Um país chamado Lisarb

Um país chamado Lisarb

Geraldo Tite Simões

Em algum ponto do hemisfério sul existe uma ilha muito curiosa chamada Lisarb. Alguns dizem ser apenas mitológica, outros juram de pés juntos que já viram e até visitaram, mas poucos de fato conseguiram confirmar com exatidão sua localização geográfica. Tanto faz, porque verdadeira ou não, Lisarb é uma referência quando se trata de comportamento social. Tudo se dá exatamente ao contrário do que nos outros países do mundo. Quer um exemplo? Todo cidadão lisarbiano já nasce estelionatário. Isso mesmo, basta vir ao mundo para que os sistemas legislativo e judiciário o considerem um esteliontário. Então, quando finalmente atingir a idade adulta e quiser comprar uma moto financiada, terá de assinar uma montanha de documentos para provar que não é ladrão, falsificador, sacripanta, trambiqueiro, gatuno ou coisa pior. Depois, quando quiser vender esta mesma moto terá de assinar o documento de transferência na frente de um escrivão e sua assinatura será submetida a um perito que, só depois de confirmada a autenticidade, irá carimbar o papel, atestando que o cidadão lisarbiano não é mais um estelionatário, como no dia em que nasceu. Curiosamente, mesmo com toda esta preocupação, Lisarb é um dos países campeões mundiais de roubo de carros e motos!

Outra manifestação contrária neste curioso país diz respeito aos impostos. Uma moto ou carro novíssimos, com modernos itens de segurança e perfeitamente funcional devem pagar um imposto de circulação extremamente alto. Tão alto que até parcelam em 3 vezes. Já os veículos velhos, com 10 ou 15 anos de uso, pagam um imposto ridículo para circularem emitindo mais poluentes, com condições de segurança reduzidíssimas, e invariavelmente quebram no meio da rua, infernizando a vida dos outros cidadãos que rodam de carro novo e pagam um baita imposto.

Na administração do dinheiro público os lisarbianos são campeões do antagonismo. Em uma de suas maiores cidades foi construída uma avenida de 4 km, que liga nada a lugar nenhum, ao custo de 800 milhões de dólares. Ou seja, cada km custou 200 milhões de dólares. Seguramente é o km linear de avenida mais caro do planeta. E a justificativa para este investimento é a qualidade desta avenida: tem quatro faixas, é totalmente iluminada, transmite segurança aos usuários, mas a velocidade máxima permitida é de apenas 60 km/h e existem radares que flagram os motoristas que superam este limite. E se alguém perguntar qual a razão de um limite tão baixo, a resposta é igualmente curiosa: é porque os lisarbianos são maus motoristas e usam carros mal conservados.

Ainda no trânsito os lisarbianos revelam características interessantes. Os carros mais modernos são equipados com luzes de neblina na frente e atrás, uma preocupação das fábricas com a segurança dos motoristas e pedestres. No entanto, nas noites de céu claro, em ruas bem iluminadas, pode-se ver milhares de motoristas com as luzes de neblina acesas! E sabem o que eles fazem quando a condição de visibilidade cai drasticamente? Se esquecem das luzes de neblina! É, ou não é, um país verdadeiramente do contra?

Outro item curioso nos carros dos lisarbianos são os engates. Parece que todo cidadão em Lisarb tem algum tipo de atividade que obriga a puxar carretas. Qual nada! Estes engates servem para proteger os pára-choques traseiros dos carros! Ou seja, são pára-pára-choque!

Ah, e não se iluda com a educação desta gente. Nas avenidas mais movimentadas, assim como nas estradas, estranhamente os motoristas mais lentos usam a faixa mais à esquerda, que nos países normais são usadas pelos carros mais rápidos. Em compensação, quem tem pressa tem de usar as faixas da direita. Até parece que o louco sou eu!

Sociais

Quando o assunto esbarra nas questões mais sociais, digamos, como a política de isonomia racial, os lisarbianos são ainda mais curiosos. Basta um um lisarbiano negro ou mulato pilotar uma moto para que a polícia interrompa o percurso deste cidadão “para averiguar os documentos”. Em Lisarb, os negros e mulatos são tratados sempre como suspeitos, mas diariamente os jornais estampam fotos de políticos acusados de corrupção, desvio de verba, prevaricação e, na totalidade, são brancos. Não é um país curioso?

Uma das mais recentes invenções nas grandes cidades de Lisarb foi a taxa do lixo. Trata-se de um imposto cobrado pelas autoridades municipais, a título da varreção diária que os garis fazem nas ruas. E, curiosamente, não se consegue andar 50 metros nesta grande cidade de Lisarb sem pisar num cocô de cachorro. Certamente os garis de Lisarb têm nojo de varrer cocô. Ou os cachorros lisarbianos são os maiores produtores de cocô do mundo. Não seria de se admirar se um dia for criada a “taxa de cocô”, destinada a garis de narizes menos sensíveis que fariam a varreção desta porcaria.

Fictício, ou não, Lisarb é um país de clima ameno, propício aos passeios de moto e que tem lá seu jeito muito especial de manter seus filhos presos à ele. É mais uma de suas contradições: todo mundo acha ruim, mas ninguém sai de Lisarb.

publicada originalmente em 30/06/2004 e re