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A
primeira marcha vai a 165 km/h. A segunda chega a 207 km/h e ainda
tem a terceira, quarta, quinta e sexta. Não existe nada
mais impressionante do que provar na prática o que representam
os números superlativos da Suzuki GSX-R 1000 campeão
mundial de Superbike de 2005. A potência declarada do motor
quatro cilindros em linha é de 178 cv a 11.000 rpm para
um peso seco de 166 kg. A evolução da versão
2004 para essa 2005 foi tão grande que o correto seria dizer
que trata-se de uma moto nova. Veja a lista das mudanças:
Geral
Já que a velocidade é uma
conjunção de mecânica + aerodinâmica,
tudo nessa moto foi pensado em atingir três frentes: redução
de peso, aumento da potência e melhor penetração
aerodinâmica. Na luta pelo emagrecimento o primeiro round
foi reduzir o tamanho e peso de todos os parafusos. Os limites
foram jogados mais para baixo, com redução no tamanho
e peso de peças que deveriam estar superdimensionadas. Até o
eixo principal da balança traseira foi reduzido no diâmetro
em busca de um corpinho de manequim.
Motor
Aqui o trabalho de redução
de peso já é um elemento contribuinte para aumentar
a potência. Quando fica difícil ganhar potência,
uma das formas de melhorar a relação peso x potência
a redução do peso. No caso da Suzuki 1000 as conquistas
foram nos dois lados: houve a redução de 8 gramas
no peso de cada pistão, além de aumento nas medidas
de diâmetro e curso. A capacidade volumétrica (popular
cilindrada) subiu de 988 para 998,6cc. As válvulas que eram
de aço foram substituídas por peças de titânio
de maior diâmetro. A câmara de combustão foi
redimensionada para dar mais taxa de compressão, que saltou
de 12:1 para 12,5:1 (cuidado com a gasolina!). Os coletores de
admissão estão maiores e o virabrequim foi reforçado.
Os anéis ficaram mais finos e foram revestidos com liga
redutora de atrito. Até o radiador mudou de formato, tornando-se
trapezoidal para ganhar 17% a mais de capacidade de arrefecimento.
Mais potência significa mais energia liberada e isso representa
mais calor. O sistema de alimentação conta com duplo
injetor para que a mistura seja pulverizada de forma mais uniforme
aos coletores de admissão. Quanto mais “gasosa” chegar
a mistura mais rápida será a queima e menos material é desperdiçado.
E quanto melhor a queima, maior a energia liberada dela, ou seja,
mais cavalos.
Chassi
Toda a GSX-R 1000 ficou menor
e mais compacta. Aliás, ela já está mais leve
e menor do que muita 600 esportiva! Essa redução
nas dimensões tem um endereço certo: corridas. Quanto
mais “curta” for a moto maior será sua capacidade
de fazer curvas, embora tenha como conseqüência uma
eventual dificuldade nas retas em alta velocidade. Como corridas
são vencidas nas curvas e não nas retas, a preocupação
foi fazer desta Suzuki um projeto capaz de frear, acelerar e fazer
curvas melhor do que as suas concorrentes. E conseguiu! A distância
entreeixos encurtou em 5 mm, o ângulo de cáster passou
de 23,5º para 23,75° e o trail aumentou de 91 mm para
96 mm. Todas as dimensões estão menores em relação à versão
2004 (veja box) e até as rodas ficaram 500 gr mais leves.
A mudança mais visível e comentada é a troca
do escapamento cilíndrico de alumínio por um de formato
triangular de titânio.
Aerodinâmica
Não dá para
dissociar aerodinâmica a estilo. São conceitos intrínsecos
porque ao retirar os piscas dianteiros da carenagem e passá-los
para os espelhos retrovisores, a Suzuki não foi apenas atrás
de um tuning, mas reduziu a área frontal, além de
redesenhar as entradas de ar do ram-air. Os piscas traseiros também
foram integrados à rabeta para reduzir o arrasto aerodinâmico.
