Kahena 1600 ST

Um Fusca de duas rodas*

Ela é grandona e especial. Tem motor de 1 600cc, refrigerado a ar, com quatro cilindros contrapostos. Acionado o botão de partida elétrica, o ronco é inconfundível: trata-se de um conhecidíssimo motor Volkswagen “a ar”, que acompanhou várias gerações de brasileiros e que ressuscitou com a volta do Fusca. Mas o que esse motor está fazendo no quadro de uma moto? Essa mistura carro-moto é a síntese da Kahena ST 1.600, única 100% nacional e que faz sucesso no exterior, incluindo o Japão, maior produtor mundial de motocicletas.

Texto: Geraldo Tite Simoes

.. A Kahena oferece duas opções de motorização. O de 65 cv a 4.600 rpm e o de 90 cv a 5.800 rpm, que equipa esta versão mais esportiva. Nos dois casos a carburação é dupla Brosol de 32mm e o câmbio de quatro marchas, mais ré, é produzido pela Kahena, utilizando engrenagens originais VW.

O primeiro contato com a Kahena assusta. Seu porte grandalhão dá a impressão que de só mesmo um super atleta seria capaz de equilibrar os 320 kg. Felizmente essa impressão se desfaz no momento de se posicionar sobre o banco – em dois níveis. Graças a um sistema de eixo excêntrico colocado no monoamortecedor traseiro, é possível regular facilmente a altura (do banco até o chão), variando de 740 a 800 mm. Na menor altura, pode-se segurar a Kahena com os dois pés no chão, mesmo para quem tem 1,65m de altura.

Lateral direita

Painel

Motor VW

Roda traseira

Apesar do estilo “touring-sport”, que lembra um pouco o desenho da Kawasaki Ninja ZX11, o guidão tem formato largo e alto, tornando a posição de pilotar bem próxima a de uma custom. A bolha de plástico fumê da carenagem oferece boa proteção ao piloto, desviando o vento por cima da cabeça. O resultado desse posicionamento é um bom nível de conforto para o piloto, mas quem fica melhor é o garupa, que desfruta de um amplo espaço e ainda tem dois apoios para se segurar na hora da aceleração.

Para viajar a posição permite pilotar por horas seguidas, com uma boa ajuda da suspensão macia. O banco em dois níveis tem boa cobertura de espuma e chega a envolver a capa do tanque (o tanque de verdade – com 26 litros – fica sob a capa). Os comandos elétricos são os mesmos da Honda CBX 200 Strada. As manoplas são encontradas no mercado (Circuit), bem como as manetes.

MARCHA A RÉ Uma das vantagens de utilizar o motor VW, ainda que modificado, é a facilidade de manutenção. Até no Japão encontram-se peças desse motor. Alguns componentes são aproveitados da indústria automobilística, como as pastilhas de freio do Gol, a bateria selada que não requer água e a ignição eletrônica. Essa versatilidade é um dos atrativos que fazem a Kahena ter sucesso em mercados como Alemanha e Japão.

Outros itens são desenvolvidos pela própria Tecpama, fabricante da Kahena, como o painel, que utiliza instrumentos analógicos, mas já está pronto um novo painel com instrumentos digitais. O painel com instrumentos redondos, de fundo branco, conta com velocímetro, conta-giros, hodômetro parcial separado e marcador de nível de gasolina. As luzes de advertência ficam dentro do conta-giros. Nos próximos modelos

Já haverá uma luz adicional de advertência indicando a marcha a ré engatada. Como sistema de segurança, a Kahena só liga com a embreagem (hidráulica) acionada, para evitar sustos de ter alguma marcha engatada e os 320 kg pularem sem controle. Com o motor funcionando, a primeira sensação faz lembrar as BMW alemãs. Quando se acelera a moto inteira inclina para a direita, resultado do efeito giroscópico do virabrequim. Com a Kahena em movimento esse feito desaparece, graças a ação do câmbio, que gira no sentido contrário. A primeira arrancada também faz lembrar a BMW e outras motos com transmissão por eixo cardã, porque a traseira levanta, mesmo nas retomadas de velocidade.

Com quatro marchas e o motor com boa retomada de velocidade, as trocas de marchas são menos constantes. Ainda bem, porque a alavanca de câmbio é um pouco pequena e dificulta o acionamento das marchas. Já existe uma alavanca com acionamento duplo (ponta do pé e calcanhar) que poderá ser oferecida opcionalmente e que facilita muito as trocas de marchas.

Em pouco tempo se acostuma com as dimensões da Kahena (2.267mm de comprimento e 790mm de largura). Não é preciso ser um super-motociclista para pilotá-la tanto na cidade como na estrada (seu hábitat). E claro que costurar no trânsito se torna difícil, mas é quase tão complicado quanto rodar com uma Harley-Davidson das grandes ou uma BMW boxer. Com um pouco de prática dá para arriscar alguns corredores entre os carros parados, com a certeza de que os espelhos retrovisores não acertarão os outros veículos.

