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Dívida a ser paga… como sobrevivi a um assalto

Esta é uma história real. É uma história que mostra como a Polícia Militar do Estado de São Paulo, um cidadão chamado Gênesis e uma servente de limpeza se empenharam para a minha sobrevivência. Acredito que esta história se pareça com muitas outras, pois viver em São Paulo não está fácil para os motociclistas e nem para aqueles que trabalham para salvaguardar vidas.

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Policiais Militares do 27º Batalhão em Jaú(SP), participantes da palestra na SIPAT anual, em 26 de novembro de 2015

Lá se vão mais de 14 anos. Era 16 de outubro de 2001. Sofri um assalto, no qual dois suspeitos em uma moto me perseguiram na Radial Leste (Avenida Alcântara Machado), zona leste de São Paulo, efetuando três tiros contra mim, um deles que atravessou meu braço esquerdo, outro na região do baço e o terceiro tiro atingiu meu pulmão e o projétil ficou alojado perto de minha espinha dorsal.

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Capitão Eurico inicia palestra: Pilotagem defensiva, se defender do quê?

Naquela época minha vida profissional era sair da zona leste de São Paulo, onde morava, para trabalhar como vendedor e monitor de treinamento em uma concessionária Honda na cidade de Jundiaí (SP). Saía muito cedo e ia com a minha velhinha CBR 1000F, ano 1992, branca e vermelha. Magrela linda e que precisava de uma pequena reforma na carenagem. Na verdade não desejava reformá-la porque queria que ficasse meio feia para não atrair bandidos. Ao final do dia, de Jundiaí eu batia meu cartão exatamente às 18 horas, pois as 19:15 deveria estar no centro de São Paulo para ministrar aulas em um CFC (Centro de Formação de Condutores) no Largo do Arouche.

De fato, era uma vida corrida. Diariamente da zona leste da capital para Jundiaí e de lá para o centro de São Paulo e depois finalmente de volta para casa para um merecido descanso, pois o dia seguinte tudo se repetiria. Mas era um grande prazer pilotar a “Gertrudes”, como chamava minha CBR 1000F. Isso durou aproximadamente dois anos seguidos até que…

O assalto, a perseguição

Na noite de 16 de outubro de 2001 o tema da aula no CFC era não reagir a um assalto. Como sempre, às 22:15 terminei as aulas. Ao sair do estacionamento, peguei o caminho de sempre para casa. Lembro-me que estava com uma fome danada e não via a hora de chegar em casa para jantar e dormir. Na altura da estação Belém do Metrô, uma moto de pequena cilindrada encostou ao meu lado esquerdo com seu garupa anunciando o assalto: “… não ponha a mão na jaqueta, para aí, meu! Perdeu, perdeu, perdeu…”. Assustei-me de inicio. Afinal, quem iria querer uma moto velha como a minha e com a carenagem toda ruim?

Bem, ao ver que era uma moto de pequeno porte, com dois sobre ela, “mordi minha língua” e esqueci do tema da aula. Chutei os dois e acelerei forte até alcançar o viaduto sobre a Avenida Salim Farah Maluf. Mas o trânsito sobre o viaduto estava parado e, desta forma, os bandidos conseguiram me alcançar, gritando: “… vou atirar, vou atirar…”. Caramba! Como vou me sair dessa, pensei. Mirei no corredor, fechei os espelhos retrovisores da minha moto e fui. Lembro-me que os escapamentos encostavam nas laterais dos carros parados, mas os malditos estavam em minha cola. Minha decisão, então, foi provocar um acidente para que eles caíssem e eu fugisse a pé, por entre os carros.

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Durante a palestra, experiências trocadas e muita atenção dos participantes

Assim, entre um carro e outro percebi um espaço onde pude dar um “cavalo-de-pau” para provocar a queda dos bandidos e escapar nesta oportunidade. Desta forma aconteceu, mas meu plano não deu muito certo porque caíram em cima de mim. Enquanto o piloto que me perseguia brigava comigo, trocando socos e pontapés, seu parceiro conseguiu me atingir com três tiros, a queima roupa. Caído no chão, tonto e sentido falta de ar, percebi que eles fugiram no meio da confusão que causei no trânsito. Muitos gritavam. Lembro-me, enquanto estava no chão descrente de tudo que estava acontecendo comigo, uma mulher desesperada chamava o socorro pelo telefone, mas ainda ninguém tocava em mim. Até que um homem chamado Gênesis chegou perto de meu corpo caído no asfalto e me falou: “Fique calmo. Meu nome é Gênesis e no passado aconteceu comigo o mesmo que aconteceu com você…”.