Mas a grande sacada foi a ponteira do escapamento. Muita gente
olhou torto para este escape de formato esquisitão. A maioria
das fábricas optou por colocar os escapes por baixo do banco,
mas não há como negar que estas motos têm como
efeitos colaterais um aquecimento bem ali embaixo do traseiro,
além do problema de refluxo dos gases do escapamento que
deixa o garupa levemente aromatizado. A Suzuki criou esta opção
leve, com perfil de gota para não interferir demasiadamente
na aerodinâmica, nem deixar o passageiro cheirando a gasolina
queimada.
Na prática
Em suma, se a versão anterior já era leve e potente,
ficou ainda mais. Com a vantagem de melhorar também a distribuição
de potência e facilidade de pilotagem, se é que dá para
chamar essa pilotagem de fácil. O que parece ser um touro
indomável, revela-se um gatinho manhoso graças ao
mecanismo colocado no escapamento, que atua como válvula
parcializadora. Em baixa rotação, o escapamento fica
estrangulado para dar mais força. Em alta rotação
a válvula se abre e libera os gases de forma mais veloz.
Aliás, chamar o ronco desse escapamento de ruído é um
sacrilégio, porque o som é música pura para
os ouvidos mais sensíveis.
Outro tema polêmico que envolve as motos esportivas diz
respeito ao conforto. Falar que uma esportiva é confortável
seria uma afirmação perigosa, mas também não é desesperadora,
desde que o piloto assuma uma postura ativa. Os semiguidões
baixos, junto com as pedaleiras recuadas e o banco restrito a um
pedaço de espuma não são o ideal de conforto,
mas o prazer de pilotar logo faz esquecer tudo isso. Em vias bem
asfaltadas a posição de pilotagem é uma delícia,
mas em ruas esburacadas se o piloto não se apoiar nas pedaleiras
e travar os joelhos no tanque vai pular que nem pipoca.
Só mesmo a garupa terá um dia de tristeza. Aliás,
a GSX-R 1000 é o tipo de moto que já deveria sair
de fábrica como monoposto, apenas para uma pessoa, porque
a transferência de peso é tão brutal e a pilotagem
vai ficar tão atrapalhada que pode julgar o piloto um iniciante
cambaleante.
A jato
O motor de arranque acorda a cavalaria, que libera aquele ronco delicioso. Se
alguém sofrer de insônia, basta gravar o som de uma GSX-R em alta
rotação e colocar para ouvir que vai dormir feliz como um bebê alimentado.
A opção pelo duplo injetor de mistura, aliado à válvula
SDTV da admissão, colabora para que o compacto motor revele-se dócil
em baixa rotação e apimentado acima de 7.000 rpm. A opção
pelas duas primeiras marchas “longas” também facilita a
vida de quem roda no trânsito. Pode-se rodar a maior parte o tempo em
segunda marcha sem comprometer o motor nem a dirigibilidade.
Agora segure-se porque está na hora de testar o shift-light
(luz de advertência de rotação máxima).
O reduzido, porém completo painel tem velocímetro
digital com números bem grandes. O que pode assustar, porque
não é fácil descobrir que em segunda marcha
já se rompeu a barreira dos 200 km/h e tem mais quatro!
Claro que as marchas seguintes são mais curtas, mas é impressionante
como ela ganha velocidade em pouco tempo. Chega a ser fácil
se acostumar com a velocidade e o que antes poderia ser considerada
uma velocidade inimaginável, como 250 km/h, passa a ser
normal. A velocidade máxima efetiva é de 292 km/h,
enquanto o velocímetro indica 300 km/h. A ciclística
bem ajustada e a aerodinâmica eficiente mantêm a Suzuki
firme como se estivesse em trilhos. Um trem bala! O que assusta é pensar
que um avião de passageiro, como um Boeing 747 decola a
esta velocidade.
