A Harley se concentrou em transformar sua marca em um ícone, um símbolo de liberdade aliando o estilo clássico americano com relativa modernidade em seus modelos. Quem conhece Harley sabe como elas evoluíram na última década perto do que eram nos anos 80.

os bastidores das novas harley 2007 1O novo motor TC96, uma surpresa escondida até o último momento

A concorrência obviamente se mexeu. Se no início da nova onda “custom” as japonesas se contentaram em fazer motos como a Virago e alguns modelos Shadow VTX pequenas, com estilo mais “chooper”, de um tempo pra cá os modelos chamados pelos americanos de “Metric Cruiser” (por divulgarem a capacidade de seus motores em centímetros cúbicos, o sistema métrico, e não em polegadas cúbicas como é comum por lá, pelo sistema inglês) passaram a incomodar a fabricante de Milwaukee e até os mais puristas foram obrigados a reconhecer a qualidade de alguns modelos nipônicos.

Se no final do século passado (parece que já foi há tanto tempo…) motos como a Yamaha Royal Star e seu motor V4 refrigerado a água ou a Honda Valkyre de 6 cilindros também a água (o mesmo da Gold Wing) de 1800cc empolgaram os americanos, a onda hoje são os grandes big twins onde até então a Harley reinava sozinha.

Vejamos: A Yamaha lançou a linha Stratoliner, bem no estilo Low Rider das Harley, com motor de 113cu (cubic inches, ou 1850cc), um V2 refrigerado a ar com muita potência e torque em baixas rotações que também equipa as Roadliners, com estilo mais retrô. Para a linha “intermediária” há o motor de 103cu (1670cc) com a mesma configuração V2 equipando a linha RoadStar. Na linha “popular” a nossa conhecidíssima V-Star (aqui no Brasil, DragStar) além da tradicional 650 e 1100 recebeu um motor maior, agora com 1300cc.

E a Honda? Além da Gold Wing (6-boxer 1800cc) vendida no Brasil, a linha “cruiser” tem um fantástico motor V2 de 1800cc equipando a bem sucedida linha VTX com modelos em todos os estilos.

A Suzuki também cresceu seus modelos e além da nossa conhecida Boulevard 800 e 1500 há a nova Boulevard M109R (1790cc) que anda fazendo um bom sucesso nos EUA. A Kavasaki, para não esquecermos dela, também tem modelos Vulcan com motores V-Twin de 2000cc e 1600cc, e não podemos esquecer a Triumph Rocket com o incrível 3 cilindros em linha de 2400cc. Um detalhe que eu esqueci de dizer: a Harley é a mais cara de todas, e a que tem o motor menor, de apenas 1450cc.

“Houston, we have a problem!”

Americano adora potência bruta, são fãs de Drag Racing e de motores V8 mas a sua “marca oficial” de motos, a Harley, ficou pequena com seus míseros 1450cc (o conhecido Twin Cam 88, de 88 polegadas cúbicas). Mesmo oferecendo upgrades para 95cu e 103cu (respectivamente 1550 e 1670cc) realizados diretamente nas concessionárias, apesar do alto custo e da perda da garantia dependendo da configuração utilizada, a concorrência não estava mais brincando e começou a tomar o espaço cativo da Harley.

os bastidores das novas harley 2007 2O clássico kit “big bore” de 103cu, reparem que agora não inclui mais o virabrequim, que passa a ser de série.

Mas o problema não parava só potência, pois é obrigatório enquadrar qualquer motor de série dentro da restritiva regulamentação da EPA (Environmental Protection Agency) que atua desde a queima de combustíveis fósseis, que incluem automóveis, motos e caminhões, até a reciclagem de produtos que afetam o meio ambiente como baterias, monitores de vídeo, etc. Com isso, o motor TC88 lançado no século passado com uma tecnologia bastante ultrapassada vem recebendo modificações tão restritivas para se enquadrar a tais normas que acabaram por afetar seu desempenho e o tradicional som do escapamento, marca registrada da marca.