Os pneus utilizados (Pirelli 120/70 ZR 17 na frente e 170/60 ZR 17 atrás) permitem inclinar suavemente nas curvas, sendo limitado apenas pelos cavaletes que raspam no asfalto. Como opção, pode-se escolher o pneu dianteiro 130/70 ZR 17, mais largo, que deixa a frente mais fácil de manobrar em baixa velocidade, mas limita a inclinação nas curvas (que para alguns é mais um fator de segurança).

A suspensão colabora para a estabilidade. Na dianteira foi utilizado garfo telescópico, com curso de 155mm. Na traseira a suspensão é monoamortecida, do tipo Cantilever, com o amartecedor possando sob a capa da tanque de gasolina (como na Yamaha DT 180) e monobraço. Uma das vantagens do monobraço é facilitar a remoção da roda traseira, bastando retirar seis parafusos.

QUESTIONÁRIO O acabamento continua merecendo atenção por porte do fabricante. Uma das providências futuras será substituir algumas peças moldadas em fibra de vidro por plástico injetado. O ideal seria usar todas as peças (carenagem, laterais, rabeta) de plástico, mas isto iria acarretar em um aumento de preço. A versão básica está sendo vendida a R$ 12.300.

Outro detalhe que poderia reduzir peso seria a utilização de mais peças de alumínio. O quadro, pox exemplo, é do tipo deltabox, de aço estampado, que pesa 23 kg. Caso fosse feito de alumínio, esse peso seria reduzido para menos de 10 kg, mas novamente esbarra no custo.

Uma multidão de curiosos sempre envolve a Kahena a cada vez que se estaciona. As perguntas mais comuns são: 1) O motor é do Fusca? Mais ou menos, porque parte do motor é alterada para receber novo câmbio e um volante menor. 2) E difícil de dirigir? Não, ao contrário, com o centro de gravidade mais baixo, em relação a uma moto de motor em linha, torna-se fácil equilibrar mesmo em baixa velocidade; 3) Tem marcha a ré? Sim, e isso ajuda muito para estacionar. 4) E se cair no chão, como se faz? Se for com ela parada não há problema, porque ela não chega a deitar completamente, pois fica apoiada no protetor do motor, basta um empurrão e ela volta a posição de pé. 5) Corre muito? Essa versão de 90 cv beira os 190 km/h de velocidade máxima.

Por ser um veículo ainda relativamente novo (apenas cinco anos de produção), pode-se esperar ainda alterações nos modelos futuros. O que mais tem-se solicitado da fábrica é a produção de um modelo custam, nos moldes da Harley-Davidson.

Ficha técnica KAHENA ST 1600

Motor Tipo 4 tempos, 4 cilindros, opostos, refrigerados a ar, comando simples no bloco, acionado por vareta, 2 válvulas por cilindro Cilindrada total 1.584 cm³ Diâmetro e curso 85,5 x 69,0 mm Sistema de lubrificação Forçado por bomba trocoidal e banho de óleo Potência máxima 90 cv a 5.800 rpm Alimentação 2 carburadores duplos Brosol, 32 mm Taxa de compressão 7,5:1 Transmissão Câmbio quadro marchas à frente e uma à ré Relação primária por engrenagens Relação secundária eixo cardã Estrutura Quadro Perimetral, duplo, de aço estampado Suspensão dianteira/curso Garfo telescópico /155 mm Suspensão traseira Monoamortecedor tipo Cantilever, regulável/ 100 mm Pneus Pneu dianteiro 120/70 – 17 Pneu traseiro 170/60 – 17 Freio dianteiro/Diâmetro Disco e pistão duplo / 240 mm Freios Dianteiro A disco duplo/275 mm Traseiro A disco/200 mm Dimensões Comprimento 2267 mm Altura 1.280 mm Largura 790 mm Altura do banco 740 a 800 mm Entre-eixos

1560 mm

Peso seco 317 kg Capacidades Tanque de gasolina 26 litros Reservatório de óleo 2,5 litros Sistema elétrico Ignição Eletrônica Partida elétrica

* Este teste foi realizado originalmente em 1992. Faltaram dados de consumo porque a moto avaliada falhava constantemente, mas não era muito melhor do que o consumo de um Fusca da época, com um agravante: os motores de carro são feitos para funcionar fechado em um compartimento e não exposto. Por isso o barulho era absurdo e o cheiro de gasolina constante. Bom, depois de algum tempo percebi que a tampa do tanque de gasolina tinha pulado fora! O modelo custom foi lançado logo em seguida. Ela deveria fazer cerca de 12 km/litro na cidade!

Eu até gostei de brincar com a Kahena e sei que existem adoradores dessa moto e da Amazonas até hoje. Aliás, no texto original está escrito que a Kahena foi a primeira moto 100% nacional, o que não é correto, pois antes dela a Amazonas já tinha sido produzida. Mas preferi manter o texto original.

Hoje, passados mais de 10 anos, a moda dos triciclos com motor de Fusca está se espalhando e a qualquer momento algum desses artistas é capaz de relançar uma moto-Fusca!

publicada em 13 de junho de 2006 ….

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