E antes que algum mala venha me aporrinhar por causa do teste
na estrada, aqui vai uma explicação básica:
o local é muito bem escolhido pela visibilidade e largura
da pista. Primeiro eu rodo devagar arquivando mentalmente todos
os pontos de referência que possam gerar “ruídos” como
carros parados, pedestres, ciclistas, etc. Depois eu faço
retorno e espero até que nenhum veículo lento esteja
no caminho. Só então abro o gás e mesmo assim,
ao menor sinal de interferência eu tiro a mão. Não
há no Brasil um autódromo com reta suficiente para
encher a sexta-marcha desta Suzuki. A maioria das revistas gringas
faz a velocidade máxima projetada, ou seja, calculam as
relações de marcha e a rotação de potência
máxima, colocam os dados em um micro, junto com parâmetros
de arrasto, peso, perímetro do pneu etc e simulam a velocidade
máxima real, que certamente será muito próxima à real.
Hoje os simuladores chegaram a um impressionante nível de
realismo e não compensa mais comprovar a velocidade na prática.
Só vale a pena pela curiosidade de ver o mundo acima de
290 km/h a 80 cm do chão. Antes deste teste eu tinha alcançado
273 km/h com uma Aprilia 1000 Racing na pista oval de Las Vegas,
EUA, durante um teste de pneus Pirelli.
Sou obrigado a aconselhar que ninguém tente fazer isso,
porque a 300 km/h a experiência conta muito mais do que a
coragem. Saber reagir com calma e precisão a 300 km/h é muito
mais difícil do que simplesmente girar um acelerador.
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Curvas, êba!
O roteiro foi intencionalmente escolhido de forma a ter muitas curvas, mas muitas
mesmo! E não sei de nenhuma estrada com mais curvas do que a SP 50,
antiga estrada de São Paulo a Campos do Jordão (SP). Só que
as curvas eram muito fechadas, o que limitou a usar só 1ª e 2ª marchas.
A impressão desta estrada é que a empreiteira cobrou a obra não
por km linear, mas por km curvilíneo! Depois, na SP 123, já consegui
engatar 3ª e 4ª marchas só para aliviar o motor. Mas o filé mignon
estava na volta, quando foi possível entrar em curvas a 240 km/h e comprovar
a efetiva eficiência do conjunto. Havia anos que eu não vivia
essa sensação de fazer uma curva a 245 km/h e a firmeza da Suzukona é impressionante,
transmite muita segurança e tranqüilidade. Senti-me muito mãos
sossegado fazendo as curvas acima de 200 km/h com esta Suzuki do que a 120
km/h com a velha Yamaha RD 350LC!
A estabilidade nas curvas é totalmente dentro do esperado,
absolutamente firme e fácil de colocar em qualquer ponto
da trajetória. Os pneus Bridgestone Battlax seguram bem
a onda na estrada, mas não tivemos a chance de provar na
pista. Um bom comportamento do pneu traseiro é que ele avisa
quando vai começar a derrapar e foi possível até abusar
da capacidade de derrapar nas frenagens só para produzir
fotos mais emocionantes. Cuidado: as derrapadas na entrada das
curvas são feitas nas reduções de marcha,
não no freio traseiro! Depois que peguei o timming da redução
para provocar a derrapagem controlada minha volta pela serra de
Campos do Jorão foi tão divertida que ao final eu
subi e desci de novo. O asfalto ficou cheio de risquinhos de pneu!
O pneu aceita a derrapagem e recupera a tração de
forma suave e gradual. É uma delícia que exige treino
e uma bela conta bancária porque a borracha vai desaparecendo
a olhos vistos!