Esse problema não é novo, e o motor V2 refrigerado a água desenvolvido junto com a Porsche, que hoje equipa a linha V-Rod foi pensado para resolver esse problema e atende as normas da EPA, mas nesse momento ele só tem 1200cc e não tem agradado os americanos. Lá as V-Rod são muito mais baratas, por falta de demanda, que os modelos V-Twin clássicos, enquanto que aqui no Brasil e na Europa é ao contrário.

Nos últimos meses muito se especulou quais seriam as modificações no motor da Harley, e até mesmo se elas chegariam agora ou só em 2008. Especulou-se até em uma linha Touring completa com o motor da V-Rod, mas acho que os americanos ainda precisam digerir melhor essa idéia. A solução até que foi simples, ao invés de equipar os motores TC88 com o kit de pistões do TC95, de forma simplificada podemos dizer que usaram o virabrequim do kit TC103, com mais curso, mantendo o pistão original do TC88. Resultado: assim nasceu o TC96 que equipa todas as Harley a partir desse ano com exceção da linha Sportsters.

os bastidores das novas harley 2007 3O novo virabrequim do TC96, com curso mais longo, fazia parte do kit 103cu antigo.

os bastidores das novas harley 2007 4A Electra Glide Ultra Screaming Eagle, uma das varias CVOs de 2007

As informações que obtive dão conta de mais de 300 modificações foram feitas para que o motor atendesse as normas da EPA, tivesse confiabilidade e permitisse upgrades para 103cu (basta agora utilizar o velho kit de pistões do TC95, já que virabrequim tem um curso maior) e para 110cu utilizado nos modelos CVO (Custom Vehicles Operations, a linha Screaming Eagle customizada de fábrica). Com o TC96 houve um incremento de 17% no torque máximo, ainda obtido em baixa rotação (em torno de 3.500rpm, ou menos, dependendo do modelo) e com ele são agora instalados o cambio de 6 marchas com a sexta “overdrive”. A 120Km/h as rotações do motor ficam em torno de 2800rpm.

Também foi feito um trabalho nos escapamentos e o som voltou a agradar, apesar do catalisador, segundo depoimentos dos usuários e entrevistas do pessoal da Harley. O preço final do produto aumentou muito pouco, coisa de 3% em média. Até o momento parece tudo muito legal, não é?

Mas não, ao que tudo indica o TC96 é transitório até a solução definitiva baseada em um completo redesenho do motor. A Harley não divulga a potência do novo motor, mas já se sabe que é praticamente a mesma do TC88, e por isso inferior às das japonesas. O maior torque é bem vindo, mas o cambio ficou mais longo e isso não agrada a todos. Não dá pra usar a 6ª marcha a menos de 90 por hora, por exemplo. A impressão que ficou é que, apesar do bom trabalho, o TC88 de 2006 modificado para TC95 é ainda mais forte e tem mais torque do que o TC96 de 2007 simplesmente porque ele é menos “travado” de fábrica.

Outro agravante, e para vocês compreenderem eu sugiro que leiam minha coluna anterior Injeção é Moleza! onde falo sobre as inúmeras regulagens que são possíveis em uma injeção eletrônica. Por força da EPA, a nova injeção de circuito fechado (sensor no escapamento, correção automática) não permite muitas estripulias, e a tendência é que as motos não tenham mais a sua mecânica modificada. Aliás, agora a quebra de garantia é bem explícita, e quem modificar que se entenda com a EPA na hora da vistoria.

Na minha opinião as novas Harley vão agradar muito nos mercados internacionais (Europa, Japão, Ásia e América do Sul), mas os americanos gostam de mexer na moto, especialmente no motor, e era isso que diferenciava as Harley das demais japonesas. Nos fóruns da marca, a preocupação é crescente nesse sentido pois tem muita gente que já pensa em comprar uma japonesa mais barata, que vibra menos, é mais potente, tecnologicamente mais avançada e mais econômica, ao invés de comprar uma Harley “careta”.

os bastidores das novas harley 2007 5os bastidores das novas harley 2007 6A nova V-Rod Night Rod Special. Não entendo porque os americanos não gostam tanto da V-Rod quanto das V-Twins clássicas

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