Geraldo Tite SimõesJornalista especializado há 25 anos, piloto e instrutor de pilotagem. Já editou as principais revistas de motociclismo do Brasil.

   
 
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O perigo que vem dos céus

Nas férias nós temos uma preocupação extra representada pelas linhas de pipa com cerol, aquela mistura de cola com vidro moído que corta como serra

Geraldo Tite Simões

 
 

Recentemente, minha irmã médica puxou-me a orelha ao observar que minha moto não estava equipada com a antena corta-fio. Ela trabalha em um hospital municipal em Diadema, na Grande São Paulo e atende vários casos de motociclistas cortados por linhas de pipa. Alguns deles são fatais.

Corri para o centro de São Paulo e instalei minha antena. Ficou horrível, é claro, mas fazer o quê? em pleno século 21 somos obrigados a nos defender de uma técnica de assassinato usada 70 anos atrás pelos jagunços, na qual eles estendiam um fio de arame para degolar os cavaleiros.

O incrível é que já peguei 3 linhas de pipa antes de instalar minha antena. Uma delas foi em Interlagos, quando treinava. Apenas senti algo estranho no capacete e ao chegar nos boxes percebi o arranhão, como se tivesse sido lixado. Logo depois foi a vez de César Barros ser atingido por uma linha de pipa que lhe cortou a mão. Depois destes dois eventos ainda soubemos de motos que tiveram a carenagem cortada. A fiscalização impede que os meninos soltem pipas na pista, mas eles soltam nas áreas vizinhas e quando laçam uma pipa ela cai na pista, levando junto o perigoso cerol.

A segunda vez foi na Rodovia Fernão Dias, mas a linha pegou nos espelhos retrovisores. Para se ter uma idéia do poder do cerol, depois de parar a moto fui desenroscar a linha e cortei a mão mesmo de luva! A terceira vez foi na estrada que vai de Mogi das Cruzes para Bertioga (tudo em SP), vi os meninos na beira da estrada e reduzi. De repente a linha estava na minha frente. Só deu tempo de montar nos freios e parar de vez. Quando meus joelhos pararam de tremer fui soltando a linha de volta do corpo e descobri, aliviado, que não tinha cerol. Mesmo depois destas experiências eu só decidi instalar a horripilante antena depois de ouvir os relatos da minha irmã sobre narizes arrancados, bocas dilaceradas e jugulares seccionadas.

Os pontos perigosos, onde há maior incidência de pipas, é nas estradas que têm canteiro central. Na proximidade das cidades é preciso ficar de olho nos céus. Ao menor sinal de pipa no ar reduza a velocidade porque a linha se extende por muitos metros e é quase invisível.

Aos motociclistas pais de meninos eu recomendo sempre uma conversa séria a respeito do cerol. Este produto tem venda proibida há anos, mesmo assim alguns comerciantes inescrupulosos continuam vendendo. Ou então as próprias crianças fabricam em casa com cola branca e lâmpadas moídas.

A exemplo do que já acontece com os sprays dos pichadores, os policias não podem fazer muita coisa além de apreender as linhas e as pipas. Não dá para punir uma criança de 12 anos. Neste final de ano eu vi a guarda municipal de Santos, SP, verificando se as pipas estavam com cerol. Mas Santos é uma cidade à parte, pois lá parece que tudo funciona melhor. Ou melhor, lá parece que tudo funciona.

  Site da Campanha Nacional contra o Cerol:
http://www.cerol.com.br/
 
       
 
Matéria publicada originalmente em 06/04/2006 e republicada em 01/08/2006
 
 
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