof‚u – divagava Edgard.

Eloy ajustou os ¢culos, aproximou e afastou a revista at‚ encontrar o foco e respondeu totalmente fleum tico:

– Est  l  na Federa‡Æo Paulista de Motociclismo.

– Como? esses anos todos!!! protestou Edgard, tentando recuperar uma d¡vida de 30 anos.

– Mas o trof‚u era da Federa‡Æo, respondeu Eloy, com um muxoxo.

– Da Federa‡Æo coisa nenhuma, ‚ meu!

– Humpf…

(At‚ hoje nÆo se sabe o final dessa hist¢ria).

P.S: Se algum cineasta um dia quiser fazer um filme sobre homens e m quinas, a vida do Edgard Soares seria um belo exemplo, como no filme “Desafiando os Limites”, sobre a vida de Burt Munro. Leia mais sobre o Edgard Soares no site www.motosclassicas70.com.br

Artigo publicado em DUAS RODAS N§ 222 de mar‡o/1994