Aceitei a conversa dele. Continuou: ”Percebo que está sem ar. Encoste sua cabeça em meu pé e sua falta de ar acabará…”. Acreditei nele e, já sem o capacete, encostei minha cabeça sobre seu sapato, uma bota marrom e, inacreditavelmente, meu ar voltou. Neste momento em minha mente vieram as imagens de meu pai e meu irmão, ambos já falecidos, tirando onda com a minha cara, falando que minha hora estava chegando. Claro que respondi a eles que minha hora não havia chegado e nem chegará tão cedo. Aos poucos as imagens deles foram desaparecendo de minha consciência, sempre rindo, como eles eram em vida, sempre alegres e divertidos.

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Prioridade às técnicas de pilotagem defensiva, com pitadas nas técnicas ofensivas, perseguição e escolta

Enquanto eu descansava no pé desse personagem que apareceu em minha vida, o Gênesis, o trânsito parado dificultou a chegada do resgate (bombeiros). Entretanto, uma viatura da Polícia Militar conseguiu furar o bloqueio do trânsito e dois policiais me socorreram com muita perícia. Fizeram os procedimentos primários e me colocaram dentro da viatura em direção ao pronto socorro do Tatuapé. Até então eu estava consciente. No entanto, perdi os sentidos durante o caminho ao hospital.

Quem deveria me salvar?

Chegando ao Pronto Socorro, um dos policiais colocou-me na maca e pediu a uma enfermeira de plantão encaminhar-me até o centro cirúrgico: “Ferido a bala, ferido a bala…”, gritava o policial. Interessante que este policial não sabia se eu era o bandido ou mocinho da história. Nesse momento eu havia recobrado os sentidos pois ouvia e sentia tudo naquele ambiente. Ao chegar, a enfermeira vendo a minha situação pediu aos policiais que me deixassem de lado, pois já estava morto. Esta imbecil nem sequer tocou minha jugular ou meu pulso, para verificar se eu realmente estava morto! Fiquei apavorado, afinal eu ouvia e sentia tudo ao meu redor, mas não conseguia me mexer. Cheguei até a pensar que havia morrido mesmo! De longe, sumindo a voz da enfermeira discutindo, consegui ouvir o policial gritar com ela que eu não estava morto e precisava urgente ser atendido. Mais tarde acordei na sala de cirurgia, com um monte de médicos ao meu redor e perguntei o que estava acontecendo, mas não ouvi a resposta, pois apaguei de novo e só acordei na UTI.

Gertrudes do Amaral

Era assim a minha saudosa Gertrudes, minha CBR 1000F 1992

Depois de uns bons três meses no hospital, entre  UTI e enfermaria, sem ser atendido de modo eficiente, resolvi fugir de lá. Enquanto estava caminhando até o elevador com as minhas poucas roupas dentro de uma pequena mochila, uma servente de limpeza correu até mim, deu-me um papel rasgado escrito nele o endereço de um pneumologista da rede pública, dizendo: “Vá lá, ele o curará”. Dito e feito, ele ajudou a curar a infecção e os traumas que tive por causa do projétil que perfurou meu pulmão. Acho que agora posso explicar a razão do título desse post.

Eu acredito que todos temos algo a fazer neste planeta, uma missão. Somos humanos, imperfeitos, satisfeitos com a vida, ou não. Mas vivemos em prol de algo. Talvez nem saibamos o que é esse algo. Porém, agradecer às pessoas que nos protegem e tornam nossa vida melhor é um dever. Por isso, aproveitei o convite do capitão Eurico do 27º Batalhão da Polícia Militar em Jaú (SP) e do Tenente Coronel PM comandante Marcelo Sanches para participar de uma palestra para SIPAT. Foi esta a forma que encontrei para agradecer àqueles dois policiais por me resgatarem lá em 2001.

Na ocasião eu não tive a chance de perguntar o nome deles, não sei quem são, assim como não sei quem foi esse anjo chamado Gênesis ou aquela servente que me indicou o médico da rede pública. Sei que devo minha vida a eles que foram colocados por Deus em minha vida e, de uma maneira ou de outra, fez-me perceber que tenho algo a fazer neste mundo. Ficam em minha lembrança estes personagens aos quais agradeço cada minuto de minha vida. Eles que, incondicionalmente, ajudam outros para ter a chance da vida.


Texto de Carlos Amaral, palestrante e instrutor de pilotagem pela Carlos Amaral & Zuliani Motorcycle Training e Porto Seguro, Cia de Seguros Gerais / Fotos de Geórgia Zuliani



Carlos Amaral

Carlos Amaral - Instrutor de pilotagem defensiva certificado pela Honda, instrutor de trânsito do Detran-SP na especialidade Direção Defensiva, palestrante da Porto Seguro Cia de Seguros Gerais, blogueiro e diretor operacional da Carlos Amaral Motorcycle Training