Ana em sua Yamaaha XT 660:

Sobre motos, mulheres e cicatrizes

Texto de Ana Silvia Ribeiro Avelar

Já se vão uns bons sete anos que ando por aí de moto. De início, com muito medo. Ultimamente, com muito prazer. Dentre as várias experiências, tombos, batidas e escorregadas, sobram ainda muitas histórias pra contar, vento no rosto e sorriso na cara. Andar de moto é um prazer indescritível. Às vezes falo com as pessoas do trabalho que me observam admiradas o quão bom é ir para o trabalho pilotando, pois já recarrega a bateria.

Ana em sua Yamaaha XT 660:

Ana em sua Yamaha XT 660: cicatrizes não a tornam menos mulher

O que ainda me espanta é o temor das pessoas, principalmente quando é uma mulher andando de moto: “Como assim você anda de moto?”, “Você não tem medo de machucar?”, “Cicatriz em mulher é tão feio…”, “Como assim você está pensando em fazer uma viagem longa sozinha?”. Costumo retrucar perguntando se caso eu fosse homem elas estariam fazendo as mesmas perguntas, É quando observo, então, olhares tortos.

Hoje, em vista de sete anos atrás, vejo cada dia mais mulheres pilotando, o que é ótimo, mais um espaço ampliado. O problema que ainda se encara constantemente é o machismo, até “inverso”, quando alguns me observam admiradíssimos: como este ser de outro planeta classificado como mulher é capaz de pilotar uma moto sozinha e por grandes distâncias, com muita habilidade. Devo ser realmente um E.T., pois para muitos homens é fichinha, pra mim deve ser de um esforço monumental, como se fosse necessária alguma habilidade extraordinária de gênero para se pilotar uma moto.

O fato é que realmente já caí, e são duas cicatrizes competindo por espaço no joelho direito. Não acho que elas me tornem mais feia, mais ou menos mulher, melhor ou pior motociclista. O problema é que este veículo ainda conta com entornos de exclusividades masculinas, de que a mulher, este ser ideal, puro e sem máculas, deve procurar manter-se afastada e sendo privada de inenarráveis aventuras às quais poderia se lançar, de vários lugares que poderia explorar, por um simples “medo” ou “imposição social”.

Quantas vezes ouvi de muitas mulheres que adorariam tirar a carteira para pilotar moto, “mas o pai não deixa”, “a mãe não deixa”, “o marido não deixa”… Sei que existe um preconceito contra a própria a moto, mas ele dobra quando quem vai pilotar é uma mulher. Por que elas podem ser vítimas em garupas, mas não podem cair se forem pilotar?

Espero que com o passar dos anos o fato de as mulheres se habilitarem na categoria “A” torne-se fato banal, como tirar a categoria “B”. Apesar de nesta última categoria, a mulher ainda ser vítima de piadinhas no trânsito, é encarada com muito mais naturalidade do que quando se trata da “A” ou mesmo “C, D ou E”. E que, assim, as mulheres possam sair do mar do medo das cicatrizes e partir para liberdade da estrada.