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O que mudou na GSX-R 1000
Ano |
2004 |
2005 |
| Cilindrada |
988 |
998,6 |
| Diâmetro x curso |
73 x 59 |
73,4x59 |
Taxa de compressão
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12:1 |
12,5:1 |
| Potência |
164 cv |
178 cv |
| Injeção |
simples |
dupla |
Geometria (cáster/trail) |
23,5º/91mm |
23,75°/96mm |
| Comprimento |
2.030mm |
2.045mm |
| Largura |
715 mm |
710 mm |
| Entreeixos |
1.410 mm |
1.405 mm |
| Altura assento |
830 mm |
810 mm |
| Peso seco |
168 kg |
166 kg |
| Freio dianteiro |
300 mm |
310 mm |
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Ficha
Técnica |
| MOTOR |
4T, quatro cilindros
em linha, transversal 998,6 cc, quatro válvulas
por cilindro, DOHC, arrefecimento líquido |
Diâmetro
x curso |
73,4
mm x 59 mm |
Taxa
de compressão |
12,5:1 |
Potência |
178
cv a 11.000 rp |
Torque |
10,42
kgf.m a 9.500 rpm |
Alimentação |
Injeção
eletrônica dupla |
Câmbio |
seis
marchas |
Tanque
de combustível |
18
litros |
Quadro
|
Dupla
trave de alumínio extrudado |
| Suspensões |
Garfo Kayaba invertido
(tubos de 43 mm/120 mm curso) e monoamortecedor Kayaba
(130 mm de curso), reguláveis. |
| Pneus |
Bridgestone Battlax
120/70-17 na dianteira e 190/50-17 |
| Freios |
Dois discos de
310 mm na dianteira com pinças radiais de 4 pistões;
e disco simples de 220 mm na traseira com pinça
de dois pistões |
| Comprimento |
2.030 mm |
Largura |
710
mm |
| Altura do banco |
810 mm |
| Entre-eixos |
1.405 mm |
| Distância do
solo |
n.d. |
| Peso |
166 kg (em ordem
de marcha) |
| Preço |
R$ 71.900 |
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Se alguém gosta de números, aqui vão alguns:
a aceleração de 0 a 100 km/h é de 3,1 segundos,
enquanto a arrancada de 0 a 400 metros é feita em 10 segundos!
Tempo de dragster. Como sempre tem quem se interessa por questões
sem importância, como consumo, por exemplo, a medição
revela média de 15,4 km/litro em uso, digamos, racional
e 8,2 km/litro no ritmo forte. Apesar de novo desenho, o tanque
menteve a mesma capacidade de 18 litros. Quem compra uma moto dessas
nem deveria se preocupar com consumo, porque por R$ 72 mil esta
moto oferece muito mais emoção e sensação
do que um carro de R$ 300 mil. Portanto a economia será enorme
de qualquer forma.
Na balada
Moto que corre muito precisa parar com precisão. Outro aspecto
louvável na Suzukona é a capacidade de redução
apenas no acelerador. A 250 km/h basta aliviar o acelerador para
que ela reduza para tranqüilos 150 km/h. Além disso,
os freios dianteiros com pinças radiais são muito
precisos. O acionamento é por meio de uma alavanca também
de acionamento radial.
Antes que alguém interceda e pergunte se esta moto não
tem nada de errado, aqui vai: ela não vira! O ângulo
de esterço é tão ruim que mal dá para
fazer retorno em uma estrada. Lembra muito uma moto de corrida – o
que ela é, de fato. No caótico trânsito de
São Paulo ela circula bem nos corredores porque é fina,
mas se tiver de costurar esquece. Há quem considere isso
uma característica, não problema, mas torra a paciência
a cada manobra. Para aliviar o sofrimento, o motor é muito
desfrutável em baixa rotação, qualidade que
vai se mostrar muito importante na hora de desfilar na balada.
Só para testar o poder de atração da nova 1000,
levamos a um ponto badalado de São Paulo, famoso point de
motociclistas. As impressões foram quase unânimes com
relação à esquisitice do escapamento, mas se
alguém quiser ficar mais atraente de uma hora para outra basta
investir R$ 71.900, montar em uma Suzuki GSX-R 1000 e sair por aí.
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